domingo, 5 de fevereiro de 2012

JUNTO E MISTURADO – O JORNALISMO EM SEU ESTADO NORMAL

Os produtos jornalísticos que nos chegam às mãos – está bom: aos olhos e aos ouvidos também – têm a característica muito singular de pertencerem a um mundo simbólico da produção de sentidos, onde os relatos são marcados pelo senso do imediato e submetidos aos constrangimentos físicos decorrentes da necessidade de juntar o que está distanciado e de misturar o que não se mistura no mundo concreto, por ser de campo ou lugar diferente.
Naturalmente, esse cenário é um retrato da busca da sustentabilidade da produção comunicativa destinada a informar, interpretar e opinar sobre eventos, assuntos e performances de alguns personagens que têm um bom nível de ‘consumibilidade’, se é que o leitor me perdoa essa criação exógena (ou maluca, mesmo, com todas as letras, para usar uma linguagem mais feijão-com-arroz). Vamos a alguns exemplos.
Na Ditadura, o jornal não citava os direitos humanos
No dia inaugural do mês de carnaval, o grande ‘matutino’ carioca dos Marinho, trouxe a manchete, imensa: “Em Cuba, Dilma cita apenas EUA sobre direitos humanos”.
Seria risível, se não fosse profundamente trágico, se o leitor recorresse à memória, ou aos arquivos, e achasse algo similar ao cobrado pelo bravo periódico à presidente eleita – na época da ditadura, também, é claro e justo a igualdade de condições. Poderia ser um singelo: “No Brasil, O Globo cita os direitos humanos”. Ou: “...denuncia as torturas”. Ao invés de ceder espaços, sistematicamente e em todos seus veículos, para pronunciamentos que expressavam a truculência do poder usurpado. Ele assassinou jornais (Correio da Manhã, Opinião e outros) e um sem-número de vidas, além dos milhares de torturados, sob o silêncio dos corajosos de agora, amparados na democracia alcançada por outros.
Tem uma história de que “pimenta nos..., digamos, ‘olhos’ dos outros é refresco...”. Pois é. Precisa comentar mais?

Vanderlei: 4 mi X Flamengo: OTudo isso porque as coisas não são tão singelas quanto à simplicidade do olhar de 10 entre 10 observadores impressionistas deixa transparecer. Nos últimos dias, por exemplo, a agenda dos ‘objetos’ de que os nossos jornais cuidam gastou páginas, horas e milhões de caracteres para discutir se a vitória de um time autodenominado ecologicamente com o DNA do conhecido urubu teria gás suficiente para sustentar seu treinador; este que, estrategicamente, estava ancorado e dependurado na multa de R$ 4 milhões, contra o FLA.
O autor destas linhas precisa confessar que, por injunções de trabalho fora da capital do estado, passou as duas últimas horas do dia 1 de fevereiro e a primeira do dia 2 tendo que ouvir a lenga-lenga da cobertura de um jogo contra um tal de Potosí, onde o que parecia interessar mesmo era muito mais a queda anunciada do Luxemburgo do que o escore da partida. O dito cujo negou dezenas de vezes estar demissionário; seu indigitado substituto também negou que ‘hoje’ fosse candidato e todo mundo que teve que aturar essa tortura que rotineiramente desemboca no desfecho demissionário – fosse ‘menguista’, botafoguense, vascaíno ou ‘pó-de-arroz’. Horas depois se soube que o técnico teria sido demitido e o que ‘não sabia de nada’ estava contratado.
Vida que segue. Não é por nada não, mas ter que torcer e contar com uma expulsão para dar uma ‘goleada’ de 2X0 já era sintomático de crise.

