No universo do jornalismo há uma espécie de ‘princípio’ que assegura ser o ideal da intervenção isenta do repórter quando ele ouve ‘os dois lados’ de um evento ou de um tema. Gerações de profissionais, inclusive os mais sérios e a imensa maioria dos autores rezam por essa mesma cartilha, querendo ser, reduzem as leituras da realidade a uma simplória dupla de ‘lados’. Certamente inspirados no arcaico pensamento maniqueísta, do século III depois de Cristo, ditado por um certo persa que atendia pelo nome de Manes – assim, sem acento agudo, apesar de ter feito tudo para merecê-lo, ao reduzir tudo a dois lados.
É sempre bom lembrar o que já se fez de grotesco, para dizer o mínimo, quando se apostou nesse modo cômodo e maniqueísta de fazer apurações jornalísticas. A lista é grande, mas dois casos são clássicos. Durante o governo Collor, o ministro da saúde, Alcenir Guerra, foi denunciado por ter feito licitações criminosas de bicicletas – ouviu-se o lado dos denunciantes e dos fabricantes do equipamento ciclístico. O ministro foi afastado da vida política, de imediato; mas, seis anos depois a justiça o isentou completamente, porque ouviu um terceiro lado, o da vítima. Cerca de dois anos depois, março de 1994, deu-se o caso clássico denominado “Escola Base”. Foram ouvidos até três lados: o do delegado, o da mãe de um aluno e o lado ‘científico’ de uma pediatra desatenta e burocrata. Os donos da escolinha foram desacreditados e só puderam falar um mês depois, quando já estavam presos, e tinham sua casa e escola depredadas. Soube-se que eram inocentes.
No último dia 11, o jornal Folha de S.Paulo, no caderno “Ilustrada”, uma matéria assegurava que uma verdadeira “operação de guerra estava sendo montada para salvar a audiência da novela Morde e Assopra”. Algumas estratégias traçadas seriam as mudanças das histórias de alguns personagens, mais investimento em humor e maior cadenciamento da trama, do ritmo.
De imediato se nota que a apuração dos dados teria que passar pelo ‘pai da criança’, o autor, no caso, Walcyr Carrasco, além de uma autoridade da emissora que seria a responsável pela conhecida tática da ‘chacoalhada novelistica’. Nada. Ficou tudo na irresponsabilidade dos cochichos de alguém tão sério e seguro de si que não autorizou citar seu nome, apelando o titular da coluna (Outro Canal) para o sempre ensaboado e fugidio, além de tosco, ‘off’ – quando uma fonte de informação não tem coragem de assumir o que denuncia. Cumprindo o velho ditado de entregar os anéis, para ficar com os dedos.
Pois bem, dias depois a própria Ombudsman do jornal paulistão (Suzana Singer) revelou que o autor da novela fora ouvido, sim, mas sua versão fora desconsiderada pelo repórter, pois “não batia” com a versão em que o jornalista ‘apostava suas fichas’...Quer dizer, ao invés de providenciar a divulgação dos dados, já levantados, o profissional se permitia ‘socializar’ só o que achava mais ‘vendável’ ou podre.
Naturalmente, todo mundo sabe que os diversos gêneros jornalísticos (notícias, reportagens, editoriais, colunas etc.) se alimentam dos “objetos” de maior consumo potencial dos receptores. Também é um fato sabido que leitores, ouvintes e espectadores – o ‘mercado’ - têm predileção atávica por novidades ruins, sejam notícias, mesmo, ou apenas comentários. No entanto, entre o público gostar de consumir podridão e um meio de comunicação oferecer o estado de decomposição que o jornalista imagina ter descoberto em algum objeto pautado, há uma distância enorme. Principalmente ética.
Faz tempo que os meios de comunicação têm reservado um lugar nobre para essa entidade rigorosamente abstrata, venerada sob o pseudônimo classudo de ‘mercado’. A gente fica imaginando que a hierarquia dos respectivos veículos também apóia esse apego aos desejos mercadológicos presentes no momento de chamar para destaque uma angulação ou versão escandalosa, desde que com alta possibilidade de consumo.
Só que os profissionais que juraram oferecer a verdade, somente a verdade, aos consumidores de sua produção precisam sair dessa zona de conforto alimentada pelos proprietários e seus representantes nas ramificações do poder no cenário jornalístico. Jornalistas têm o compromisso primeiro com a objetividade dos dados – mesmo quando interpretações ou opiniões de alguma fonte. Não com a perspectiva de venda do produto jornal. Este não é negado. Apenas não pode atropelar o ‘discurso’ dos fatos, sejam concretos ou abstratos.
O imaginário, o gosto, a opinião do repórter têm lugar, sim, nas matérias opinativas, como editoriais, crônicas, até artigos. Não podem ser embrulhados e vendidos com o selo de notícia ou de reportagem. Pensamentos mágicos, elaborados pelo paladar de subjetividades, por mais brilhantes que sejam, e aqui não é o caso, evidenciam apenas a falta de consideração para com o consumidor. Um desastre no campo da ética.
