terça-feira, 26 de abril de 2011

OS ‘DOIS LADOS’ DA FALTA DE ISENÇÃO

No universo do jornalismo há uma espécie de ‘princípio’ que assegura ser o ideal da intervenção isenta do repórter quando ele ouve ‘os dois lados’ de um evento ou de um tema. Gerações de profissionais, inclusive os mais sérios e a imensa maioria dos autores rezam por essa mesma cartilha, querendo ser, reduzem as leituras da realidade a uma simplória dupla de ‘lados’. Certamente inspirados no arcaico pensamento maniqueísta, do século III depois de Cristo, ditado por um certo persa que atendia pelo nome de Manes – assim, sem acento agudo, apesar de ter feito tudo para merecê-lo, ao reduzir tudo a dois lados.

É sempre bom lembrar o que já se fez de grotesco, para dizer o mínimo, quando se apostou nesse modo cômodo e maniqueísta de fazer apurações jornalísticas. A lista é grande, mas dois casos são clássicos. Durante o governo Collor, o ministro da saúde, Alcenir Guerra, foi denunciado por ter feito licitações criminosas de bicicletas – ouviu-se o lado dos denunciantes e dos fabricantes do equipamento ciclístico. O ministro foi afastado da vida política, de imediato; mas, seis anos depois a justiça o isentou completamente, porque ouviu um terceiro lado, o da vítima. Cerca de dois anos depois, março de 1994, deu-se o caso clássico denominado “Escola Base”. Foram ouvidos até três lados: o do delegado, o da mãe de um aluno e o lado ‘científico’ de uma pediatra desatenta e burocrata. Os donos da escolinha foram desacreditados e só puderam falar um mês depois, quando já estavam presos, e tinham sua casa e escola depredadas. Soube-se que eram inocentes.

No último dia 11, o jornal Folha de S.Paulo, no caderno “Ilustrada”, uma matéria assegurava que uma verdadeira “operação de guerra estava sendo montada para salvar a audiência da novela Morde e Assopra”. Algumas estratégias traçadas seriam as mudanças das histórias de alguns personagens, mais investimento em humor e maior cadenciamento da trama, do ritmo.

De imediato se nota que a apuração dos dados teria que passar pelo ‘pai da criança’, o autor, no caso, Walcyr Carrasco, além de uma autoridade da emissora que seria a responsável pela conhecida tática da ‘chacoalhada novelistica’. Nada. Ficou tudo na irresponsabilidade dos cochichos de alguém tão sério e seguro de si que não autorizou citar seu nome, apelando o titular da coluna (Outro Canal) para o sempre ensaboado e fugidio, além de tosco, ‘off’ – quando uma fonte de informação não tem coragem de assumir o que denuncia. Cumprindo o velho ditado de entregar os anéis, para ficar com os dedos.

Pois bem, dias depois a própria Ombudsman do jornal paulistão (Suzana Singer) revelou que o autor da novela fora ouvido, sim, mas sua versão fora desconsiderada pelo repórter, pois “não batia” com a versão em que o jornalista ‘apostava suas fichas’...Quer dizer, ao invés de providenciar a divulgação dos dados, já levantados, o profissional se permitia ‘socializar’ só o que achava mais ‘vendável’ ou podre.

Naturalmente, todo mundo sabe que os diversos gêneros jornalísticos (notícias, reportagens, editoriais, colunas etc.) se alimentam dos “objetos” de maior consumo potencial dos receptores. Também é um fato sabido que leitores, ouvintes e espectadores – o ‘mercado’ - têm predileção atávica por novidades ruins, sejam notícias, mesmo, ou apenas comentários. No entanto, entre o público gostar de consumir podridão e um meio de comunicação oferecer o estado de decomposição que o jornalista imagina ter descoberto em algum objeto pautado, há uma distância enorme. Principalmente ética.

Faz tempo que os meios de comunicação têm reservado um lugar nobre para essa entidade rigorosamente abstrata, venerada sob o pseudônimo classudo de ‘mercado’. A gente fica imaginando que a hierarquia dos respectivos veículos também apóia esse apego aos desejos mercadológicos presentes no momento de chamar para destaque uma angulação ou versão escandalosa, desde que com alta possibilidade de consumo.

