quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A baianice e a baianeza de João Ubaldo Ribeiro, no território comum a jornalistas e literatos

“Não há fatos, só interpretações.”
(Freiderich Nietzsche)

A literatura e o jornalismo respondem por um volume expressivo de toda a produção discursiva humana. Os objetivos perseguidos por ambos são múltiplos e cobrem extensa dimensão no campo dos gêneros vocacionados para a elaboração de relatos sob o regime determinado por um contrato de comunicação, pois cumprem certas especificidades que os singularizam.
O modelo de produção de sentidos adotado pelo jornalismo repousa sobre um trio básico no modo de organização de sua estrutura interna – informativo, opinativo e interpretativo – que batiza toda a sua malha retórica. Tão ampla é a tessitura, que se avizinha do fazer literário e com ele opera verdadeira comunhão, de tal profundidade, a ponto de as fronteiras se diluírem entre eles e se fundirem, formando uma mesma meada. É o caso específico da crônica, com seus humores e sabores diversos. Carregada de uma evidente concretude, por usar o imediato como referencial, todavia em núpcias com a perfumaria sutil, etérea da arte.
O presente exercício de percepção-análise-e-relato abandona a polaridade fictícia que alardeia o divórcio entre a arte literária e as escaramuças da “ciência do imediato”, marca mais notável do jornalismo. O resultado é um enlace matrimonial, onde a baianice e a baianeza do mais famoso cidadão da Ilha de Itaparica comanda o ritual, sob os acordes ora da galhofa, no limite do esculacho, ora da ironia, travestida da sedução, típica, por sua vez, dos rituais mambembes e malemolentes da mistura do assertivo poético e pleno de botões, da língua sofisticada de velho Camões, e o gingado estiloso da capoeira afrodescendente. Todavia, incisiva, politicamente falando.
Achegue-se mais, leitor, para ouvir o berimbau místico, de paletó-e-gravata, se disfarçando em cuíca hilária e apimentada, moleca, ao fugir do padrão do conhecido e esperado, provocando a desconstrução de um mantra. Tudo graças às malasartes de João Ubaldo Ribeiro.

Os discursos do quarto poder

O jornalismo tem se caracterizado pelo empenho na busca do novo. Pode-se, até, defini-lo, como a História do imediato, que não seria um erro. Alguns já o apelidaram de “história à queima roupa”. Há gente mal-humorada que já prefere vê-lo como uma erva daninha e o trata como nulidade que não o ter inventado seria um favor à humanidade. Mas tal “profecia” foi em vão e ele se projetou como protagonista da História; com alguma razão, nem sempre sustentada pela ética, infelizmente, é cognominado “quarto poder”.
A primeira informação acadêmica sobre jornalismo, que se conhece, é de 1806, quando, na Alemanha, a Universidade de Breslau ofereceu o primeiro curso sobre a “ciência da imprensa” ─ segundo José Marques de Melo, em sua obra de referência “A opinião no Jornalismo brasileiro” (1985, p.23).
Todavia, segundo mesmo autor, o novo segmento de investigações só ganharia corpo por volta da passagem do fim do século XIX para o XX. Assim, na Suiça, a Universidade de Besle sustentou uma programação de conferências de Karl Bucher sobre “ciências da imprensa”, 1984 a 1890. Em Paris, foi criada a Escola Superior de Jornalismo, em 1899, enquanto na Alemanha apenas no ano de 1916 surgia o primeiro Institut fur Zeitungskunde, na Universidade de Leipzig (MELO, idem, p.23).
Na América do Norte, por mais que a maioria dos autores afirme que ali teria surgido, durante a guerra interna (Norte versus Sul, de 1861 a 1865), a conhecida estrutura do relato noticioso denominado “Pirâmide invertida” ─ hoje dominante em todo o planeta ─, registra-se que o Washington College, na Virgínia, estimulava a criação de um programa de formação jornalística desde 1869; no entanto, as pesquisas sobre o jornalismo só ganharam fôlego na década de 1930.
No Brasil, a publicação pioneira sobre o jornalismo ganhou história nas mãos de Carlos Rizzini, em 1945, com a obra “O livro, o jornal e a tipografia no Brasil”; um ano depois foi criada a faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, seguida da Faculdade Nacional, na cidade do Rio de Janeiro, hoje, UFRJ, em 1947. No entanto, o padrão “piramidal” só foi adotado a partir de 1950, no Diário Carioca; veio trazido dos EUA para a capital do país por Pompeu de Souza, seu responsável direto. Sete anos depois, Carlos Rizzini publicou a obra “Hipólito da Costa e o Correio Brasiliense”, reconhecendo como “brazileiro” um jornal escrito em Londres, mas destinado ao país, com data de 1808.
O Jornalismo, então, pouco a pouco, ganha algumas definições que lhe permitem uma expressiva largueza de espaço para acolher vários gêneros de produção do discurso, ainda que seja confundido com a especificidade gráfica (é denominado “imprensa” pela grande maioria dos autores, até em nossos dias). O já mencionado estudioso Marques de Melo o define como “processo social que se articula a partir da relação entre organizações formais e coletividades, através de canais de difusão que asseguram a transmissão de informações em função de interesses e expectativas” (idem, p.10).
A amplitude do conceito o deixa destituído de singularidades, pois há inúmeros “processos sociais que se articulam entre organizações formais e coletividades” que recorrem a “canais de difusão” para transmitir “informações em função de interesses e expectativas” ─ basta pensar nos mais diversos sindicatos, com seus respectivos jornais ou boletins, nos diversos organismos como a OAB e as ONGs, além de outras entidades congêneres que são tão distantes do fazer jornalístico quanto os diários pessoais publicados na Internet.
Um dos autores mais tradicionais no campo do pensamento jornalístico assegura: “Jornalismo é antes de tudo informação de fatos atuais, correntes, que mereçam o interesse público, devidamente interpretados, porquanto informação, orientação e direção são atributos essenciais do periodismo” (BELTRÃO, 1960, p.61).
Por mais que se deva louvar a amplitude das funções jornalísticas (informar, orientar, interpretar, argumentar), quando Beltrão se refere ao periodismo como sinônimo de Jornalismo está recorrendo a uma designação saudosista demais para caber em um cenário contemporâneo. Emissoras de rádio e televisão, além da Internet (esta ele não chegou a conhecer, é verdade) não têm qualquer compromisso com a sistemática sequenciação de edições; hoje predomina a atualidade, o furo, sem submissão ao dead-line, presente apenas na produção de veículos de feitura gráfica. Aliás, por esta razão, a periodicidade nem pode mais ser apontada como um atributo do jornalismo, como assegurava Otto Groth (1883-1965), apesar dessa premissa continuar sendo repetida ao infinito por todos os autores que abordam a origem do jornalismo, sem qualquer visão analítica da defasagem em que embarcam.
Propõe-se, assim e aqui, um novo conceito: “Jornalismo é a construção de dedicados a objetos de suposto interesse de determinado público alvo”.

Os gêneros e o contrato de comunicação

O fazer jornalístico é constituído, em essência, de singularidades discursivas, tradicionalmente conhecidas como gêneros, que são categorizados em função da “finalidade do texto e da situação comunicativa em que são produzidos” (OLIVEIRA, 2007, p.81).
Pode-se afirmar que, nesse domínio discursivo ─ o jornalístico─, encontram-se basicamente três modos de organização do texto: o informativo (nota e notícia), o opinativo (editorial, crônica, artigo, entrevista, colunas e charges) e o interpretativo (reportagens, algumas entrevistas, colunas, artigos e crônicas). Além desses, se se considerar os gêneros horóscopo e tirinha, chegariam a cinco os modos de organização, incluindo-se o injuntivo e o narrativo respectivamente, conforme nomenclatura de Oliveira (2007, p.85). Para ele, os modos de organização dividem-se em seis categorias, definidas conforme a estrutura interna do texto: descritivo, narrativo, argumentativo (opinativo/interpretativo), expositivo (informativo), injuntivo e enunciativo.
Essa divisão proposta para o domínio jornalístico, entretanto, é bastante generalista, uma vez que, num gênero, como a crônica, por exemplo, ora pode-se narrar, descrever, ora, argumentar; na notícia, além da informação, propriamente dita, também há a narração. Assim, é necessário analisar caso a caso, a fim de determinar qual modo é predominante. Da mesma forma, os gêneros podem tramitar em mais de um domínio, como as crônicas, campo de produção do autor baiano, aqui estudado. Primeiramente, originária do domínio discursivo jornalístico, extrapolou esse domínio, transitando para o universo literário.
Verifica-se, portanto, que os textos publicados nos jornais pertencem a gêneros variados, que ora expressam dados “objetivos” (informativos), ora estão na esfera dos discursos de cunho persuasivo (opinativo, argumentativo), ora restringem-se à elaboração de sentido acentuadamente pessoal sobre dados da realidade externa concreta (interpretativos).
Há quem diga que a função da linguagem predominante no domínio discursivo jornalístico é a referencial, presente nas notícias, considerada marca característica desse veículo, por excelência, informativo. Contudo, basta fazer um pequeno levantamento ─ reportagens, crônicas, editoriais, colunas e artigos ─ para verificar a grande gama de textos oriundos da esfera argumentativa, que correspondem ao modo de organização do discurso mais atuante em nossa sociedade. Koch (1996, p.23) vai além, ao considerar “a argumentação como a atividade estruturante de todo e qualquer discurso”, uma vez que, a todo momento, argumenta-se para justificar um ponto de vista, seja por intermédio de uma desculpa, uma negação de um pedido, seja fazendo valer direitos, criticando, ou ainda, em circunstâncias noticiosas, tentando demonstrar que o ponto de vista adotado é o verdadeiro etc. Nesse sentido, a função da linguagem mais atuante na sociedade é a apelativa, e o jornal não foge à regra, visto a quantidade de gêneros dos quais ela faz parte.
No caso da crônica de João Ubaldo, objeto deste estudo, cuja característica reivindicada nos bancos escolares é a fugacidade do tema, percebe-se a argumentação, o comentário, como processo constitutivo do relato, que narra a história do personagem Zecamunista, inventor de uma nova ideologia a ser aplicada no Brasil. Em duas de suas crônicas, publicadas em dois domingos de outubro seguidos, o autor explora a temática corrupção que, apesar estar estampada em todos os jornais diariamente, não pode ser considerado assunto fugaz, uma vez que é tão velho quanto a própria história do país ─ e para não sermos injustos, de praticamente todas as nações.
Retomando a questão da argumentação e em virtude de sua proeminência na construção discursiva, torna-se muito importante seu ensino na escola, desde as séries iniciais. De maneira geral, o estudo da construção do texto nos bancos escolares centra-se em três modos de organização: descrição, narração e argumentação. Essa divisão, apesar de didática, não traduz a realidade da escrita ─ os textos trazem em seu bojo mais de um modo de estruturação, havendo, na verdade, a predominância de um deles. Em relação ao gênero, este sim não muda, pois a sua finalidade e a situação comunicativa, critérios extratextuais, permanecem.
Além das especificidades acima, um discurso também deve estar em consonância com o contrato de comunicação (CHARAUDEAU, 2008) no qual está inserido, isto é, tem de atender a determinadas indicações, como a formatação do texto, a variante linguística e o propósito comunicativo, por exemplo. Os gêneros petição e receita, só para ilustrar, obedecem a estruturas específicas, com vocabulário funcional e formulação da sintaxe frasal peculiares, de tal forma que o sucesso na comunicação depende da adequação a esses princípios. Os atos de linguagem, portanto, devem se sujeitar às convenções exigidas pelos gêneros, o que implica não esperar a leitura de um jornal como se fosse um romance ficcional. Mesmo que este seja redigido no formato daquele, ainda assim, ele continuaria a pertencer ao gênero romance, uma vez que só a formatação não define o gênero textual.
No ensino da dissertação, por exemplo, costuma-se dividi-la em duas modalidades, argumentativa e expositiva. Apesar de justificável essa subdivisão, ao se expor um fato, dificilmente existe neutralidade, sempre há a possibilidade de captar a intenção do autor, seja pelos procedimentos de referenciação ─ caracterizados pela atividade que consiste na reconstrução dos objetos do discurso ─, seja pela escolha lexical. A diferença reside no fato de, na argumentação, o ponto de vista do autor estar explícito, sendo função do autor persuadir o leitor, visando sua adesão ao posicionamento defendido. Neste caso, além de acionar seu conhecimento linguístico (primeira barreira, entendimento das palavras), tem o leitor de acionar seu conhecimento de mundo para compreender os argumentos postos pelo autor, seja explícita ou implicitamente. Perceber as estratégias discursivas, isto é, a forma como os argumentos se desdobram, é responsabilidade do leitor, da sua perspicácia em captar os sentidos que compõem as entrelinhas.
Voltando à plataforma discursiva do jornalismo impresso, pode-se assegurar que o “dedo interpretativo” das individualidades intervenientes no processo editorial aparece com evidência e constância severas na distribuição de ilustrações, no uso da cor seletivamente, na dimensão dos títulos, na escalação das matérias em determinados lugares, ora mais nobres, ora mais de sombra, em cada página, a começar pela capa. Tais decisões estratégicas, aparentemente cândidas e distantes da manipulação, são verdadeiros discursos intencionalíssimos e carregados da retórica, muitas vezes as mais inconfessáveis, eticamente falando, “transbordando num espaço multissígnico e multimidiático” (SIMÕES, 2009, p.54).
O jornal, como ambiente de múltiplos códigos, exige do leitor interpretação que se realiza na constante contraposição do signo verbal e do não verbal. Em virtude da complexidade de informações e de temas variados, o leitor está exposto a diferentes áreas do saber que, de modo transdisciplinar, demandam habilidade de leitura para captar o dito, o não-dito e o imagético. Tanto as marcas expressivas (icônicas), quanto as impressivas ou indiciais (idem, p.59), presentes na mescla dos signos verbais e não verbais, despertam a imaginação do leitor, forjando sua interpretação. Portanto, reafirmamos que não só a imagem, mas a própria diagramação, com tudo que lhe é inerente, tem participação ativa no construto do texto, compondo sentido junto às palavras que, por sua vez, também têm sua contraparte imagética, na medida em que se fundam na imagem mental de algo (idem, p.68).
Um caso recente e exemplar é a edição dia 25 de outubro do presente ano, do competente O Globo. Reconhecido por não “digerir” os governos de cunho esquerdista (o termo costuma ser excomungado, mas aqui é pertinente, espera-se demonstrar, pelas evidências discursivas), de âmbito regional ou federal. O caso Leonel Brizola foi tão notório que a Justiça, fustigada por anos a fio, fez a conhecida ‘intervenção fatal’: no dia 15/3/1994, um Cid Moreira, na condição de constrangido, leu burocraticamente: “Todos sabem que eu, Leonel Bizola, só posso ocupar espaço na Globo quando amparado pela Justiça”. Foram apenas 440 palavras que o poder judiciário arbitrou bastar em compensação pelos anos de alegorias, metáforas e ataques frontais contra a figura maior do Estado do Rio, eleito democraticamente, por duas vezes.
No veículo impresso da família Marinho, o embate contra partidos e personalidades continua, sem trégua. Alguém já disse (Lula) que nossos jornais ‘agem como partidos políticos’ – ninguém gostou, claro; seria aético. Todavia, o grande matutino carioca trata “diagramaticamente” os personagens com os quais não simpatiza ─ para usar uma expressão ingênua ─ com uma competência ‘profissional’. No auge de uma denúncia de corrupção, envolvendo o ministro dos esportes, Orlando Silva, sabidamente herdado do governo Lula, a manchete (não uma chamadazinha qualquer) daquele dia era “Delator articula com 7 ONGs novas denúncias no Esporte”. O subtítulo ou “linha fina”, no jargão das redações, era “João Dias entrega à PF gravações de conversas com servidores da pasta”. Então, do nada, aparece, imenso, o dedo “ideológico”: antes de qualquer linha informativa sobre o evento anunciado, uma foto colorida de 24 por 15 centímetros, oito vezes maior que o texto, traz a imagem do cidadão Lula e da presidenta Dilma, sorridentes e portando cocares indígenas azuis. É bem verdade que a foto estava “justificada” por uma legenda quase invisível, mas devidamente “envenenada” pela alcunha que a inicia, maiúscula: “CACIQUES: A presidente Dilma e o ex-presidente Lula participam da inauguração da ponte Rio Negro ─ uma obra de R$1.099 bilhão, no Amazonas”.
Não satisfeitos, os artífices do estranho “mix” estético ideológico trazem na página 4, inteira, a manchete: “Dilma: Orlando não resistiria à nova denúncia”. Novamente numa foto de 19 por 11,5cm, em cor e registrando os mesmos cocares anis, estão lá as duas personalidades “indigestas” para o jornal que governam e governaram o país nos últimos oito anos e quase dez meses. A matéria textual ocupa praticamente a mesma extensão da foto irônica. Neste caso, pelo menos na região de baixa visualidade da página, há uma pequena foto da tal ponte “pretexto”, assegurando que ela “liga Manaus ao município de Iranduba”. A matéria só fala do caso do ministro; em verdade quase isso, pois das 161 linhas, sem contar título, subtítulo e fotos, somente 7 falam da ponte...
Ainda há dúvida de que a diagramação ou “arte”, como alguns eufemisticamente a nomeiam, seja um dos discursos a serviço da retórica jornalística?