Gabriel García Márquez nos legou um pensamento definitivo e adequado para esta ocasião;
- A melhor notícia não é a que se dá primeiro, mas a que se dá melhor.
Simples assim.
É sempre bom lembrar o que já se fez de grotesco, para dizer o mínimo, quando se apostou nesse modo cômodo e maniqueísta de fazer apurações jornalísticas. A lista é grande, mas dois casos são clássicos. Durante o governo Collor, o ministro da saúde, Alcenir Guerra, foi denunciado por ter feito licitações criminosas de bicicletas – ouviu-se o lado dos denunciantes e dos fabricantes do equipamento ciclístico. O ministro foi afastado da vida política, de imediato; mas, seis anos depois a justiça o isentou completamente, porque ouviu um terceiro lado, o da vítima. Cerca de dois anos depois, março de 1994, deu-se o caso clássico denominado “Escola Base”. Foram ouvidos até três lados: o do delegado, o da mãe de um aluno e o lado ‘científico’ de uma pediatra desatenta e burocrata. Os donos da escolinha foram desacreditados e só puderam falar um mês depois, quando já estavam presos, e tinham sua casa e escola depredadas. Soube-se que eram inocentes.
No último dia 11, o jornal Folha de S.Paulo, no caderno “Ilustrada”, uma matéria assegurava que uma verdadeira “operação de guerra estava sendo montada para salvar a audiência da novela Morde e Assopra”. Algumas estratégias traçadas seriam as mudanças das histórias de alguns personagens, mais investimento em humor e maior cadenciamento da trama, do ritmo.
De imediato se nota que a apuração dos dados teria que passar pelo ‘pai da criança’, o autor, no caso, Walcyr Carrasco, além de uma autoridade da emissora que seria a responsável pela conhecida tática da ‘chacoalhada novelistica’. Nada. Ficou tudo na irresponsabilidade dos cochichos de alguém tão sério e seguro de si que não autorizou citar seu nome, apelando o titular da coluna (Outro Canal) para o sempre ensaboado e fugidio, além de tosco, ‘off’ – quando uma fonte de informação não tem coragem de assumir o que denuncia. Cumprindo o velho ditado de entregar os anéis, para ficar com os dedos.
Pois bem, dias depois a própria Ombudsman do jornal paulistão (Suzana Singer) revelou que o autor da novela fora ouvido, sim, mas sua versão fora desconsiderada pelo repórter, pois “não batia” com a versão em que o jornalista ‘apostava suas fichas’...Quer dizer, ao invés de providenciar a divulgação dos dados, já levantados, o profissional se permitia ‘socializar’ só o que achava mais ‘vendável’ ou podre.
Naturalmente, todo mundo sabe que os diversos gêneros jornalísticos (notícias, reportagens, editoriais, colunas etc.) se alimentam dos “objetos” de maior consumo potencial dos receptores. Também é um fato sabido que leitores, ouvintes e espectadores – o ‘mercado’ - têm predileção atávica por novidades ruins, sejam notícias, mesmo, ou apenas comentários. No entanto, entre o público gostar de consumir podridão e um meio de comunicação oferecer o estado de decomposição que o jornalista imagina ter descoberto em algum objeto pautado, há uma distância enorme. Principalmente ética.
Faz tempo que os meios de comunicação têm reservado um lugar nobre para essa entidade rigorosamente abstrata, venerada sob o pseudônimo classudo de ‘mercado’. A gente fica imaginando que a hierarquia dos respectivos veículos também apóia esse apego aos desejos mercadológicos presentes no momento de chamar para destaque uma angulação ou versão escandalosa, desde que com alta possibilidade de consumo.
Só que os profissionais que juraram oferecer a verdade, somente a verdade, aos consumidores de sua produção precisam sair dessa zona de conforto alimentada pelos proprietários e seus representantes nas ramificações do poder no cenário jornalístico. Jornalistas têm o compromisso primeiro com a objetividade dos dados – mesmo quando interpretações ou opiniões de alguma fonte. Não com a perspectiva de venda do produto jornal. Este não é negado. Apenas não pode atropelar o ‘discurso’ dos fatos, sejam concretos ou abstratos.
O imaginário, o gosto, a opinião do repórter têm lugar, sim, nas matérias opinativas, como editoriais, crônicas, até artigos. Não podem ser embrulhados e vendidos com o selo de notícia ou de reportagem. Pensamentos mágicos, elaborados pelo paladar de subjetividades, por mais brilhantes que sejam, e aqui não é o caso, evidenciam apenas a falta de consideração para com o consumidor. Um desastre no campo da ética.
Gabriel García Márquez nos legou um pensamento definitivo e adequado para esta ocasião;
- A melhor notícia não é a que se dá primeiro, mas a que se dá melhor.
Simples assim.