Corria o ano da graça de 1970 - pouco depois do famigerado AI-5, de infeliz memória. Na cidade do Rio de Janeiro, o Colégio Santo Inácio (rua S.Clemente - em Botafogo) festejava a instalação ou ampliação de um turno da noite direcionado a estudantes dos morros da periferia.
Como professor de História estive presente. Simultaneamente, era uma espécie de calouro no já famoso "O Pasquim" ( ainda com o "O" inicial...) e avisei ao responsável pela edição do semanário da reunião. Ele disse para aproveitar, pois gostava dessa visão tida como "comunista" pela ditadura. Mais, acrescentou, "e talvez fizesse uma matéria se aproveitasse alguma fala interessante".
Era uma noite chuvosa, mas o salão ficou bem cheio. Para minha surpresa o "chefe" Tarso de Castro, em pessoa, apareceu e sentou -se ao meu lado. Evidentemente o "mineirinho" aqui, - como ele me chamava - ficou empolgado com o prestígio.
Lá pelas tantas um oficial fardado foi apresentado e se identificou como Newton Cruz e assegurou que estava ali a convite do Reitor da PUC - Pontifícia Universidade Católica. Fez um breve discurso e terminou com uma provocação, aparentemente desarmado: Vim ver se tem algum comunista por aqui...
Num impulso, talvez pela idade, inferior aos 30, me levantei, sob o olhar do chefe e para mostrar serviço a ele, perguntei:
- Boa noite, o senhor achou algum comunista por aqui?
O editor de "O Pasquim" puxou meu braço, como quem mandasse me sentar.Todavia a bomba já estava no ar, melhor, no colo do orador fardado. Ele olhou pro meu canto e descarregou:
- Numa hora dessas é que falta a educação para os mais jovens. . .Eu prefiro responder com um soco na cara...
Como já havia me sentado, na platéia, me levantei e insisti, contra a vontade do chefe ao lado:
Mas , coronel ou general, não sei, o senhor quer vir aqui dar soco? Foi apenas uma pergunta sobre um assunto que o senhor mesmo iniciou...Na verdade, fui constrangido a me sentar. Mas completei o pensamento:
- Se mereço o soco pode vir...
O tumulto que se seguiu praticamente encerrou a cerimônia. A inquietação da "autoridade militar" era visível e também da plateia. O "deixa disso" aparentemente acalmou os ânimos e o Diretor encerrou a cerimônia rapidamente.
Saímos imediatamente, eu e o Editor, sob o olhar furioso do policial e de certo tom de aplauso da plateia - que nada tinha com a perder.
Na Editora Mory (rua do Resende,65 - Centro da cidade), logo depois, recebi uma ligação do chefe, Tarso:
- Mostra que é bom jornalista e escreve uma matéria sobre o soco que o militar te prometeu...Se a censura deixar eu publico.
Sofregamente, fiz um texto de uma lauda e meia. Achava que seria a glória...mas na quinta-feira à noite, na sessão rotineira da censura, o texto foi cortado, em minha frente, com caneta vermelha...e tivemos que encaixar outra matéria no buraco que o soco prometido provocou.
O nosso presidente já prometeu, por algumas vezes, responder com socos a perguntas incômodas dos repórteres. Distante dos tempos do velho e inesquecivel "O Pasquim" ou "Pasquim", como entrou para a história da imprensa brasileira, a gente fica torcendo para que um jovem ou louco jornalista se ofereça para levar um dos vários socos prometidos pelo nosso Coronel...
Vai sair fumaça em Brasília e no mundo. Será que veremos?