Análise do processo irônico/argumentativo na crônica “Novos Horizontes Ideológicos”

A ironia, enquanto estratégia discursiva, faz parte de uma manobra do escritor de, por intermédio do dito, passar a mensagem oposta. Pensando na máxima de Grice, “não diga aquilo que acredita ser falso” (Koch, 1996, p.153), a ironia, analisada explicitamente, seria uma violação a esse preceito; contudo, como a leitura se realiza amplamente na esfera do não-dito, a ironia não foge a essa indicação.
O texto do João Ubaldo, em crônicas publicadas no diário da família Marinho, tem como característica a ironia que resvala para a galhofa. É uma produção argumentativa, bem fundamentada e que invade o cômico, pela forma como é redigida. Vale ressaltar que essa forma de redação não é escrita fácil para aqueles pouco afeitos ao exercício do ato gráfico ou com pouco contato com ele, como a maioria do alunado brasileiro. Por intermédio da ironia, Ubaldo procura revelar a falsidade de sua tese, mostrando, pelo caminho do absurdo, seu ponto de vista. Por intermédio dessa estratégia, busca a anuência de seu leitor, uma vez que assumindo o discurso contrário, no caso ─ a favor da corrupção ─ ,o desconstitui.
A ironia pode ter níveis diversos, sendo mais exposta ou menos. No discurso oral, tem-se na entonação grande aliada; mas, no texto escrito, o leitor tem de perceber o contrasenso do explícito para atingir o verdadeiro objetivo do texto.
Ao analisar essa crônica, devemos ter em mente o momento de sua enunciação, de modo a captar as informações que emergem da superfície textual, por intermédio das relações lógicas, e as que emergem do discurso e são subjetivamente reconstruídas pelo leitor. Neste último caso, o leitor tem de perceber a intencionalidade do autor na sua crítica a padrões recorrentes na nossa sociedade, a corrupção, a fim de desvendar sua fina ironia, que chega a ser mordaz em alguns momentos.
A ironia, portanto, é alçada a categoria de especial relevância, na medida em que se constitui sobre o explícito e torna-se recurso argumentativo ao ser compartilhada sob a forma de subentendido. Retoricamente, o foco do discurso está centrado exatamente nas entrelinhas, no implícito, funcionando como estratégia de defesa de um ponto de vista, de modo a convencer o leitor, de forma subliminar, da verdade do que está sendo dito.
O autor, ao misturar relato com comentário, cria uma atmosfera por intermédio da história, que lhe permite opinar mais livremente, além de servir de contexto para a argumentação a respeito da epidemia corruptiva que assola o Brasil.
Ele emprega a sigla IPCA, porém não a explicita de imediato e cria certa atmosfera de mistério, deixando em suspenso o rumo de sua argumentação, que, a princípio, se confrontada com o título, “Novos horizontes ideológicos”, poderia ser mais uma argumentação, entre tantas outras, no campo científico e filosófico. Contudo, quem conhece o autor e seu estilo fica na expectativa da subversão, que começa a ser anunciada no sintagma “realidade nacional” e na frase “encará-la sob nova perspectiva (...) abrir novos horizontes ideológicos” e não para mais. Ou seja, a tese defendida pelo autor a respeito da corrupção torna-se semi-ativa no discurso, uma vez que a todo momento o autor reitera o roubo como esquema predominante na sociedade brasileira.
Há forte ironia, quando afirma que “nossos problemas precisavam de soluções originais”, “chave para uma nova era de paz e prosperidade”. Ao colocar como fundamento de sua tese a “oportunidade para todos”, deixa subentendido o que, de fato constituiria um bom governo, apesar de, no contexto da crônica, ser uma proposta irônica. Ao mesmo tempo, essa expressão vai ao encontro do personagem Zecamunista, relator da proposta, cujo nome é um neologismo, que justifica sua própria tese.
O sintagma “soluções originais” ao ser confrontado com “bases ideológicas que hoje já mais ou menos norteiam as ações dos nossos governantes”, tem o ar de um paradoxo, no entanto revela a perenidade das práticas de nosso governo: “roupagem nova para velhas atitudes”.
No segundo parágrafo, João Ubaldo critica o linguajar dos políticos, quando afirma que “Zecamunista usa palavras de que nunca ninguém ouviu falar”. E continua seu tom de crítica quando assegura que o IPCA é “coisa existente em centros adiantados”, isto é, nos altos escalões do governo, com localização em grandes centros urbanos.
Depois ele explora o mistério sobre a sigla. Neste parágrafo, traz à tona a ignorância do povo relativa a essa sigla, fazendo a seguinte pergunta: “Ainda que mal se perguntasse e bem se perdoasse a ignorância, em que consiste esse famoso IPCA? Qual a função dele, nos lugares onde já existe?”. O modo do verbo utilizado na primeira pergunta reforça o conteúdo proposicional do enunciado, uma vez que põe o fato como suposição a transparecer seu ponto de vista, ao passo que se tivesse utilizado o presente, “Ainda que mal lhe pergunte” teria reforçado a certeza em relação com o que está enunciando, conforme se observa na segunda pergunta. O emparelhamento de duas indagações com modos verbais diferentes compõem um estilo de “morde e assopra”, em que ora é mais veemente e ora atenua suas alfinetadas, mesmo que de forma tênue, como neste caso, por intermédio de variação morfológica do verbo. Além disso, o uso do chavão “perdoar a ignorância” traz em suas entrelinhas a máxima que circula no imaginário da sociedade brasileira, a de que “o povão é burro”, transparecendo uma forma de escrever em que a ironia não se concentra em alguns pontos, mas aparece “salpicada” ao longo de toda sua exposição.
O mote de seus argumentos é a corrupção cujo raio de influência exige que seja transformada em instituto. A sigla funciona como índice do seu significado cômico/irônico: “Instituto Político de Corrupção Aplicada”, demonstrando, na fala do Zecamunista, a criatividade de sua nomenclatura, afirmando tratar-se de um “pioneirismo nosso”.
No quarto bloco, Ubaldo retoma a conversação, após explicar a referida sigla, por intermédio da estrutura clivada, “Como se sabe”, criando a pressuposição de que o que será dito é compartilhado por todos. Em seguida, com a clareza do cinismo que quer evidenciar, ele não mede as palavras: “rouba-se muito no Brasil e a maior parte dos governantes vê o poder como caminho aberto para se fazer na vida” (itálico nosso). Então, e de modo enfático, o autor escancara a ironia do estado “democratizante” ao iniciar sua frase com um conectivo ratificador: “Aliás, é como todo mundo, não só os governantes, vê o poder. Estranho é o sujeito que vai eleito ou nomeado alguma coisa não prosperar economicamente”. Ou seja, o que deveria ser anormal é tomado como padrão e, o que é pior, o povo legitima essa prática.
O sexto parágrafo é provocado por uma suposta contestação, ironicamente retórica:
“─ Mas, Zeca, você sempre disse que é contra a corrupção.
─ Disse e sou, mas isso é no terreno filosófico.”
No terreno prático, ele é a favor da corrupção, desde que se inclua o povo no esquema corruptivo. Em “A corrupção só é um problema devido à exclusão”. O advérbio “só” funciona como modalizador, fornecendo um tom sarcástico ao que deveria ser, de fato, um problema.
Em seguida João Ubaldo não deixa pedra sobre pedra no intento de produzir um discurso politicamente incorreto, mas subliminarmente usual nos palanques dos candidatos a políticos: “Com o IPCA a corrupção vai ficar ao alcance de todos”. E, em seguida, por intermédio do modalizador “claro”, faz uma crítica contundente aos nossos governantes, adjetivando-os de forma escancarada: “Claro, não se vai esperar que o corrupto de um pequeno município atinja os mesmos patamares de um juiz safado, um deputado ladrão, um senador salafrário ou um ministro vigarista”.
No bloco seguinte (sétimo), o baiano de Itaparica dá uma estocada na própria polícia federal: poderia continuar a domesticar e a prender, mas a regra de “prender na segunda e soltar na terça” tinha de valer para qualquer corrupto, sem distinção. Nisso ele demonstrava “caráter”.
De pronto, ele desloca para a boca do personagem outra inventiva: “Aliás, agora mesmo me veio outra idéia inovadora... Agora todo mundo tem estatuto e, portanto, vamos criar estatuto do corrupto...” Não resiste e apela para o sarcasmo explícito ─ “um bom estatuto faz milagres... sou a favor de estatuto para tudo, Estatuto do Carnaval, Estatuto do Corno, Estatuto dos Fanhos e assim por diante”. E, novamente, volta à ironia, fechando o parágrafo: “A Prática do estatuto é uma abordagem que ainda tem a vantagem de já estar sendo aplicada no Brasil, onde todo dia aparece estatuto novo”.

