A neurociência,
associada à linguística, andou estudando os mecanismos que fazem das metáforas uns verdadeiros e sólidos
roteiros de dominação dos nossos pensamentos. As parábolas também são enquadráveis nesse esquema; de modo
semelhante, a velha tática de “repetir uma ideia”, insistentemente, “até ela se
torne uma verdade”.
Na política, temos visto o emprego desta última estratégia
sempre que um certo candidato à presidência percebe que está difícil ganhar a
preferência dos eleitores: então, não mais que de repente, aparece a ‘denúncia’
de uma tentativa de vender um “dossiê”...Não tem dado certo, mas o cara
consegue ir para o segundo turno. Há quem goste disso. Pelo menos os meios de
comunicação faturam bastante com o ‘escândalo’ que nunca deu em nada.
Antes disso, a televisão nacional pioneiramente explorou o
conhecido quadro em que uma loura ‘americanalhada’ demonstrava que o brasileiro
era, antes de tudo, não um bravo, mas um cara “bonzinho”, espertamente. Tanto a
televisão repetiu o quadro de tal forma que a imagem da “loura-burra” colou nas
moçoilas que cansaram de causar inveja nas de outras tonalidades. No fundo foi
só uma vingança da inveja...mas divertia e vendia a ideia; aliás, bem
colonialistazinha, não se pode negar.
Durante anos nossos olhos e ouvidos não pararam de receber a
mensagem de que bom mesmo era buscar “levar vantagem em tudo”. Aquela campanha
que escrachava com a ética e rendeu alguns milhões a um certo ‘canhotinha de
ouro’. Por sinal, hoje um especialista em se equilibrar sobre chavões.
‘Certo?’.
Há poucos meses foi
iniciada a campanha que se concentra no conceito de que “brasileiro não desiste nunca”. Pois, não é que bastou a primeira paralimpíada, depois
disso, para que nossos atletas especiais “dessem um banho” na demonstração de
que as metáforas podem fazer milagres?
Semanas após uma participação pífia dos nossos
atletas nas Olimpíadas de Londres, foi surpreendente a dedicação dos “paratletas”
do país. Na mesma capital inglesa e, em princípio, com o mesmo DNA
verde-e-amarelo e com as mesmas metas esportivas, onde deveria predominar o
velho slogan de que “o importante é
participar”, os resultados dos cidadãos com ‘necessidades especiais’, foram
muitíssimo melhores.
O que não deixou dúvidas foi a incomparável diferença de
apoios. Enquanto os ‘profissionais’ de destaque dos vários setores esportivos
contaram com polpudas retaguardas financeiras de grandes empresas, os
portadores de deficiência ali chegaram com algum apoio oficial, sim, mas em
valores a quilômetros de distância; para menos. Mesmo descolados desses
‘estímulos’ encorpados, o que se viu foi uma performance exemplar do grupo ‘especial’.
Alan Fonteles – que perdeu ambas as pernas ainda criança –
surpreendeu nos 200 metros rasos, levando a medalha de ouro que todo o planeta
julgava ter dono, o próprio ídolo do brasileiro, o sul-africano Oscar
Pistorius, pelos desempenhos anteriores do africano: ouro nos 100, 200 e 400
metros nas Paralimpíadas de Pequim-2008. Aliás, ele não disfarçou um
desconforto, para usar expressão suave, com a ‘ousadia’ do rival tupiniquim.
O futebol trouxe, pela terceira vez, a medalha de ouro –
enquanto os atletas muito bem remunerados da categoria profissional continuaram
deixando para o futuro aquele lugar de honra em que, pela Fifa, já somos penta.
Sem alarde, o nadador Daniel Dias levou 6 ouros, numa demonstração de que “o
brasileiro não desiste nunca” – como se quer, saudavelmente, construir a imagem
verde-e-amarela.
No dia em que o Brasil comemorava sua independência, 7 de
Setembro, nossos meninos e meninas paralímpicos faturaram 9 medalhas, sendo 5
de ouro. Resultado que muitos países demoraram décadas somando medalhas e não
conseguiram alcançar.
O Brasil fechou neste domingo, com a medalha de ouro de
Tito Sena, da classe T46 da maratona, sua melhor participação em Paralimpíadas
na história. Ao todo foram 43 medalhas em Londres, sendo 21 de ouro, 14 de
prata e oito de bronze, o que rendeu ao país duas posições a mais no quadro
geral de medalhas em relação a Pequim-2008, terminando em sétimo lugar.