Só que os profissionais que juraram oferecer a verdade, somente a verdade, aos consumidores de sua produção precisam sair dessa zona de conforto alimentada pelos proprietários e seus representantes nas ramificações do poder no cenário jornalístico. Jornalistas têm o compromisso primeiro com a objetividade dos dados – mesmo quando interpretações ou opiniões de alguma fonte. Não com a perspectiva de venda do produto jornal. Este não é negado. Apenas não pode atropelar o ‘discurso’ dos fatos, sejam concretos ou abstratos.

O imaginário, o gosto, a opinião do repórter têm lugar, sim, nas matérias opinativas, como editoriais, crônicas, até artigos. Não podem ser embrulhados e vendidos com o selo de notícia ou de reportagem. Pensamentos mágicos, elaborados pelo paladar de subjetividades, por mais brilhantes que sejam, e aqui não é o caso, evidenciam apenas a falta de consideração para com o consumidor. Um desastre no campo da ética.
Gabriel García Márquez nos legou um pensamento definitivo e adequado para esta ocasião;
- A melhor notícia não é a que se dá primeiro, mas a que se dá melhor.
Simples assim.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tiro no coração

O massacre de Realengo foi um tiro no coração da sociedade. De tão grande, não cabe em um álbum de lembranças. De tão vivo, não dá para dependurar na parede, feito um quadro. A dor é tão grande que não há prego capaz de sustentá-lo. Como dói. A manhã de 7 de abril jamais pode ser esquecida na história de nossas vidas.

A escola municipal Tasso da Silveira ganhou, dolorosamente, um lugar em chamas na rotina dos descaminhos da loucura humana. Sessenta e seis disparos de revólver, quase à queima-roupa, rasgaram o projeto de harmonia que a Cidade Maravilhosa acalentava nos últimos anos, com evidente sucesso. Doze vidas no alvorecer foram ceifadas num relance. Outras doze, condenadas à retração para o resto de suas existências, carregando consigo petardos de ódio e chumbo ardente que cunharão seus futuros indefinidamente.

Desde o início da implantação das Unidades Pacificadoras, esquina definitiva na história do município, circulava na sociedade a sensação de que se construía um novo patamar na caminhada do Rio de Janeiro. Após o domínio do Complexo do Alemão ficou muito nítida essa impressão. Não dava para fingir que não se percebia. Até os meios de comunicação paulistas, que sempre venderam muitos jornais, revistas e programas noticiosos com as mazelas cariocas, já estavam se adequando a uma fonte claramente minguante de escândalos policialescos, cujo clímax foi o massacre da Candelária – mal acostumados que estavam com as 111 vítimas dos que ‘guardavam’ presos em Carandiru.

Todavia, na manhã suave de um outono nascente, um jovem de 23 anos fuzilou o futuro de uma dúzia de esperanças. Com 66 disparos, Wellington Menezes de Oliveira perfurou definitivamente o coração e a história imediata de milhares. Agrupando alunos, familiares e professores, o número de vítimas diretas mais imediatas do assassino chega à cifra estúpida de 25 mil. Sem contar os milhões que se sensibilizaram com a tragédia, como todos nós, para quem a vida é a esperança mais sólida de que dispomos. Esquizóide ou esquizofrênico? Uma receita, com certeza

Os especialistas em transtornos estão afunilando seus pareceres para o diagnóstico de esquizofrenia do atirador – como os psiquiatras Marcos Gebara e Guido Palomba – apesar de se saber que a “pessoa dividida”, característica dessa doença, não costuma tomar atitudes criminosas, hediondas, em série, segundo o professor de psiquiatria da Uerj, Miguel Chaloub; para ele, trata-se de um caso de esquizoidia, quando o doente tem um quadro de vida solitária, introspecção doentia e má adaptação à realidade (O Globo, 9/4/2011,p.8).Esquizofrênico ou esquizóide, o autor da chacina deve ter se inspirado nos padrões de crimes semelhantes (chamados school shoting) especialmente nos EUA. Graças ao estágio de “aldeia global” em que vivemos, os meios de comunicação não deixam de divulgar esses eventos trágicos desde 13 de março de 1996, na Escócia, quando um atirador invadiu uma escola primária e executou 16 crianças e uma professora, se suicidando. Para uma cabeça doente, um modelo tão repetido, acrescido do agravante de ser oriundo de países tidos como ‘modelares’, ganha a dimensão de uma verdadeira receita.