Perspectiva finalizadora

Então, fechando o discurso irônico-sarcático, nosso notável escritor esbanja coerência: “O bom comunista, como ele, sabe aproveitar circunstâncias adversas em benefício de suas causas.” E, pelo novo estatuto, “os pobres e semipobres da ilha adquirirão novo status político-econômico, mesmo porque não será esquecido o estabelecimento criterioso de mecanismos para permitir o ingresso deles no multifacetado e fascinante mundo da corrupção”.
Os adjetivos “criterioso, multifacetado e fascinante”, ironicamente revelam as artimanhas da corrupção, que se concretizam nos substantivos “financiamento, treinamento e estágio”, ao dizer: “Além de financiamento, treinamento pelo IPCA e estágio em alguns dos órgãos públicos mais notoriamente corruptos nos três poderes”. Aqui, o autor, por intermédio de desdobramentos cognitivo-discursivos, fecha o cerco de sua argumentação ao declarar abertamente sua posição sobre os três poderes, mas não o faz sem antes contar com a anuência de seus leitores, ao utilizar o advérbio “notoriamente”.
Ubaldo se empolga e critica os programas “bolsa”, propondo a pouco sutil “bolsa corrupção” que serve para aqueles que não são capazes de se sustentar, carregando na tintura ideológica, projetando o absurdo de sua tese.
Ostensivamente embalado pelos crivos da ironia, da crítica e do sarcasmo, João Ubaldo Ribeiro, cidadão mais projetado de Itaparica, rival em tudo do decantado e já falecido ACM, cede espaço ao personagem-tema, Zecamunista, em um exercício de suicídio ético: ─ “Descobri a filosofia desse governo. Tem como modos de ação o bolsismo e o estatutismo. Cabe a nós, proletários, usar os dois em nosso benefício.”
E a cultura popular continua assegurando, com nítida unanimidade: o baiano pode ser preguiçoso, mas Nosso Zecamunista não reza por esse manual litúrgico. Evidentemente. Ele está encharcado no dendê, vencido e corrosivo da fornicação como projeto político. Faz escola.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O ‘esporte’ do apedrejamento e os sem qualquer esportividade

A notória fragilidade humana se manifesta nos momentos mais desumanos – teria dito Albert Einstein quando esteve no Brasil, no século passado. As palavras não foram estas; mas a ideia, sim. Pois agora se pode dizer o mesmo no mesmíssimo país ‘caricaturizado’ como terra dos ‘bonzinhos’ (“Brasileiro é bonzinho”, dizia o velho gancho da comédia antiga).
Bastou ir ao espaço a notícia de que o ex-presidente Luiz Inácio estava com um câncer para um número expressivo de cidadãos ‘bonzinhos’ cobrarem que o Lula fosse se cuidar em um hospital qualquer; a maioria exigia que fosse para uma fila do SUS ou algo que o valha.
Engraçado, melhor, trágico é que de Tancredo Neves, Juscelino, Jânio, assim como do ex-vice presidente José Alencar nem do Itamar Franco – para mencionar dois casos bem recentes – não se ouviu tanta ‘preocupação’ com a saúde dos homens públicos. O próprio Paulo Salim Maluf escapou do conselho, quando alegou estar doente (sintomas digestivos) para escapar de um “estado prisional”, há pouco mais de dois anos, e foi surpreendido tomando cerveja e traçando lingüiça de porco em Campos do Jordão, dois dias depois de solto. Não é por nada, não, mas o ‘imorrível’ político tem sido procurado, digamos que “policialescamente”, por mais de 100 nações. Claro, no país dos bonzinhos ele virou um equilibrista nas entrelinhas das leis e das vontades judiciárias.
No entanto, voltando ao caso do “paraíba, analfabeto e sapo barbudo” que pôde buscar atendimento em hospital de referência, a tchurma não quis perdoar...Será por que, em seu governo, eleito democraticamente - também é bom lembrar - ele exagerou ao criar mais de um milhão e meio de vagas em universidades públicas? E, agora, alguns desavisados do feito e aproveitadores dele querem se vingar? Ou seria pelo fato de, em seu governo, as escolas federais terem alcançado na pesquisa do conhecido organismo internacional PIZA (alguém, por obséquio, poderia ‘desenhar”, para os analfabetos funcionais, que não se trata daquele pratinho calórico da terra da bota?).
Há, ainda, a hipótese do enfurecimento naturalíssimo, claro, de alguns intelectuais e outros boçais, mesmo, que ainda não aceitam que um cara, sem diploma superior, recorrendo só a nove dedos das mãos tenha propiciado a revolução de incluir na classe média 27 milhões que eram só “zeros à direita e à esquerda”, mercadologicamente falando, feito reconhecido internacionalmente. E, o mais incrível, é que os mais desvairados adversários locais reconhecem. Também existe a hipótese de que o tal de Lula é responsável por esse monte palhaços de antiga baixa classe média tenha trocado suas bicicletas por carros que estão congestionando as ruas e estradas? Isso não se faz com nós outros que antes desfilávamos mais tranqüilamente…
- Então, esse irresponsável tem que ficar numa fila do SUS para aprender sofrer na pele os efeitos do ódio de quem ele está incomodando. É o que se pode “ler”, mesmo sem o palpite do arcaico e prosaico Sr. Freud. Ele também incomodou quando começou a dar voz e vez ao inconsciente, sufocado e castrado, até então, pela elite científica do início do século XX; ele também foi renegado, vaiado e aconselhado a se virar, pela aristocracia, com um câncer na boca.
Evidentemente, os dois barbudos cometeram erros. Claramente, ambos carregavam defeitos. Nitidamente é um direito de cada individualidade gostar ou não, seguir ou, até, aplaudir ou não os feitos ou ideias desses malucos que se recusam a repetir os modelitos que estavam dando tão certo...Transparente. O triste, humanamente falando, é que o “analfabeto social” só sabe se expressar para puxar a corda, uterina e ensebada, do ressentimento e da mais deslavada ignorância.
Um dos mais conceituados nomes do pensamento político e jornalístico do país, Clóvis Rossi, elegantemente falou de um “brutal surto de preconceito, de origem social”, sugerindo que o paraíbazinho desdedado “fique que no seu devido lugar”. A também colunista da Folha de S.Paulo, Barbara Gancia, afirmou que enxergou ali a reação de quem não tolera “essa gente que lota os aeroportos e não quer trabalhar como empregada doméstica”. Ambos foram na mosca, sublinhando a intolerância e o preconceito, além do velho complexo de “filho único” que agüenta ouvir um ‘não’, mesmo quando se trata de coisa tão séria quanto a vida. Aliás, reações geraram na Folha.com mais de 200 mil comentários. (Folha de S.Paulo, 6/11/2011, p.A8) interatividade democrática é , de um lado, um avanço do jornalismo e, de outro, uma porta direta.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

GISELE BÜNDCHEN DE LINGERIE

“O perigo é maior quando homens pequenos projetam sombras imensas.”

Deu nos jornais, na sexta-feira ,14 de outubro: “Conar mantém anúncio de Gisele Bündchen de lingerie”. (O Globo, p.28)
Aí ficamos sabendo que o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária decidiu manter a campanha que a mais famosa representante brasileira no planeta fazia de conhecida marca de roupa íntima – vestida a caráter, leia-se, portando majestosamente roupas que lhe cobriam as também conhecidas ‘partes íntimas’. Quer dizer, ‘conhecidas’ genérica e abstratamente falando, claro.
Pois, com tantas questões maiores estourando todo santo dia, não é que 40 cidadãos (que se declaram ‘consumidores’...) se dispuseram a assediar a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres para co-patrocinar uma ‘ação cidadã’ ética contra a ousadia conceitual de se vestir a nossa Bündchen (!) como quem vai à praia, só para suposta e ingenuamente, distrair o também suposto maridinho na hora de relatar - assim como quem não quer nada com o trabalho pesado – que “bateu com o carro, estourou o cartão de crédito e que sua santa mãe iria se mudar para a pobre casa do genrozinho rico e querido”.
Também, pelos jornais, rádios, tevês e blogs, ficamos ‘a saber’, como nossos patrícios d’além mar tanto gostam de dizer, que a decisão tomada é apenas em nível de primeira instância. Ou seja, há fortes indícios, pelo andar da carruagem, de que o jogo será prorrogado, se um ou alguns dos indignados candidatos a “quarenta ladrões” da imagem giseliana resolverem recorrer.
Em contrapartida, novamente pelos mesmos canais de comunicação, honestamente verde-e-amarelos, fica-se ciente da satisfação do SPM “ao avaliar que o anúncio teria explorado apenas mais um dos estereótipos” circulantes na inculta e bela cena brasileira. Só o fato de quarenta cidadãos terem contestado o recurso ao “sex appeal” já seria uma lição da atitude/produto ‘politicamente correto’.
Correto?! Parece que se ouve um coral de 140 milhões de vozes a ecoar pelos quatro cantos da ‘pátria amada’. No ano passado (alguém ainda se recorda?) uma moça, ‘profissional’ em “socialitice”, Paris Hilton, também foi censurada ao tentar vender a conhecida Devassa Bem Loura, fabricada pela família Maluf, nos arredores da exorbitante e saliente cidade paulista que atende pelo indígena e singelo cognome de Itu.
Claro que, em um estado democrático, onde saudavelmente convivem as diferenças mais contraditórias, os ‘quarenta’ supracitados têm todo o direito de protestar contra o ‘estereótipo’ exploratório da performática Bündchen. Da mesmíssima forma como têm todo o direito de ouvir todos os protestos contra tal anatemização. Afinal, é típico da democracia essa largueza e folga no uso (e na respectiva escuta) dos mais variados discursos. Ou será que “ouvimos vozes”?

Enquanto isso, Berlusconi...

Pois é, enquanto nos deparamos com questões tão civilizatórias, como diria o saudoso Darcy Ribeiro, lá no ‘país da bota’, o cidadão que responde pela posto de primeiro-ministro “aposta todas as suas fichas para permanecer no cargo” (O Globo, 14/out.), na quinquagésima sexta vez em que submete ao Parlamento um pedido de voto de confiança nele...Dias atrás as contas dele, relativas a 2010, deixaram de ser aprovadas, mesmo contando com boa maioria no Congresso italiano.
De longe, a gente fica imaginando se ‘tudo isso’ ocorreu só porque o pobre do Sílvio andou falando mal da ministra alemã (não fica bem reproduzir, aqui, o conteúdo da fala do moço). Ou será que pesou na balança a ameaça que fez, recentemente, de cair fora “desse paisinho de m...”? Talvez o que pese ‘na balança’ do defensor intransigente da prisão perpétua para o ‘ativista’ Cesare Battisti, sejam as múltiplas e nada discretas envolvências dele com garotas de programa...A gente nunca vai saber.
O certo é que a velha pátria de Júlio César, de Cícero e da seleção Azurra está metida em uma crise que contamina toda a velha Europa. E o homem de ‘cabelos impecavelmente bem penteados’ (como gostam de qualificá-lo os colunistas da terra que cerca o Vaticano) se equilibra sobre um muro viscoso e sutil de esquivas e bancarrotas. A fala dele agora é: “Meu governo é o único democraticamente habilitado para defender o interesse nacional com a urgência imposta pela crise. Não há outra alternativa confiável para a Itália.”
Como se pode vislumbrar, o velho trunfo do “politicamente correto” é um recurso de ordem universal.

Nesse meio tempo, no Himalaia...

