"caía a tarde, feito um viaduto" quando este "equilibrista" se meteu
em um curso de doutorado em Sociologia e o 'jogo' lá me retrilngiu
tanto a disponibilidade do tempo que passei batido estes últimos
meses.
Mas o Jornalismo continuou na sua batida e estamos de volta ao presente.
Abaixo segue o primeiro sinal retórico de ressuscitamento simbólico.
Abs,
João de Deus
BRT FORA DOS TRILHOS
O Globo trouxe na capa da edição de domingo – 6 de janeiro – foto de
destaque do dia e chamada para um texto que mostrava porque os ônibus da recém-inaugurada
BRT estavam rodando fora de suas pistas, ainda com cheiro de novas: os buracos.
Na edição do dia seguinte, também na capa, estava de novo o tema: “BRT –
reparos feitos às pressas”.
Como é de bom tom, o jornal
procurou ouvir tanto o lado da prefeitura quanto o da empresa responsável,
Sanerio. Os leitores, então, ficam sabendo que, segundo o prefeito, “os
problemas se devem à má qualidade do serviço e que pode obrigar a empreiteira a
refazer a pista.” Já a empreiteira assegura “que foi obrigada a entregar a obra
antes do tempo. A prefeitura não esperou o tempo de assentamento do asfalto
para começar a operação.”
Há um velho e vencido princípio
no Jornalismo sobre as versões dos fatos: “O correto e a verdade estão em ouvir
os
dois lados”. Agora fica a pergunta ao leitor inteligente:
- Você entendeu qual o correto,
qual é a verdade nessa história?
Divulgue ou crie uma ‘igreja’,
pois sua capacidade intelectiva deve ser, realmente, extraordinária.
O problema é semelhante ao
polêmico caso de quem tem o direito de cassar políticos condenados no caso do
‘mensalão’ (a gente até espera que valha para todos os mensalões que estão na fila do Supremo Tribunal Federal,
especialmente o mais antigo, do PSDB, beneficiando a reeleição do governador de
Minas, Eduardo Azeredo, em 1998). Se você não tiver formação em Direito vai
achar que cabe apenas ao STF isso, pois é o que não cansam de dizer nossos
jornais impressos, sonoros e televisionados. Será que, ao mostrar “os dois
lados”, não estão escondendo o terceiro
lado, o da Constituição?
Em verdade isso é bem conveniente:
espertamente, digo que só há dois lados, os trouxas acreditam e eu vendo o meu
peixe, omitindo o lado que derruba o meu.
Que tal ‘dar uma
olhadinha’, como diria Pedro Bial, mas na Constituição brasileira?
Os jornais podem não gostar, você e eu podemos ser contra,
mas está lá, no Artigo 15:
“É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda
ou suspensão
só se dará
nos casos...de condenação criminal transitada
em julgado
(ou seja,
quando a decisão é definitiva, depois de esgotados todos os
recursos
e apelações). E no Artigo 55, falando dos deputados
e
senadores,
no segundo parágrafo: “a perda do mandato será decidida
pela Câmara
dos Deputados, por voto secreto e maioria absoluta.”
Pois é, tem coisas que são
inventadas, outras que são exageradas e, ainda, umas que não nos deixam saber. É
“preciso estar atento e forte”, como já dizia a velha canção. “Os dois lados forma
uma falácia inventada por um persa ou árabe, do século III, chamado Manes ou
Maniqueu. Ele dizia que tudo só tem dois lados: o de Deus e o do diabo. E muita
gente ingênua acredita nisso, desde aquelas remotas eras. O Jornalismo
‘moderno’, inclusive.
Só não fica bem a pessoas - com
um mínimo de leitura - se deixarem engambelar pelos ranços do “maniqueismo”.
Ele está por trás de todos os preconceitos, inclusive os raciais e os
ideológicos. Por que só existe o “8 ou 80”como excelência? Ou o “preto no
branco” como definição de algo preciso? As sutilezas do vermelho, do azul, do
amarelo e do verde, entre outras, é que permitem definir melhor, muitíssimo
melhor, qualquer coisa, seja relativa a cores, pensamentos ou gostos.
A grande verdade é que os
objetos, as pessoas e os fenômenos são muito mais complexos do que os
acomodados ‘dois lados’. Está na hora de se cobrar dos jornais, das autoridades
e de nós mesmos um olhar sobre todos os lados
possíveis. Os impossíveis a gente deixa para Deus.
Mas, se discute. Afinal, como diz
o anúncio, se ‘sexo é vida’, discutir também é.
Pois, como já afirmou o célebre Victor Hugo: “A palavra,
como se sabe, é um ser vivo.”