Em verdade, agora não importa se a ‘receita’ tinha no bullying a motivação básica ou se estava baseava na rejeição por parte do gênero feminino, já que a maioria das vítimas eram meninas (a mãe o abandonou, a mãe adotiva faleceu). Nem se trata de ponderar se o nome da doença era esquizofrenia ou esquizoidia. Ambas as doenças, assim como os quadros de rejeição e gozação estudantil, são sofridos por milhões de humanos, somados todos os países. No entanto, eles não são determinantes para que suas vítimas massacrem. Prevenção é o que se pode fazer A lição de prevenção é que não se pode deixar de tirar das dores que atormentam os familiares, amigos e toda a sociedade. O sofrimento é, agora, a face mais visível e cruel da história universalizada da escola Tasso da Silveira de Realengo. Não se sabe, e isso importa muito, quantos de nós e dos parentes das vítimas do dia 7 votaram a favor do “não controle de armas”, quando o governo propôs o sufrágio das armas, há alguns anos. Persuadidos pelos numerosos políticos, asseclas do capital da indústria de armamentos, os pouco instruídos brasileiros acolheram o argumento de que tínhamos que, pessoalmente, nos defender da barbárie...Como se cidadãos não treinados e sem planos de combate fossem capazes de enfrentar bandidos calejados no manuseio de armas e previamente munidos de cuidados.

Assim como no país de referência de nossas cabeças colonizadas, o direito às armas sempre foi arrotado como um “ato de democracia”, descaradamente, do mesmo jeito cínico algumas cabeças que se julgam coroadas têm defendido o direito de cidadãos públicos serem racistas e/ou homofóbicos – basta lembrar dos casos recentes do deputado Bolsonaro e do escritor Monteiro Lobato, em novembro último, quando alguém do Ministério da Educação sugeriu incluir uma notinha alertando os leitores sobre expressões racistas do grande escritor. Tem gente de aparente “alto quilate” que alega se tratar da mais pura defesa da liberdade. Ora, se o dever do Estado não incluir a ação preventiva de cercear a oferta de recursos – sejam armas ou palavras – para o bem maior da coletividade, estamos correndo o risco de volta à barbárie.

Um teste: será que os pais e irmãos das crianças fuziladas em Realengo vão aceitar o argumento de que não se pôde impedir o massacre porque vivemos numa democracia? Será que a desculpa da liberdade de ir e vir e de consumir armas vai consolar o que restou de vida na existência dos familiares e amigos dos meninos da escola Tasso da Silveira? Bastaria o estado se dizer cuidadoso como um “pai presente” (argumento do nobre deputado), ao invés de se retomar a campanha contra as armas e enrijecer a legislação contra o uso delas por civis? Palavras, assim, convenientemente ‘democráticas’, vão consolar a dor sem-fim da aldeia em que se transformou Realengo?E se cada um de nós – apenas num hipotético exercício mórbido – formos vítimas desses ‘cidadãos armados’ que andam soltos por aí, será que morreremos felizes? Ficaremos realizados, mas entrevados, para o resto de nossos dias, só de sabermos que a democracia foi preservada? Como se vê, não é preciso ser um gênio para perceber que não dá para o bicho nos pegar e só depois reclamarmos que o bicho abusou das liberdades democráticas. É urgente castrar os monstros potenciais. Tirar-lhes as armas. Ou alguém acredita que esquizofrênicos, esquizóides ou psicopatas são ‘machos o suficiente’ para, desarmados, enfrentarem uma escola inteira? Uma só classe?Como disse Confúcio, É melhor acender uma pequena vela do que reclamar da escuridão.