Nossos jornais estão mesmo esfuziantes. Sobram pautas importantes e entusiasmo politicamente corretos. No mesmo dia, o grande jornal dos Marinho informava que “o rei do misterioso Butão, Jigme Khesar Namgyel Wangchuk, se casa com a plebeia Jetsun Pema, de 21 anos, no reino cravado na região do Himalaia, entre a China e a Índia.” (p. 31)
No corpo da matéria – aliás, tecnicamente apenas uma ‘nota’ – ficamos sabendo que o Butão “lentamente adota a democracia”, sugerindo o relato que o enlace com uma ‘plebeia’ é mais um gesto democrático da família real que vê muitos outros tronos seculares balançarem, tanto no norte da África quanto no oriente e nos cantões mais civilizados do ocidente.
Alguém ainda se lembra do candidato ao “trono” francês, o ‘prolífico’ Dominique Strauss-Kahn? Bem, aí é outra história ‘cabeluda’, muito politicamente didática para o alcance dos nossos valores de colonizados, ou de ‘vira-latas’, como diria o falecido Nelson Rodrigues. Mas já bastante gasta. O dito cujo atende até por sigla: DSK e é natural da terra de Descartes, de Luiz XV, de Sartre, entre outros inesquecíveis ‘monarcas’ do método, da aristocracia e da cultura existencialista...Politicamente mais correto é impossível. Fiquemos só ‘de olho’, como diria o inefável Pedro Bial, se convidado fosse para esta ‘espiadinha’ indiscreta, mas esperta, onde se comete a ágape com as misérias humanas mais toscas e hilárias, não fossem trágicas.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Os nomes e as coisas

“O universo é feito de histórias, não de átomos.” (Muriel Rukeyser)
Um marco decisivo na história dos humanos foi o desenvolvimento da capacidade de fazer abstração. Talvez ainda morando em cavernas e árvores, ao criarem nomes para identificarem objetos e ações, ele deram o passo definitivo para se descolarem dos demais seres animados. De modo natural, a socialização dessa habilidade se tornou um requisito básico para que os ancestrais dos futuros astronautas, assim como dos comedores de ‘hot dog’ constituíssem as tribos diversas. Desde então; com ela, puderam articular seus projetos comuns e as mais diversas interações entre si, em busca das melhores condições de convivência e sobrevivência.
A partir desse marco, dar nomes passou a ser essencial para que a espécie humana pudesse pensar. Alguém já disse que “a denominação é essencial ao pensamento.” E com toda a razão. Ficamos tão dependentes da habilidade de dispor de nomes para pensar que ela nos escravizou, literalmente. (Se você tiver disciplina e paciência, experimente pensar em alguma coisa para a qual não exista qualquer nome. Naturalmente, não vale a esperteza de raciocinar com os lugares comuns: “aquele treco que dá naquele tipo de árvore que só existe na tonga da milonga do caburetê...”. Por mais que Vinícius de Moraes tenha cantado o finalzinho do pensamento turvo. Toquinho, também; para o bem da verdade.
Caso não recorramos a um artifício desses – mas que não diz nada – é preciso ser criativo para pensar sem palavras. Talvez seja um vício, um defeito. Mas é um fato.
Assim, não deixa de ter um sentido (profundamente antropológico, vamos reconhecer) a célebre narrativa que abre a não menos célebre Bíblia dos judeus e dos cristãos, o Gênese, atribuído a Moisés, quando relata que o criador de todas as coisas não apenas fez os seres animados em duplas que formavam casais, como deu nome a tudo. Está lá, logo nos primeiros versículos do capítulo inicial: “E disse Deus: Haja luz. E houve luz. E chamou à luz dia, e às trevas, noite.” Mais adiante, “chamou Deus ao firmamento céu, e ao ajuntamento das águas, mares. E viu que isso era bom.”
No mesmo capítulo 1, versículo 19, depois de ter criado o homem, narra o texto que o criador trouxe todos os animais e todas as aves a ele, só para que desse nomes a eles; “e tudo o que o homem chamou a todo ser vivente, isso foi o seu nome.” Em seguida vem a passagem que tem alimentado a coisa feia do machismo: “fez cair um sono pesado sobre o homem...tomou uma das suas costelas e formou a mulher.” Ao exibir a criação ao homem, este não fez por menos e já foi ‘enquadrando’ a cara-metade como extensão de si mesmo, com palavras que não deixam dúvidas: “Esta é, agora, osso dos meus ossos, e carne da minha carne.” (Capítulo.2, versículo 23)
Até nossos dias o exercício da denominação continua como um claro sinal do poder sobre o objeto nomeado. Quando Luiz Gonzaga foi coroado o “rei do baião” – bem antes de Pelé e Roberto Carlos merecerem o mesmo título – a comunidade que tinha alguma voz, no Brasil, fazia um ato democrático, de poder, excluindo os demais candidatos ao posto maior do suposto reinado ou império (que este é mais sonoro).
O jornalismo tem sido um dos nichos nesse campo de nomeações. E elas têm demonstrado ter forte carga de poder. Como um sistema estruturado sobre palavras, essencialmente, os meios de comunicação respondem pelas nomeações de personagens, ideias e eventos que sustentam a narrativa da história humana. Em verdade, os jornalistas fazem apenas um rascunho dessa história, em razão dos limites de tempo que têm para selecionar o que pode ter interesse (agendar), definir o que merece apuração (pautar) e, enfim, estabelecer o que pode ser relatado, tintim por tintim - quer dizer, palavra por palavra - com o menor risco de ser um engano ou, pior ainda, uma mentira aprontada pela fonte dos dados que recolheu (apuração). Por isso o jornalismo é uma autêntica ‘cozinha de palavras’. Cada veículo tem uma espécie de vocabulário e uma gramática, próprios que revelam o perfil ideológico dele. O “equipamento”, digamos assim, funciona como um binóculo pelo qual cada jornal enxerga o mundo, pois serve para nomear as “coisas” todas que julga interessarem ao receptor, seja ele leitor, ouvinte ou telespectador/internauta). No fundo, não são nada diferentes de cada um de nós, pois vemos o que olhamos, sempre, a partir do ponto de vista que já pré-existe em nossa cultura, sensibilidade, gosto e crenças. Mais: a partir do local físico que ocupamos quando olhamos (pense na idéia de ‘horizonte’; é perfeita para enquadrar esta constatação).
Enfim, como os jornais, somos ‘sujeitos’ que nomeiam ‘objetos’ (a palavra sujeito vem do latim ‘subjectum’, indicando “aquele que está submetido a alguma coisa”). Os jornais e cada um de nós somos ostensivos “torcedores”, irremediavelmente atrelados a modelos segundo os quais encaramos tudo o que nos cerca. A partir de tais modelos é que produzimos o entendimento que satisfaz ao nosso desejo de ‘ver’ tudo arrumado, com boa dose de lógica. Este é outra condição ancestral do modo de viver dos humanos: não basta ter nomes para que vai ser pensado e dito, é preciso ter lá certa lógica.
Quando em 5 de junho de 2005, Roberto Jéferson, insatisfeito com o quinhão que recebera (confessou que eram só 4 milhões), buscou a jornalista Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, para jogar no ventilador o que ele denominou por “mensalão”, estava exercendo, espertamente – diga-se de passagem –, o poder de nomear o mal nos outros como quem faz um auto-exorcismo expulsando de próprio corpo a carga de culpa da aceitação de um ‘troco ilegal’ que um funcionário indicado por ele para a direção dos Correios denunciara, após ser surpreendido recebendo propina cinicamente. Claro que tudo isso ocorreu porque os meios de comunicação agendaram, apuraram e relataram – quer dizer “jogaram no ventilador”, para usar uma expressão mais ‘feijão-com-arroz’.
O giro do mundo é tão veloz e de faces tão diversificadas que os meios de comunicação mal conseguem relatar um acidente ou descalabro e já tem que apurar e relatar outras histórias. Acabam esquecendo em um limbo, aparentemente provisório, o desenrolar dos fatos, as conseqüências, os desdobramentos. As histórias, enfim, ficam sem fechamento. Você se lembra, por exemplo, do famosíssimo “Caso Escola Base”? Sim, aquela denúncia de que donos e professores de um maternal, em Aclimação, S.P., estariam abusando sexualmente das crianças a quem os pais confiavam os cuidados? Lembra como acabou a história que começou no longínquo 24 de março de 1994? Pois é: ainda não acabou.
Não se ouve nem se lê qualquer notícia sobre os diversos processos que jornais, revistas, emissoras de tv e o próprio Estado de S. Paulo respondem na Justiça. Não é só porque a Justiça é morosa. Também. Mas, acima de tudo, porque não interessa à subjetividade de nenhum veículo divulgar em que pé anda o estágio do ofício democrático da Justiça, na missão de punir os detratores de inocentes e dar uma compensação aos diretores e professores da Escola Base. Estes, sim, tiveram os cursos de suas vidas severamente afetados pela mentira de uns, pela vaidade de outros, assim como pela ambição de audiência/recepção e venda de todos os veículos.
Todavia não se fala mais no longo processo que deu ganho de causa às vítimas da acusação, em “primeira instância”, há quase uma década. E não se fala mais nisso. Não há mais interesse, como nunca mais houve, desde abril daquele ano, quando se descobriu que tudo não passava de falsa denúncia e podres coberturas jornalísticas de eventos que não ocorreram. Sem querer imputar culpa exclusiva em um respeitável jornal, veja-se como o famoso caso do acidente do “bondinho de Santa Tereza” (27 de agosto) tem rendido matérias diárias no jornal O Globo, com bons espaços também na TV do mesmo grupo. Tudo porque uma repórter daquele grupo foi vítima – ainda está sob cuidados médicos -, além do marido e da filha, esta teve morte instantânea. Desde então, diariamente, o grande jornal traz uma ou mais matérias sobre o acidente ou os bondinhos - pelo menos até o dia 20 de setembro.
Enfim, o que se quer sublinhar aqui, a pretexto da importância de dar nomes às coisas, é que chegamos a um estagio de vida em sociedade no qual só discutimos os temas agendados e pautados pelos meios de comunicação. Quando eles esquecem um ‘objeto’, nós, também, deixamos de pensar nele. Em outras palavras, vivemos no regime, na “democracia” que os veículos de informação nos condicionam ou, mais radicalmente, nos deixam viver, literalmente. Complicado, não? Mas é a mais pura verdade. Daí nasce a importância do chamado jornalismo dos leitores ou internautas, quando o receptor reclama, elogia, critica. Eles estão fornecendo aos nossos ‘pautadores’ uma agenda sobre o que interessa ser incluído nesse imenso salão de debates que é o jornalismo. Para o bem da democracia e não de um só veículo ou autoridade.
Dar nomes é um ato político. É um franco exercício democrático. Inclusive discutir a tal da “regulação dos meios de comunicação” que estes mesmos meios dizer ser iniciativa de ditaduras. Não é de se estranhar: todas as ditaduras reais (no sentido de concretas, é bom explicar) sempre dão um nome feio ou pesado às iniciativas que as ameaçam de alguma maneira. Fazem isso porque sabem o peso que existe no ato de dar nomes às coisas, aos procedimentos, às pessoas. Prezamos tanto a democracia que falar algo apelidado por um esperto de antidemocrático é condenar a nova idéia à prisão do desprezo. No mínimo às condição de cafonice.
Por falar nisso, existe algo mais cafona do que esta palavrinha cafona? Pensar nela é o supra sumo da cafonice. Ou existe algo de mais “acafonado”?

sábado, 23 de julho de 2011

Os “dois lados” na leitura dos fatos no jornalismo

Uma das limitações mais complexas da produção no jornalismo é relativa à observação dos objetos – sejam eles acontecimentos, propriamente ditos, a serem reconstituídos, ou entidades, a serem ‘analisadas’ em suas singularidades respectivas, ora concretas ora abstratas. Como já se sabe, desde o século III, d.C., um persa chamado Manes firmou uma espécie de ‘princípio’ que assegurava que todas as coisas têm apenas dois lados pelos quais podem ser observadas. Ele reduzia tudo ora para o lado de Deus, ora do Demônio.

Daqueles velhos tempos até os nossos dias muita gente, até gente boa, acredita que essa visão maniqueísta (o nome vem do Manes, acima) é perfeita para a percepção completa de qualquer objeto. O senso comum, então, a consagrou como aquela visão clássica do “preto ou branco”, 8 ou 80, ou “dois lados da moeda”; a paranóia do persa virou uma clássica prova de verdade. Quem pensa um pouco mais já sabe que nem há só o preto ou o branco, nem o 8 ou 80, similar. A moeda, coitada, teve que se contentar com a mentira de que tem só dois lados, quando nem precisa ser alfabetizado para reparar que ela dispõe, pelo menos, de três: a cara, a coroa e a lombada (essa esquecida), sem falar nas três faces internas correspondentes a cada uma das externas. Só aí são seis lados da pobre e mal-falada moeda.

Na verdade, os limites da observação humana estão em todas as áreas sobre as quais os homens se debruçam para produzir algum conhecimento, muitas vezes com as melhores intenções. Claro, não se pode generalizar, pois todos os agentes produtores de conhecimentos têm algumas motivações, umas mais nobres e inocentes, outras até inconscientes; infelizmente, nem sempre a aparente ‘melhor das intenções’ é o que se pode chamar, com justiça, de observação isenta. No jornalismo esses ‘deslizes’, digamos assim, são muito mais freqüentes do que se pensa.

