quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

DEU NOS JORNAIS

 Gentem,
"caía a tarde, feito um viaduto" quando este "equilibrista" se meteu
em um curso de doutorado em Sociologia e o 'jogo' lá me retrilngiu
tanto a disponibilidade do tempo que passei batido estes últimos
meses.
Mas o Jornalismo continuou na sua batida e estamos de volta ao presente.
Abaixo segue o primeiro sinal retórico de ressuscitamento simbólico.

Abs,
João de Deus





BRT FORA DOS TRILHOS

 
O Globo trouxe na capa da edição de domingo – 6 de janeiro – foto de destaque do dia e chamada para um texto que mostrava porque os ônibus da recém-inaugurada BRT estavam rodando fora de suas pistas, ainda com cheiro de novas: os buracos. Na edição do dia seguinte, também na capa, estava de novo o tema: “BRT – reparos feitos às pressas”.

 

Como é de bom tom, o jornal procurou ouvir tanto o lado da prefeitura quanto o da empresa responsável, Sanerio. Os leitores, então, ficam sabendo que, segundo o prefeito, “os problemas se devem à má qualidade do serviço e que pode obrigar a empreiteira a refazer a pista.” Já a empreiteira assegura “que foi obrigada a entregar a obra antes do tempo. A prefeitura não esperou o tempo de assentamento do asfalto para começar a operação.”

 

Há um velho e vencido princípio no Jornalismo sobre as versões dos fatos: “O correto e a verdade estão em ouvir os dois lados”. Agora fica a pergunta ao leitor inteligente:

- Você entendeu qual o correto, qual é a verdade nessa história?

Divulgue ou crie uma ‘igreja’, pois sua capacidade intelectiva deve ser, realmente, extraordinária.

 

O problema é semelhante ao polêmico caso de quem tem o direito de cassar políticos condenados no caso do ‘mensalão’ (a gente até espera que valha para todos os mensalões que estão na fila do Supremo Tribunal Federal, especialmente o mais antigo, do PSDB, beneficiando a reeleição do governador de Minas, Eduardo Azeredo, em 1998). Se você não tiver formação em Direito vai achar que cabe apenas ao STF isso, pois é o que não cansam de dizer nossos jornais impressos, sonoros e televisionados. Será que, ao mostrar “os dois lados”, não estão escondendo o terceiro lado, o da Constituição?

 

Em verdade isso é bem conveniente: espertamente, digo que só há dois lados, os trouxas acreditam e eu vendo o meu peixe, omitindo o lado que derruba o meu.

   

Que tal ‘dar uma olhadinha’, como diria Pedro Bial, mas na Constituição brasileira?

 

Os jornais podem não gostar, você e eu podemos ser contra, mas está lá, no Artigo 15:

 

           “É vedada  a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão

           só se dará nos casos...de condenação criminal transitada em julgado

           (ou seja, quando a decisão é definitiva, depois de esgotados todos os

           recursos  e  apelações). E  no  Artigo  55,  falando  dos  deputados  e

           senadores, no segundo parágrafo: “a perda do mandato será decidida

           pela Câmara dos Deputados, por voto secreto e maioria absoluta.”

 

Pois é, tem coisas que são inventadas, outras que são exageradas e, ainda, umas que não nos deixam saber. É “preciso estar atento e forte”, como já dizia a velha canção. “Os dois lados forma uma falácia inventada por um persa ou árabe, do século III, chamado Manes ou Maniqueu. Ele dizia que tudo só tem dois lados: o de Deus e o do diabo. E muita gente ingênua acredita nisso, desde aquelas remotas eras. O Jornalismo ‘moderno’, inclusive.
 

Só não fica bem a pessoas - com um mínimo de leitura - se deixarem engambelar pelos ranços do “maniqueismo”. Ele está por trás de todos os preconceitos, inclusive os raciais e os ideológicos. Por que só existe o “8 ou 80”como excelência? Ou o “preto no branco” como definição de algo preciso? As sutilezas do vermelho, do azul, do amarelo e do verde, entre outras, é que permitem definir melhor, muitíssimo melhor, qualquer coisa, seja relativa a cores, pensamentos ou gostos.

 
A grande verdade é que os objetos, as pessoas e os fenômenos são muito mais complexos do que os acomodados ‘dois lados’. Está na hora de se cobrar dos jornais, das autoridades e de nós mesmos um olhar sobre todos os lados possíveis. Os impossíveis a gente deixa para Deus.

 
Mas, se discute. Afinal, como diz o anúncio, se ‘sexo é vida’, discutir também é.

Pois, como já afirmou o célebre Victor Hugo: “A palavra, como se sabe, é um ser vivo.”