MELLO 5 X CNJ 6
Iniciado nos estertores de 2011, o debate sobre os limites do poder do Conselho Nacional de Justiça ocupou a pauta do Supremo Tribunal Federal e da nossa paciência. No meio do caminho – em dezembro – o ministro Marco Aurélio Mello (aquele que é primo do ‘defenestrado’ presidente Collor e, aliás, não tem culpa no parentesco, só no DNA), sim, o citado ministro ou deveria dizer “Doutor”? Bem, o caso é que o nosso ilustre togado “dera uma liminar restringindo a investigação às corregedorias” (O Globo, 3/2/2012, p.1).
Agora, a maioria do STF, além de inibir a dita restrição ao CNJ, decidiu, também, que o julgamento dos juízes tivesse um verniz condizente com o estado democrático e passasse a ser aberto, não mais uma caixa pra lá de preta - e que geralmente é amarela, caracterizando um cenário sintomaticamente contraditório. Tudo isso foi pauta jornalística, desde setembro último, gostasse você ou não do produto travestido de ‘informativo’.

CORINTHIANS ZERO X BARCELONA ZERONão. Você não perdeu o jogo que encima este parágrafo. Todavia poderia ser um placar razoável. Ou não? O que você acha? Também poderia ser Vasco 1 X Barcelona 1. Não? Evidentemente, se sua mente se basear apenas no que nossa fauna jornalística produziu por ocasião do atropelamento do Santos F.C., seu parecer terá as cores fortes da verossimilhança. Mas pode ser bem diferente, se você se abstrair da verdadeira tromba d’água que simbolizou a choradeira caipiresca e tipicamente ‘colonizado’ dos nossos jornalistas, todos tão preocupados em pousar de especialistas seriíssimos sobre o “nobre esporte bretão”.
Todo mundo repetiu o chavão de que o time da Catalunha ‘deu uma lição de futebol moderno’ sobre ‘o melhor time do Brasil’. Reparou? Mas, reparou, também qual foi a colocação da esquadra da Vela Belmiro no último “Brasileirão”? O torneio inteiro ela brincou mais ao nível do rabicho da tabela classificatória do que com o topo. Como é que cabe assegurar ser o time que poderia representar, naquele momento, o “país do futebol”? Com que evidências se poderia assegurar, como o fizeram os ‘entendidos’, que o treinador da equipe santista era um dos dois ou três melhores da terra do Pelé? Time que tem como destaque os atacantes, como o Neimar, e uma defesa bisonha, se convida o adversário daquele padrão para vir brincar de ‘dois toques’ na própria área está apostando todas as fichas na derrota vergonhosa e merece levar um ‘zero’ em vermelho no caderninho ou na prancheta que tem como título um negócio que passou léguas daquela partida, chamado ‘estratégia’.
Fosse o time dos Gaviões ou o do Ricardo Gomes (campeão e vice do torneio nacional) tem-se a impressão que haveria jogo; não aquele amontoado de acovardados reverenciando o adversário, sem qualquer sentido de marcação e de ataque. Não acha? Mas pense.

DA VINCI 1O X COPISTA 9

Outra pauta, esta de breve duração, mas de forte impacto nas mentes interessadas no universo das artes, foi a descoberta, melhor, a revelação da descoberta de uma nova e enxuta Mona Lisa. Naturalmente, mais lisa que a Mona original, pois passara séculos ao largo dos efeitos do acúmulo de poeira e da decomposição provocada pela incidência da luz sobre ela. Igualzinha aos turistas que se aproximam das nossas praias virgens dos raios de Sol (eles, claro e esbranquiçados, naturalmente).
O mundo das artes entrou num frenesi – aliás, bem adequado com o estupor das nevascas que têm castigado o hemisfério norte, na Eurásia, e fugido das terras do Tio Sam, driblando as justificativas e as hipóteses de paletó-e-gravata dos cientistas e curiosos todos.
Pode-se até incriminar o trabalho de ‘cópia’ do discípulo do grande Leonardo, mas ele ‘dá de dez’ nos exercícios artísticos que andam expostos no deslumbrante museu que o centenário-e-mais-um-pouco Oscar Niemayer (como é que se escreve, mesmo, o sobrenome do gênio?). Quem ainda não foi ver de perto o que nosso gênio arquitetou, não sabe o que está perdendo: ele explora, com um deslumbramento