Nestes dias (17 de julho) uma reportagem de fôlego do grande jornal O Globo enfrentou a velha encruzilhada da observação de um objeto, em verdade bem complexo: o BNDESPar – uma espécie de entidade responsável por participações acionárias do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social; um braço, portanto, do conceituado BNDES (que, dizem, Obama quer imitar). A chamada para a leitura da referida matéria jornalística já prometia um olhar, digamos, ‘assinado’: “Um poderoso anabolizante de empresas – BNDESPar se associa a grandes grupos. Efeito colateral é uma ‘perda’ de R$ 3 bi.

Quando o objeto é imaginário

Fora a associação originariamente ‘positiva’ com a função transformadora que as substâncias nutritivas sofrem no organismo (função ‘anabolizante’), hoje claramente negativa, pois associada à química ilegítima, a produção de sentidos do texto de uma página inteira (27), sem anúncios, é, rigorosamente, negativa. Sem dúvida, o que justificou a pauta da matéria foi a iminência – já afastada - de o BNDES participar da operação entre o Carrefour e o grupo Pão de Açúcar. A leitura do texto revela como a observação do objeto (BNDESPar) se dá com um olhar estritamente unilateral, por mais que algumas outras fontes, que não o jornalista, tenham se manifestado. Destaque-se: todas com olhar condenatório da atuação do Banco, que não se manifesta.

Logo no primeiro parágrafo o autor diz a que veio, aliás, como pedem os manuais de jornalismo: “seis das maiores operações realizadas pelo BNDESPar dão pistas de que podem não ter sido exatamente um bom negócio. (...) Levantamento do Globo mostra que as operações acumulam uma ‘perda’ de R$ 3,04 bilhões...a partir de 2007 em comparação ao atual valor das ações negociadas na Bovespa” – sentencia Bruno Villas Boas. No entanto, antes do final do mesmo parágrafo se dá o ‘esvaziamento dos pneus’ da reportagem: “A ‘perda’, claro é contábil, não se consolidou porque a BNDESPar não se desfez dos papéis.” (grifo meu)

Ora, ora. Então, a página inteira de O Globo se dedica a uma pauta agendada pelo imaginário do jornalista? Um autor clássico sobre o jornalismo – Nilson Lage - resume uma espécie de ‘pensamento único’ sobre pautas jornalísticas: “A essência do jornalismo é partir da observação da realidade (do que ela tem de singular), esteja ou não conforme alguma teoria.”(Lage, N. A reportagem. Rio de Janeiro: Record, 2001, p.42)

Na mesma publicação, Lage conceitua reportagem como “exposição que combina interesse do assunto com o maior número possível de dados.” (p.112)

Não é preciso esperteza nem sutileza intelectual para notar que a grande matéria não tem base na “observação da realidade”, pois o Banco não negociara as ações (como, aliás, confirma o texto); logo, não teve prejuízos com elas. Os “dados” apresentados para dar consistência ao discurso (“essência do jornalismo”) são até em grande número, mas pecam pela falta de base mínima, uma espécie de “feijão com arroz”, do cardápio jornalístico: os fatos não existem, simplesmente. Sabe-se, ao contrário, que o BNDES tem uma longa história de competência como arquiteto e pedreiro no cenário instalado dos mais diversos segmentos do parque industrial do país.

Por outro lado, o ‘braço’ que investe em ações, o BNDESPar, não apenas trabalha com uma agenda de longo prazo (be-a-bá de qualquer cartilha de aplicações institucionais), como tem divulgado lucros substanciais (R$ 3,4 bi, em 2008, R$ 3,9 bi, em 2009, e R$ 3,7 bi em 2010).

Como este espaço é vocacionado para as questões jornalísticas, quis-se ressaltar, aqui, a presença de “pedra no meio do caminho”, como diria Carlos Drummond, na leitura dos melhores jornais e nos textos dos melhores jornalistas. Mesmo que o leitor desavisado não tenha consciência de como notícias e reportagens são ‘embaladas’, nunca é tarde discutir esses ‘condicionantes’ da veracidade delas. Não é exagero relembrar que outra “produção unilateral de sentidos” aconteceu exatamente no clássico caso da Escola Base, em 1994, de triste memória.

Por mais que ouvir “dois lados” seja uma espécie de “princípio” ultrapassado no próprio jornalismo contemporâneo – é preciso ouvir todos os lados. Observar um objeto de apuração sob um só enfoque já é uma derrota do princípio da isenção. Quando este nem existe, simplesmente, é uma temeridade.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

TÊNIS EM 3D

Em Londres fazia uma manhã ensolarada. Na quadra central do complexo de Wimbledon os dois tenistas mais bem colocados no ranking da ATP, Rafael Nadal e Novak Djokovic, tinham acabado de ouvir o “time” pronunciado pelo árbitro brasileiro, sinalizando que o jogo começaria pra valer naquele instante. De um lado, o espanhol, se despedindo do primeiro lugar no ranking da ATP; do outro, o sérvio, se preparando para assumir a liderança do mesmo. Entre eles uma partida prometia marcar a história futura do torneio mais antigo do planeta, com mais de um século de estrada.

Eram 10 horas e 15 minutos da manhã do primeiro domingo de julho de 2011, dia 3. Na linha abaixo do Equador, no hemisfério Sul, um grupo privilegiado de aficionados pelo esporte das bolinhas amarelas se acomodava nas confortáveis poltronas da sala 8 do Cine Downtown, na Barra da Tijuca. Num horário em que todos os cinemas da cidade, talvez do país, costumam estar fechados, ali estava ocorrendo ‘a primeira vez’ de uma partida de tênis (ou de qualquer esporte) transmitida ao vivo, em cores, em tempo real e – a novidade -em ‘terceira dimensão’ para o país.

Djokovic prepara o saque com uma dúzia de quiques, sua marca registrada.

Alguém na platéia acha graça:
- O cara acha que vai enervar o touro. Ele não sabe o que o espera. Alguns riem.

O sérvio alça a ‘bolinha’ – como é carinhosamente apelidado o equipamento de jogo – a uns 5 metros do solo e um golpe poderoso interrompe sua queda e a redireciona para a área de serviço do espanhol, vivendo as últimas horas de primeiro do ranking. Um silêncio denso e expressivo, na sala praticamente lotada (restam apenas 11 lugares vazios nas duas primeiras filas do cinema), revela o grau de expectativa do público que não pôde estar no All England Club, presencialmente. Naquela hora, uma certeza estava sendo costurada na mente daqueles amantes do esporte de Maria Esther Bueno e, mais recentemente, de Gustavo Kuerten: com exceção do juiz e dos boleiros, ninguém estava presenciando aquele momento histórico mais ‘dentro da quadra’ do que cada um daqueles 119 agraciados.

A platéia prende a respiração: a técnica de captação de imagens e os óculos de decodificação deixam aquele grupo com nítida impressão de estar a menos de 5 metros do tenista de 24 anos e 1,88 m. O golpe que projetou o petardo a 205 km por hora elevou o nível de adrenalina da platéia atenta e ainda impressionada com a ilusão visual de estar ao lado do sacador, como jamais qualquer um dos presentes estivera, por mais que tenha presenciado algumas partidas de ambos os tenistas em algum estádio concreto. A grama, baixinha e já maltratada pelas duas semanas de jogos sucessivos, estava ali, quase ao alcance dos pés, palpável; melhor: pisável. A virtualidade do canal usado para transmitir as imagens era não era mais uma “promessa” de impressão nítida de vizinhança das ações. Uma certeza contaminava a todos: Estávamos no camarote ‘do gargarejo’ de Wimbledon.

Até 12:44h aplausos e expressões de desapontamento pontuaram a marcha do sérvio sobre o “Miúra” da terra de Picasso, de 25 anos e um mês, exatamente. Uma caminhada difícil, mas segura, em direção ao título inédito para o sérvio, mas com o qual o falso canhoto já estava acostumado desde 2005, dando poucas chances aos adversários.

Os poucos momentos de distensão na platéia atenta tinham sido de estranhamento do vocabulário do comentarista ‘patrício’ que anunciava os pontos de maneira desconhecida na terra de Guga: ‘nada a 15’, ‘nada a 30’.

Ah, o jogo: Djokovic venceu por 3 sets a 1 (6/4, 6/1, 1/6 e 6/3). Nadal resumiu a partida de 2 horas e 28 minutos:
- Hoje foi impossível. Joguei o melhor que pude, mas Djoko estava incrível.
Ao comemorar o resultado, o sérvio lançou bolas, empunhaduras e raquetes para o público. Mais: ajoelhou na relva (como dizia o comentarista da terrinha), vacilou por dois segundos e comeu uma simbólica porção da ‘sagrada grama de Wimbledon’.

E entrou definitivamente para a História.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

ESTÃO INJUSTIÇANDO UM LIVRO, SEM CONHECÊ-LO

Os meios de comunicação deram, recentemente, um espaço ‘estúpido’ e ‘sinistro’ à polêmica sobre um livro direcionado a alunos adultos de comunidades mais singelas, onde a linguagem oral não costuma primar pelo rigor gramatical. Aliás, em nenhuma comunidade do país se pode dizer que a fala dos cidadãos anda muito atrelada à sintaxe. Basta lembrar como todo o Sul e grande parte do Norte e Nordeste consagraram a segunda pessoa verbal: de peão a governador do estado, praticamente todos dizem o destemperado ‘tu vai’. Na capital paulista e no interior estão consagrados ‘os mano e as mina’. O acadêmico e ex-presidente da república, FHC, em entrevista publicada no dia 29/05 último, defendendo a descriminalização das drogas, não tergiversou, foi atropelando a gramática: “ aumentando o consumo; tendo um resultado negativo (a guerra contra as drogas), danificando as pessoas e a sociedade.” (Folha de S.Paulo, caderno Ilustrada, p.E2)

Aqui vão as perguntas que não querem se calar: Ninguém vem a público vociferar contra esses abusos? Regiões inteiras falando errado, a capital econômica e acadêmica do país sem saber concordar artigo com substantivo, vai ficar por isso mesmo? Onde estão os vilipendiadores da professora que escreveu um belo livro que ensina corretamente a gramática, quando um homem culto, como o sociólogo Fernando Henrique, atropela as formas verbais?

Pois o ‘tempo fechou’ quando se soube que uma professora de Língua Portuguesa, Heloísa Ramos, havia expressado que convivemos com tal desleixo lingüístico, em um livro distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático. Mais grave: muita gente que se julga ‘boa’ chegou a assegurar que o texto ensinava o erro. Uma procuradora da República chegou a dizer que os responsáveis “estavam cometendo um crime”. (O Globo,17/05, p.3). Um colunista diário do mesmo jornal assegurou que se tratava de uma “pedagogia da ignorância” – mas no mesmo artigo ele cometeu um desses crassos erros de concordância, tão comum na linguagem oral: “Na verdade, está é agravando as condições precárias do cidadão-aluno que busca na escola melhores condições de vida, limitando, se não impossibilitando, que atinjam esse objetivo”. Outro falava que “ensinar compulsoriamente ‘nós pega o peixe’, como admite a nova cartilha, é mais pornográfico que os catecismos de Carlos Zéfiro”. (O Globo, 23/05, p.10- Segundo Caderno)

Aliás, um editorial, do mesmo jornal e no mesmo dia, acima apontado, garante: “um livro que permite erros de português(...) inviabiliza a inclusão social”. O texto continua:“trata-se de questão muito mais séria do que é capaz de alcançar a ideologia de almanaque que justifica tais agressões à língua, à inteligência do país”. (Idem, p. 6)

Durma-se com um barulho desses! Dizer que se fala errado no país transubstanciou-se em “ideologia”, “ofende” a “inculta e bela” e leva de roldão a nossa “inteligência”? Depois as pessoas estranham quando alguém toca na ferida dos meios de comunicação e diz que eles “estão agindo como se partidos políticos fossem.” Pois é. Olhando bem, aliás, lendo bem, não parece que jornalistas, acadêmicos, políticos e clássicos candidatos aos 15 minutos de fama, não têm se comportado com aquela gana desmoralizadora que a saudosa União Nacional dos Estudantes ostentava nos velhos tempos? Cuspido e escarrado.
Estão atirando no que não leram, mas acham ‘politicamente correto’ criticar

Dizer que todo mundo está mentindo intencionalmente é exagero, mas qualquer alfabetizado, devidamente despido de preconceito, pode ler que a autora do livro “Por uma vida melhor” jamais ensina o “dois real” nem o “nós pega o peixe”. Este é fato de constatação facílima. Ela não admite o erro, nem o ensina, em qualquer passagem do livro. Apenas informa sobre a existência dos dois padrões de uso da língua – aliás, quem não sabe, deveria estudar um pouco de lingüística ou ler o livrinho da professorinha. A “tia” Heloísa – com todo respeito - e assegura que a norma culta é melhor, em todo corpo restante da obra. Claro, ela não poderia prever que não-leitores de sua obra tomassem as dores de maus leitores.

Pois o livro “Por uma vida melhor” gasta menos de 0,05% do seu texto, no capítulo 1, para informar que a língua falada comporta variações que a gramática condena, mas a fala não deixa de ser entendida por isso; ela garante que o erro pode levar o falante a ser discriminado; garante que existe o padrão correto e o ensina didaticamente – no restante do livro. Mais: nos exercícios 4, 5 e 8 solicita que o estudante corrija expressões erradas.

O jornal Folha de S.Paulo apresentou, na edição de 22 de maio, um estudo de mais de 1500 horas de falantes brasileiros, só com habitantes de capitais, que revela, “entre os brasileiros com nível superior não passa de 5% a freqüência na fala com que o pronome é colocado em casos em que a norma padrão escrita recomendaria. Entre os menos escolarizados, o percentual é de 1%”.(página 6, caderno Cotidiano)

Muita gente boa, consagrada culturalmente, já atropelou formalmente o rigor gramatical. Guimarães Rosa cometeu o seguinte: “O senhor sabe; pão ou pães é questão de opiniães”. Noel Rosa já escreveu “Mulata vou contá as minha mágoa, meu amô não tem erre, mas é amô debaixo d’água”. O célebre padre Antônio Vieira caprichou: “Assim castiga, ou premeia Deus”. Milton Nascimento gravou uma cantiga de marujada que diz: “Quem me ensinou a nadar foi os peixinhos do mar”.

João Ubaldo Ribeiro está certíssimo quando assegura que “muitas vezes, ao falarmos ‘certo’, estamos na realidade falando inadequadamente, como um orador que, num comício no Mercado de Itaparica, se esbaldasse em proparoxítonas, polissílabas e mesóclises.” (O Globo, 29/05, p.7)

Enfim e ao cabo, o livro “Por uma vida melhor” acaba dando uma expressiva lição de cidadania aos editores dos meios de comunicação, aos intelectuais apressados e a todos nós. Lidando com adultos de baixa escolaridade, antes de arrotar regras gramaticais, ele certifica ao estudante que aquele livro não ridiculariza nem despreza o modo rústico, digamos assim, de falar no ambiente dele. Reconhece que a população fala assim, à margem do padrão da Academia, e que é melhor falar com correção – e o livro se dedica a ensinar isso, o tempo todo.

Como diria o velho Victor Hugo: “A palavra, como se sabe, é um ser vivo.” Saber usá-la, sem preconceitos e despido de condenações, sem base nos fatos, é consagrar o compromisso com a cidadania e com a liberdade de existir; ela é muito mais flexível e menos preconceituosa do que nós nos achamos, em nossa vã sabedoria.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

OSAMA ACERTOU OBAMA

Sem dar um tiro, o mentor do atentado de 11 de setembro de 2001 acabou acertando o presidente dos EUA. Por incrível que possa parecer, está cada vez mais evidenciado que a execução do “símbolo do mal”, nas primeiras horas do último dia 3, encharcou Obama de algo que não se chama justiça, exatamente.

Pelo contrário. Para um país tão preocupado em se dizer e cioso em se mostrar “paraíso da democracia”, executar um prisioneiro desarmado poderia, até, parecer justo para a emoção das quase três mil famílias enlutadas há nove anos. Poderia, sim, mas não é; aliás, não passa da simples volta à barbárie, pois contradiz um princípio básico, pétreo mesmo, da justiça. E para piorar, o esconderijo só foi descoberto mediante tortura, outro grave erro.

A lista de ilegalidades jurídicas começa com o que parece ser uma invasão do território de um outro país, o Paquistão, para chegar ao Osama, por mais que se saiba que “desde 2001, o país recebeu U$ 22 bilhões para colaborar contra o terrorismo.” (Folha de S.P., 8 de maio, p. A2)

Outra atitude claramente sinalizadora do comportamento ilegítimo da “terra de Marlboro” foi revelada pela narrativa dos integrantes da comitiva militar especial: apenas um cúmplice do velho terrorista teria atirado em direção às forças americanas e foi morto no calor do confronto, menos mal. Assim como uma mulher teria levado um tiro na perna por estar entre os soldados e o procurado. Plenamente justificado, pelas circunstâncias do embate.

Consumado o crime da execução, ao jogar o corpo no mar, sem deixar vestígios da materialidade do ato, a nação hegemônica do planeta teria engordado sua ficha de procedimentos criminosos, pois a Convenção de Genebra não abraça a legitimidade desse sumiço estratégico. Fica muito claro que a missão antiterrorista não queria simplesmente fazer justiça, prendendo Bin Laden. O negócio era agir como facínora, pois não tem outro nome quando se planeja e executa uma ação de fazer justiça com as próprias mãos.

A dimensão de um crime não justifica outro crime

Em verdade, o que se nota no episódio é a velhíssima “lei do mais forte” que tanto marcou a história da barbárie humana. As leis internacionais foram elaboradas e aceitas, pela comunidade das nações, precisamente com o intuito de superar o primitivismo animalesco da vingança, diga-se de passagem. Se dizem que isso é prática de irracionais e de mafiosos fica no ar a crendice desconstrutiva do “acredite se quiser”, pois só vale se não se mexer com os armados e poderosos.

Osama planejou e comandou um crime bárbaro contra as “Torres gêmeas”? Sem qualquer resquício de dúvida. Hitler e seus asseclas, também. Mas foram julgados, condenados e executados estes últimos, já que o mandante se matou. Justiça feita.

A questão da barbárie volta à tona quando se revê a história recalcitrante das nações gigantes. Lembra das bombas atômicas sobre Hiroxima e Nagasaki, em agosto de 1945? Foram “apenas” um troco justificado pelo velho argumento arrotado quando se quer vingar: “guerra é guerra”, sinônimo do primitivismo de um vale-tudo suicida. Pois eram rataliação ao bombardeio sobre Peal Harbor, no Havaí, sofrido pelos americanos, em dezembro de 1941.

A grande preocupação é quanto ao rastro infinitamente vicioso dessas recaídas dos mesmos países poderosos que atropelam os direitos todos para se vingarem. Ficar calado, nessas horas, é o mesmo que apoiar a fajutice da “lei do mais forte”. Aplaudir esses crimes cometidos com farda equivale a bater palmas para execuções e torturas praticadas por militares, por exemplo, em um regime “ordeiro” como todas as ditaduras se intitulam. Apoiar atos de execução, assim, com base numa decisão presidencial, compromete o que resta de racional e isento em nós, para soar como puro cinismo, se, enquanto isso, nos espantamos com o volume da criminalidade “civil”.

Ninguém pode ter a ilusão de que ao executar o “homem mais procurado do planeta” Obama esteja construindo uma linha divisória entre o horror do terrorismo e a isenção da justiça.

Quando alguma nação responde a um comportamento bandido com ação similarmente bandida, ela está fazendo como moleque mais forte que bate no subnutrido e pergunta se o outro “vai encarar”. Vai. Pode não ser no mesmo momento nem com o mesmo padrão de punho usado até ali. A certeza única é que “tem troco”.

Lamentavelmente a isso não se pode chamar de civilização. Pelo menos no sentido universal do termo. Vale para o Texas dos velhos filmes, vale para a postura do moleque de rua, como vale para os bandidos que infestam nossos centros urbanos.

Jogar com bandidos usando as armas e as regras deles é molecagem com os cidadãos. Pelo menos com aqueles preocupados com o progresso no seu sentido mais humano. Um progresso que se mede não pelo gabarito das armas e das munições, nem pelo dinheiro na conta bancária, mas pelo compartilhamento das leis, da cultura, da arte, do saber e, acima de tudo, dos bons modos.

No episódio do fim do Osama não dá para salvar a cara de Obama. Pelo menos até as próximas revelações.

Aguardemos.

terça-feira, 26 de abril de 2011

OS ‘DOIS LADOS’ DA FALTA DE ISENÇÃO

No universo do jornalismo há uma espécie de ‘princípio’ que assegura ser o ideal da intervenção isenta do repórter quando ele ouve ‘os dois lados’ de um evento ou de um tema. Gerações de profissionais, inclusive os mais sérios e a imensa maioria dos autores rezam por essa mesma cartilha, querendo ser, reduzem as leituras da realidade a uma simplória dupla de ‘lados’. Certamente inspirados no arcaico pensamento maniqueísta, do século III depois de Cristo, ditado por um certo persa que atendia pelo nome de Manes – assim, sem acento agudo, apesar de ter feito tudo para merecê-lo, ao reduzir tudo a dois lados.

É sempre bom lembrar o que já se fez de grotesco, para dizer o mínimo, quando se apostou nesse modo cômodo e maniqueísta de fazer apurações jornalísticas. A lista é grande, mas dois casos são clássicos. Durante o governo Collor, o ministro da saúde, Alcenir Guerra, foi denunciado por ter feito licitações criminosas de bicicletas – ouviu-se o lado dos denunciantes e dos fabricantes do equipamento ciclístico. O ministro foi afastado da vida política, de imediato; mas, seis anos depois a justiça o isentou completamente, porque ouviu um terceiro lado, o da vítima. Cerca de dois anos depois, março de 1994, deu-se o caso clássico denominado “Escola Base”. Foram ouvidos até três lados: o do delegado, o da mãe de um aluno e o lado ‘científico’ de uma pediatra desatenta e burocrata. Os donos da escolinha foram desacreditados e só puderam falar um mês depois, quando já estavam presos, e tinham sua casa e escola depredadas. Soube-se que eram inocentes.

No último dia 11, o jornal Folha de S.Paulo, no caderno “Ilustrada”, uma matéria assegurava que uma verdadeira “operação de guerra estava sendo montada para salvar a audiência da novela Morde e Assopra”. Algumas estratégias traçadas seriam as mudanças das histórias de alguns personagens, mais investimento em humor e maior cadenciamento da trama, do ritmo.

De imediato se nota que a apuração dos dados teria que passar pelo ‘pai da criança’, o autor, no caso, Walcyr Carrasco, além de uma autoridade da emissora que seria a responsável pela conhecida tática da ‘chacoalhada novelistica’. Nada. Ficou tudo na irresponsabilidade dos cochichos de alguém tão sério e seguro de si que não autorizou citar seu nome, apelando o titular da coluna (Outro Canal) para o sempre ensaboado e fugidio, além de tosco, ‘off’ – quando uma fonte de informação não tem coragem de assumir o que denuncia. Cumprindo o velho ditado de entregar os anéis, para ficar com os dedos.

Pois bem, dias depois a própria Ombudsman do jornal paulistão (Suzana Singer) revelou que o autor da novela fora ouvido, sim, mas sua versão fora desconsiderada pelo repórter, pois “não batia” com a versão em que o jornalista ‘apostava suas fichas’...Quer dizer, ao invés de providenciar a divulgação dos dados, já levantados, o profissional se permitia ‘socializar’ só o que achava mais ‘vendável’ ou podre.

Naturalmente, todo mundo sabe que os diversos gêneros jornalísticos (notícias, reportagens, editoriais, colunas etc.) se alimentam dos “objetos” de maior consumo potencial dos receptores. Também é um fato sabido que leitores, ouvintes e espectadores – o ‘mercado’ - têm predileção atávica por novidades ruins, sejam notícias, mesmo, ou apenas comentários. No entanto, entre o público gostar de consumir podridão e um meio de comunicação oferecer o estado de decomposição que o jornalista imagina ter descoberto em algum objeto pautado, há uma distância enorme. Principalmente ética.

Faz tempo que os meios de comunicação têm reservado um lugar nobre para essa entidade rigorosamente abstrata, venerada sob o pseudônimo classudo de ‘mercado’. A gente fica imaginando que a hierarquia dos respectivos veículos também apóia esse apego aos desejos mercadológicos presentes no momento de chamar para destaque uma angulação ou versão escandalosa, desde que com alta possibilidade de consumo.

Só que os profissionais que juraram oferecer a verdade, somente a verdade, aos consumidores de sua produção precisam sair dessa zona de conforto alimentada pelos proprietários e seus representantes nas ramificações do poder no cenário jornalístico. Jornalistas têm o compromisso primeiro com a objetividade dos dados – mesmo quando interpretações ou opiniões de alguma fonte. Não com a perspectiva de venda do produto jornal. Este não é negado. Apenas não pode atropelar o ‘discurso’ dos fatos, sejam concretos ou abstratos.

O imaginário, o gosto, a opinião do repórter têm lugar, sim, nas matérias opinativas, como editoriais, crônicas, até artigos. Não podem ser embrulhados e vendidos com o selo de notícia ou de reportagem. Pensamentos mágicos, elaborados pelo paladar de subjetividades, por mais brilhantes que sejam, e aqui não é o caso, evidenciam apenas a falta de consideração para com o consumidor. Um desastre no campo da ética.
Gabriel García Márquez nos legou um pensamento definitivo e adequado para esta ocasião;
- A melhor notícia não é a que se dá primeiro, mas a que se dá melhor.
Simples assim.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tiro no coração

O massacre de Realengo foi um tiro no coração da sociedade. De tão grande, não cabe em um álbum de lembranças. De tão vivo, não dá para dependurar na parede, feito um quadro. A dor é tão grande que não há prego capaz de sustentá-lo. Como dói. A manhã de 7 de abril jamais pode ser esquecida na história de nossas vidas.

A escola municipal Tasso da Silveira ganhou, dolorosamente, um lugar em chamas na rotina dos descaminhos da loucura humana. Sessenta e seis disparos de revólver, quase à queima-roupa, rasgaram o projeto de harmonia que a Cidade Maravilhosa acalentava nos últimos anos, com evidente sucesso. Doze vidas no alvorecer foram ceifadas num relance. Outras doze, condenadas à retração para o resto de suas existências, carregando consigo petardos de ódio e chumbo ardente que cunharão seus futuros indefinidamente.

Desde o início da implantação das Unidades Pacificadoras, esquina definitiva na história do município, circulava na sociedade a sensação de que se construía um novo patamar na caminhada do Rio de Janeiro. Após o domínio do Complexo do Alemão ficou muito nítida essa impressão. Não dava para fingir que não se percebia. Até os meios de comunicação paulistas, que sempre venderam muitos jornais, revistas e programas noticiosos com as mazelas cariocas, já estavam se adequando a uma fonte claramente minguante de escândalos policialescos, cujo clímax foi o massacre da Candelária – mal acostumados que estavam com as 111 vítimas dos que ‘guardavam’ presos em Carandiru.

Todavia, na manhã suave de um outono nascente, um jovem de 23 anos fuzilou o futuro de uma dúzia de esperanças. Com 66 disparos, Wellington Menezes de Oliveira perfurou definitivamente o coração e a história imediata de milhares. Agrupando alunos, familiares e professores, o número de vítimas diretas mais imediatas do assassino chega à cifra estúpida de 25 mil. Sem contar os milhões que se sensibilizaram com a tragédia, como todos nós, para quem a vida é a esperança mais sólida de que dispomos. Esquizóide ou esquizofrênico? Uma receita, com certeza

Os especialistas em transtornos estão afunilando seus pareceres para o diagnóstico de esquizofrenia do atirador – como os psiquiatras Marcos Gebara e Guido Palomba – apesar de se saber que a “pessoa dividida”, característica dessa doença, não costuma tomar atitudes criminosas, hediondas, em série, segundo o professor de psiquiatria da Uerj, Miguel Chaloub; para ele, trata-se de um caso de esquizoidia, quando o doente tem um quadro de vida solitária, introspecção doentia e má adaptação à realidade (O Globo, 9/4/2011,p.8).Esquizofrênico ou esquizóide, o autor da chacina deve ter se inspirado nos padrões de crimes semelhantes (chamados school shoting) especialmente nos EUA. Graças ao estágio de “aldeia global” em que vivemos, os meios de comunicação não deixam de divulgar esses eventos trágicos desde 13 de março de 1996, na Escócia, quando um atirador invadiu uma escola primária e executou 16 crianças e uma professora, se suicidando. Para uma cabeça doente, um modelo tão repetido, acrescido do agravante de ser oriundo de países tidos como ‘modelares’, ganha a dimensão de uma verdadeira receita.

Em verdade, agora não importa se a ‘receita’ tinha no bullying a motivação básica ou se estava baseava na rejeição por parte do gênero feminino, já que a maioria das vítimas eram meninas (a mãe o abandonou, a mãe adotiva faleceu). Nem se trata de ponderar se o nome da doença era esquizofrenia ou esquizoidia. Ambas as doenças, assim como os quadros de rejeição e gozação estudantil, são sofridos por milhões de humanos, somados todos os países. No entanto, eles não são determinantes para que suas vítimas massacrem. Prevenção é o que se pode fazer A lição de prevenção é que não se pode deixar de tirar das dores que atormentam os familiares, amigos e toda a sociedade. O sofrimento é, agora, a face mais visível e cruel da história universalizada da escola Tasso da Silveira de Realengo. Não se sabe, e isso importa muito, quantos de nós e dos parentes das vítimas do dia 7 votaram a favor do “não controle de armas”, quando o governo propôs o sufrágio das armas, há alguns anos. Persuadidos pelos numerosos políticos, asseclas do capital da indústria de armamentos, os pouco instruídos brasileiros acolheram o argumento de que tínhamos que, pessoalmente, nos defender da barbárie...Como se cidadãos não treinados e sem planos de combate fossem capazes de enfrentar bandidos calejados no manuseio de armas e previamente munidos de cuidados.

Assim como no país de referência de nossas cabeças colonizadas, o direito às armas sempre foi arrotado como um “ato de democracia”, descaradamente, do mesmo jeito cínico algumas cabeças que se julgam coroadas têm defendido o direito de cidadãos públicos serem racistas e/ou homofóbicos – basta lembrar dos casos recentes do deputado Bolsonaro e do escritor Monteiro Lobato, em novembro último, quando alguém do Ministério da Educação sugeriu incluir uma notinha alertando os leitores sobre expressões racistas do grande escritor. Tem gente de aparente “alto quilate” que alega se tratar da mais pura defesa da liberdade. Ora, se o dever do Estado não incluir a ação preventiva de cercear a oferta de recursos – sejam armas ou palavras – para o bem maior da coletividade, estamos correndo o risco de volta à barbárie.

Um teste: será que os pais e irmãos das crianças fuziladas em Realengo vão aceitar o argumento de que não se pôde impedir o massacre porque vivemos numa democracia? Será que a desculpa da liberdade de ir e vir e de consumir armas vai consolar o que restou de vida na existência dos familiares e amigos dos meninos da escola Tasso da Silveira? Bastaria o estado se dizer cuidadoso como um “pai presente” (argumento do nobre deputado), ao invés de se retomar a campanha contra as armas e enrijecer a legislação contra o uso delas por civis? Palavras, assim, convenientemente ‘democráticas’, vão consolar a dor sem-fim da aldeia em que se transformou Realengo?E se cada um de nós – apenas num hipotético exercício mórbido – formos vítimas desses ‘cidadãos armados’ que andam soltos por aí, será que morreremos felizes? Ficaremos realizados, mas entrevados, para o resto de nossos dias, só de sabermos que a democracia foi preservada? Como se vê, não é preciso ser um gênio para perceber que não dá para o bicho nos pegar e só depois reclamarmos que o bicho abusou das liberdades democráticas. É urgente castrar os monstros potenciais. Tirar-lhes as armas. Ou alguém acredita que esquizofrênicos, esquizóides ou psicopatas são ‘machos o suficiente’ para, desarmados, enfrentarem uma escola inteira? Uma só classe?Como disse Confúcio, É melhor acender uma pequena vela do que reclamar da escuridão.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Morte e progresso, uma denúncia vazia

O jornalismo é um desses elementos indispensáveis que constituem o alicerce do edifício onde a democracia levantou paredes e se deixou cobrir pelo telhado da igualdade entre os homens. Diz-se, até, que ele é uma dessas pedras angulares, uma condição indispensável para a existência e, acima de tudo, a sobrevida dos “interesses do povo”, na visão do Aurélio Buarque de Holanda Ferreira – pai-e-mãe do notável “Aurélio”, o dicionário da Língua Portuguesa. Naturalmente, a contribuição jornalística para vida comum não se resume em comentar os feitos das celebridades; tampouco as façanhas dos candidatos a esse lugar no Olimpo da sociedade. Ele tem a missão básica de enunciar, de expor os fatos e os temas que retratam a dinâmica da vida no planeta; coisas de claro interesse público e outras do interesse do público de cada veículo. Também é vocação dos jornalistas denunciar. Segundo o mesmo e clássico Aurélio, denunciar é “acusar, delatar; revelar; evidenciar...” (Curitiba: Editora Positivo, 2004, p.620) Não se trata de selecionar apenas fatos, temas e personagens do mundo político, da vida pública. A pauta que tem como objeto a denúncia precisa estar democraticamente aberta para a direita e para a esquerda, para o norte, assim como para o sul; necessita estar sensível ao poder eleito e a sua oposição legitimada na intenção cívica. Enfim, a denúncia não escolhe campo; ela joga o jogo da informação confirmada, em todos os segmentos que, de maneira direta ou indireta, deságüem nos interesses da sociedade. Entre nós ficaram famosas as denúncias dos “mensalões” vários: do PSDB, no fim dos anos 1990, envolvendo Eduardo Azeredo, do PT, em 2005, envolvendo partidos da base aliada, mais recentemente do DEM, centrado na figura do governador Arruda, rendendo ‘dividendos’ até os dias atuais. Todavia tivemos outras denúncias, estas vazias, que se dão “por conveniência própria” do denunciante, segundo o mestre Aurélio. São clássicas aquelas que envolveram o ministro Alcenir Guerra, no governo Collor, o senador Ibsen Pinheiro, ainda nos anos 1990 e vergonhosamente consagrada denúncia conhecida como “Escola Base”, em 1994 – para ficarmos com algumas do século passado. Alto risco MORTE E PROGRESSO 40 trabalhadores já morreram em obras do PAC Não sei se você leu, mas no último domingo (27 de março) uma grande reportagem de três páginas mereceu uma chamada de capa do também grande jornal carioca, O Globo. Na edição de maior tiragem do veículo denuncia-se que “Mortes em obras do PAC estão acima dos padrões”. Nas páginas 35, 36 e 37 uma equipe de jornalistas assina a matéria “Morte e Progresso”, como acima aparece, com título em corpo acima de 60. Já no primeiro parágrafo vem o número de vítimas fatais: “Num levantamento inédito feito pelo GLOBO (sic) em 21 grandes empreendimentos, que somam R$ 105,6 bilhões de investimentos, foram registradas 40 mortes de operários em acidentes, desde 2008.” O detalhe vem no segundo parágrafo: “Somente em 2010, a taxa de mortalidade foi de 19,79 para cada cem mil empregados. Índice considerado altíssimo...é mais que o dobro da (taxa) registrada para o conjunto dos empregados do setor formal da economia – 9,49.” (p.35) Olhando assim, impressiona. Tanto pelo tamanho da matéria (3 páginas), pelo número de profissionais envolvidos na apuração, quanto pelo padrão usado para sustentar a denúncia – afinal, trata-se de uma exorbitância quantitativa, “mais que o dobro”. A sedução dos números Então nossa taxa é muito alta? Altíssima. Incomoda? Muito. No entanto é honesto comparar o índice aplicado nas construções do PAC com o do “conjunto do setor formal da economia”? Bancários sobem e caem de andaimes? Economistas lidam com cercas eletrificadas? Vendedores escalam paredões de 30 andares para pintá-los? O setor formal da economia tem um segmento com cenário muito mais arriscado que estes: exatamente o da construção, como é o PAC. Alguém já disse que os números não mentem jamais. Contudo economistas, contadores e estatísticos sabem que eles dizem apenas o que nós queremos deles – o que nem sempre é a verdade, infelizmente. O leigo em cálculos, nas mãos da retórica de números, então, é um “pato” (está no Aurélio: “mau jogador”; o que sofre “as conseqüências de algo” - p.1507). Votando aos números acima, o que incomoda bastante é constatar que a elaboração do quadro comparativo usado na reportagem está viciado. Por que não comparar com o índice encontrado na construção civil, mas com o “conjunto dos empregados do setor formal da economia”? No terceiro parágrafo da mesma matéria, mais exatamente na linha 33, está o segredo: “A taxa de mortalidade (na construção civil) está em 23,8, um pouco acima da encontrada em obras do PAC.” Ah, bom! Como diria um colunista do mesmo e grande jornal. Então é isso: a denúncia é porque as construções do PAC estão ‘um pouco abaixo’ das demais construções? Uma leitura analítica, deixa perceber que há uma torcida forte (reportagem de 3 páginas) para que o governo erre. Se não, por que se denuncia quando suas obras têm índice de mortandade 4,01 inferior à rotina civil da engenharia nacional? Se ambos os índices estão até desumanos, por que não denunciar os 23,8 de mortandade, então? Não está evidente demais que se trata de um grau de intensidade mais elevado, mesmo para leigos em cálculos? E este não é um dos “critérios de noticiabilidade” mais conhecidos no jornalismo? Pois é. Durma-se com um barulho desses: o índice 19, 79 é mais intenso que 23,8...

terça-feira, 8 de março de 2011

Subterfúgios para minimizar boas notícias

Atribui-se a Victor Hugo a criativa sentença: “A palavra, como se sabe, é um ser vivo.” Apesar da vida que tem, ela permite que façamos ‘cobras e lagartos’ dela. Tal capacidade de manipular as palavras é o dom mais distintivo do ser humano, pois caracteriza o exercício da abstração em seu nível social mais requintado. Outros animais quando falam apenas estão nos imitando na sonoridade; não na produção de sentidos.

No seu mais amplo sentido, a literatura vive dessa capacidade humana de saborear e dispor das ideias, por meio das palavras, exatamente para que elas nos liguem aos outros, por sua vivacidade penetrante. Ali, comunicando um conceito, aqui, levando uma interpretação, acolá, conduzindo uma opinião ou um sentimento. Em todos os casos, a vivacidade da palavra é a substância que faz dela o DNA do pensamento. Uma prova: experimente pensar em algo de que você não disponha de palavras.

O jornalismo se realiza no exercício desse elemento básico do pensar. Vive do processo continuado e exaustivo de construir correntes vivas, feitas de palavras, para nos legar informações, interpretações, opiniões. Todas simples variações clássicas da mais humana tarefa de produzir sentido. Isso implica no empenho em produzir convicção, verdade, mesmo, tanto ao comunicar um determinado acontecimento, clara e objetivamente, quanto ao omitir ou desconstruir o impacto de outro.

Veja os exemplos a seguir dos títulos jornalísticos da mesma notícia auspiciosa sobre o Brasil, no dia 4 de março último, informada pelo IBGE:

a) BRASIL PASSA A SÉTIMO MAIOR PIB DO MUNDO.

b) ECONOMIA BRASILEIRA CRESCE 7,5% EM 2010.

c) DILMA: ‘PIBÃO FOI BOM’, MAS NÃO SE REPETIRÁ NOS PRÓXIMOS ANOS.

Como em qualquer exercício de múltipla escolha, qual das manchetes acima você acha que tem a intenção de esvaziar o impacto da competência do país em produzir bens e serviços? Pois é, a alternativa c foi a manchete, com todas as letras: “Dilma: ‘Pibão foi bom’, mas não se repetirá nos próximos anos”.(O Globo, p.1) Em caracteres de tamanho discretíssimo, a afirmação era precedida pelo dado que foi a manchete na maioria dos demais veículos informativos de 4 de março último, uma variante do recurso conhecido como ‘nariz de cera’: “O PIB de 7,5% em 2010”.

Em seguida, o texto da ‘chamada de capa’ trazia a sentença que seria a manchete nas demais duas centenas de países do planeta: “a economia brasileira cresceu 7,5% em 2010... com isso o país já tem o sétimo maior PIB do mundo.” (O Globo, p. 1) Letras garrafais? Não; apenas no tamanho de textos corridos de qualquer resultado de uma partida morna no meio de uma semana cinza, sem peso, perdida no início de um torneio de basquete ou vôlei.

Pode-se alegar que a informação essencial estava no texto. Estava. Mas por que não mereceu estar na manchete da edição, como é o modelo empregado pelas melhores instituições de jornalismo no Brasil, desde meados do século XX? Nelson Rodrigues diria que se trata do nosso conhecido complexo de ‘vira-lata’: temos vergonha das nossas melhores realizações. Evidentemente, alguns jornais insistem na velha torcida contra as realizações do governo de um certo metalúrgico – mas deixemos isso para lá.

Voltando ao padrão de títulos adotados no jornalismo contemporâneo, eles são inspirados nos dados mais impactantes da notícia ou da reportagem, aqueles elementos informativos que reconstituem a essência do fato, não os comentários sobre ele, conhecidos como desdobramentos.
Veja todas as manchetes da mesma semana, no mesmo jornal :

“Comunidade internacional se une para isolar Kadafi” (segunda, 28 de fevereiro)
“Habitação popular perde quase metade das verbas” (terça, 01 de março)
“Maluf, mensaleiros e Newtão cuidarão da reforma política” (02 de março)
“BC aumenta os juros pela segunda vez no governo Dilma” (03 de março)
“Dilma: ‘Pibão foi bom’, mas não se repetirá nos próximos anos” (04 de março)
“Após crédito farto, calote aumenta e já preocupa” (05 de março)

Independente do destaque gráfico acima para o caso, fica nítido o tratamento diferenciado aplicado à última grande realização do país – aliás, ela mereceu outras 7 páginas no citado jornal. Em todos os títulos os dados anunciados são negativos e foram retirados do bloco de dados constitutivos da essência do relato, não de comentários sobre ele. Será que a expressão ‘pibão foi bom’ tem algum apelo noticioso superior ao impacto de o país chegar ao sétimo lugar no mundo? Ou é tão imperioso esvaziar a bola do país que vale qualquer subterfúgio para camuflar suas realizações?
É um caso para pensar.

Sábio, como sempre, certa vez Einstein afirmou: “O mundo é um lugar perigoso para se viver. Não exatamente por causa das pessoas que são más, mas por causa daquelas que não fazem nada quanto a isso.” (Citado por Ana Beatriz Barbosa Silva, em “Mentes perigosas”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p.60)

Este espaço é uma contribuição mínima no sentido de fazer alguma coisa para que o conhecimento técnico do jornalismo – disponível na literatura - sirva para tornar a relação do leitor ou receptor com os jornais menos ‘perigosa’. Se é que você entendeu o recado de Einstein.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Difícil é aprender a ler. O resto está escrito

Uma das tentações mais irresistíveis para o ser humano é a postura de torcedor. Não se trata apenas dos casos de agremiações esportivas. A isenção é uma montanha muito íngreme para nossa ‘racionalidade’, pois ela foi construída, desde os mais tenros anos, com base no apego a valores que herdamos como verdades absolutas. Muitas, muitíssimas vezes, eles não passam de “pensamentos únicos” ou “verdades convenientes”, todas passageiras.

Por essa limitação tão ancestral em nossa história, a percepção das coisas reais, que estão bem à vista, se torna uma cilada em que caímos inúmeras vezes e diariamente. Tudo bem, se estamos apenas torcendo por um clube ou pela derrocada de um “big brother”. Todavia, quando a torcida invade o campo profissional a postura muda de peso.

Imagine um médico que não percebe uma doença básica do paciente e receita uma ‘química’ para uma coceirinha qualquer, porém estimulante da doença mais expressiva. Um engenheiro que, desatento à inclinação do terreno – por exemplo, acima da quota dos 45 graus -, prescreve piscinas e outras delícias pesadas para um terreno de encosta. Em ambos os casos as conseqüências negativas podem até não explodir ou implodir de imediato; mas são certas. Há dias um juiz foi parado numa blitz do trânsito por estar sem emplacamento do veículo e sem os respectivos documentos; deu voz de prisão à funcionária que simplesmente aplicava a lei e abriu boletim de ocorrência contra a desacatadora: “Imagine como dói a injustiça contra mim, que faço justiça” - teria dito o magistrado.

No campo do jornalismo o exercício de torcida é um espetáculo diário. O craque da rodada, para um veículo, pode ser o ‘nota 5’ em outro; um projeto de governo ganha elogios em determinada revista, enquanto outra vê nele um desacato ao bom senso, quando não à vastidão da democracia. Como tais posições de torcida são contra ou a favor de determinados governos, personalidades ou ‘valores’, o leitor apressado, ou escravo de um só veículo, fica comprando e sorvendo o engodo, inocentemente.

O resto está escrito, realmente

Às vezes seria suficiente um pouco mais de paciência para esperar o dia seguinte, com os desdobramentos esclarecedores dos fatos; em outras ocasiões a simples leitura da matéria até o fim permitiria notar que o jornalista torce com tanta sofreguidão que nem percebe haver levantado, ele mesmo, alguns dados anuladores das certezas que impregnam os títulos de suas notícias ou reportagens. O repórter chega a ‘ouvir os dois lados’, mas só escuta um deles, o do seu time. Veja um caso recente, abaixo, em O Globo, de 19.02.2011, p.28.

O título assegurava: ‘APORTE NO BNDES REDUZ EFICÁCIA DE AJUSTE FISCAL’. O subtítulo, ou “linha fina”, no jargão dos jornalistas, reforçava a denúncia: “Para analistas, novos empréstimos de R$100 bi do Banco podem invalidar cortes de $50 bi no orçamento”.
A matéria confirmava que “um aumento de capital do BNDES de R$ 6,4 bilhões coloca em xeque, na opinião de alguns economistas, a eficácia da austeridade fiscal pregada pelo governo, que também informou cortes de R$ 50 bilhões no orçamento federal.” Em seguida, e realmente, são citadas as posições de Rogério L.F.Werneck, da PUC- Rio, e de Fábio Kanzue, da USP, reforçando a crítica ao aumento de capital do Banco de fomento, “por aquecer a economia” (sic).

Mesmo deixando passar a confusão que se estabelece com “novos empréstimos de R$100 bi” e a informação trazida de que o aporte era de R$ 6,4 bi...se for até o “pé” da reportagem, o leitor vai reparar, surpreso, que um mesmo número de economistas tem posição contrária ao tom e ao título: Um é José F.L. Gonçalves, economista-chefe do banco Fator, o outro é Antonio Correa de Lacerda, professor da PUC – SP. Ambos falam do conhecido e óbvio efeito do reforço de caixa em um país em desenvolvimento: “aportes não invalidam cortes no orçamento (...), os investimentos que podem surgir com os novos empréstimos do BNDES devem estimular a economia de forma saudável.”

Durma-se com um barulho desses! Muita gente está tão acostumada com esse barulho que até dorme mais sossegada, como se fosse um acalentador som se chuva. Não é, infelizmente, um acalanto. Como nem toda chuva induz a um bom sono – as últimas tragédias na região serrana ocorreram nessas circunstâncias e sabemos as gravíssimas conseqüências delas.

Aprender a ler

Leitores não têm muita, talvez nenhuma, informação de que há um velho chavão no jornalismo que estabelece como o suprassumo da verdade ou, pelo menos, da melhor das intenções de alcançá-la, “ouvir os dois lados”. Na sociedade ‘civil’ já se ouve esse princípio maniqueísta, de vez em quando; algumas cabeças que se dizem ‘pensantes’ o repetem como se fosse um mantra garantidor do paraíso da lógica que santifica os raciocínios todos. Não é. Quantos lados tem uma caixa? Quantos um acontecimento? E uma idéia ou projeto? Uma pessoa ‘normal’ tem quantos pontos em sua vida? E por dia?

Para simplificar, quantos lados tem uma singela moeda? Só cara e coroa? Todas têm um terceiro, o lado da lombada, esquecida sempre. Esta “fala” de um certo interior que a moeda tem e que não enxergamos, justamente por ser oculta pelas faces externas. Ora, esse quarto e evidente lado é um universo para quem dispuser de um microscópio; ali se concentram bilhões de átomos (quinto lado, vezes bilhões, dependendo do tamanho da moeda). Não pára aí a riqueza da nossa moeda: além dos trilhões de lados constituídos pelas subdivisões de cada um dos citados átomos, restam os lados estético e simbólico do valor, o chamado lastro monetário. Simples, assim.

Em verdade, a verdade é que não se chega a nenhuma verdade quando se assegura que a verdade está presente na verdade que se anuncia como verdade. Nem o velho ditado que encabeça estas considerações: Difícil é aprender a ler. O resto está escrito.

Está mesmo? Restam ainda muitas dúvidas, sempre: Quem escreveu o que está ali? Destinado a quem? Onde está escrito? Quando? Como foi escrito? Para alcançar que propósitos? Movido por quais estímulos? O quê se escreveu? Até onde vão os desdobramentos, o sentido de cada mensagem escrita?

Bem, quem tiver resposta para cada questão dessas estará fazendo o dever de casa de cada jornalista e de cada cientista, de modo geral. Eles podem não alcançar respostas exatas para cada uma das dúvidas; no entanto, elas é que alimentam suas pautas diariamente.

Cabe ao leitor, ouvinte, telespectador e internauta desenvolver a consciência delas para iluminarem o que se recebe como reconstituição de fatos, opiniões, interpretações, gostos, adesões a valores, ideologias...enfim, as substâncias que as palavras carregam, como seres vivos que são.

Pois, acredite, a inteligência é uma espécie de olfato que nos dá a capacidade de ler sabores.