terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Difícil é aprender a ler. O resto está escrito

Uma das tentações mais irresistíveis para o ser humano é a postura de torcedor. Não se trata apenas dos casos de agremiações esportivas. A isenção é uma montanha muito íngreme para nossa ‘racionalidade’, pois ela foi construída, desde os mais tenros anos, com base no apego a valores que herdamos como verdades absolutas. Muitas, muitíssimas vezes, eles não passam de “pensamentos únicos” ou “verdades convenientes”, todas passageiras.

Por essa limitação tão ancestral em nossa história, a percepção das coisas reais, que estão bem à vista, se torna uma cilada em que caímos inúmeras vezes e diariamente. Tudo bem, se estamos apenas torcendo por um clube ou pela derrocada de um “big brother”. Todavia, quando a torcida invade o campo profissional a postura muda de peso.

Imagine um médico que não percebe uma doença básica do paciente e receita uma ‘química’ para uma coceirinha qualquer, porém estimulante da doença mais expressiva. Um engenheiro que, desatento à inclinação do terreno – por exemplo, acima da quota dos 45 graus -, prescreve piscinas e outras delícias pesadas para um terreno de encosta. Em ambos os casos as conseqüências negativas podem até não explodir ou implodir de imediato; mas são certas. Há dias um juiz foi parado numa blitz do trânsito por estar sem emplacamento do veículo e sem os respectivos documentos; deu voz de prisão à funcionária que simplesmente aplicava a lei e abriu boletim de ocorrência contra a desacatadora: “Imagine como dói a injustiça contra mim, que faço justiça” - teria dito o magistrado.

No campo do jornalismo o exercício de torcida é um espetáculo diário. O craque da rodada, para um veículo, pode ser o ‘nota 5’ em outro; um projeto de governo ganha elogios em determinada revista, enquanto outra vê nele um desacato ao bom senso, quando não à vastidão da democracia. Como tais posições de torcida são contra ou a favor de determinados governos, personalidades ou ‘valores’, o leitor apressado, ou escravo de um só veículo, fica comprando e sorvendo o engodo, inocentemente.

O resto está escrito, realmente

Às vezes seria suficiente um pouco mais de paciência para esperar o dia seguinte, com os desdobramentos esclarecedores dos fatos; em outras ocasiões a simples leitura da matéria até o fim permitiria notar que o jornalista torce com tanta sofreguidão que nem percebe haver levantado, ele mesmo, alguns dados anuladores das certezas que impregnam os títulos de suas notícias ou reportagens. O repórter chega a ‘ouvir os dois lados’, mas só escuta um deles, o do seu time. Veja um caso recente, abaixo, em O Globo, de 19.02.2011, p.28.

O título assegurava: ‘APORTE NO BNDES REDUZ EFICÁCIA DE AJUSTE FISCAL’. O subtítulo, ou “linha fina”, no jargão dos jornalistas, reforçava a denúncia: “Para analistas, novos empréstimos de R$100 bi do Banco podem invalidar cortes de $50 bi no orçamento”.
A matéria confirmava que “um aumento de capital do BNDES de R$ 6,4 bilhões coloca em xeque, na opinião de alguns economistas, a eficácia da austeridade fiscal pregada pelo governo, que também informou cortes de R$ 50 bilhões no orçamento federal.” Em seguida, e realmente, são citadas as posições de Rogério L.F.Werneck, da PUC- Rio, e de Fábio Kanzue, da USP, reforçando a crítica ao aumento de capital do Banco de fomento, “por aquecer a economia” (sic).

Mesmo deixando passar a confusão que se estabelece com “novos empréstimos de R$100 bi” e a informação trazida de que o aporte era de R$ 6,4 bi...se for até o “pé” da reportagem, o leitor vai reparar, surpreso, que um mesmo número de economistas tem posição contrária ao tom e ao título: Um é José F.L. Gonçalves, economista-chefe do banco Fator, o outro é Antonio Correa de Lacerda, professor da PUC – SP. Ambos falam do conhecido e óbvio efeito do reforço de caixa em um país em desenvolvimento: “aportes não invalidam cortes no orçamento (...), os investimentos que podem surgir com os novos empréstimos do BNDES devem estimular a economia de forma saudável.”

Durma-se com um barulho desses! Muita gente está tão acostumada com esse barulho que até dorme mais sossegada, como se fosse um acalentador som se chuva. Não é, infelizmente, um acalanto. Como nem toda chuva induz a um bom sono – as últimas tragédias na região serrana ocorreram nessas circunstâncias e sabemos as gravíssimas conseqüências delas.

Aprender a ler

Leitores não têm muita, talvez nenhuma, informação de que há um velho chavão no jornalismo que estabelece como o suprassumo da verdade ou, pelo menos, da melhor das intenções de alcançá-la, “ouvir os dois lados”. Na sociedade ‘civil’ já se ouve esse princípio maniqueísta, de vez em quando; algumas cabeças que se dizem ‘pensantes’ o repetem como se fosse um mantra garantidor do paraíso da lógica que santifica os raciocínios todos. Não é. Quantos lados tem uma caixa? Quantos um acontecimento? E uma idéia ou projeto? Uma pessoa ‘normal’ tem quantos pontos em sua vida? E por dia?

Para simplificar, quantos lados tem uma singela moeda? Só cara e coroa? Todas têm um terceiro, o lado da lombada, esquecida sempre. Esta “fala” de um certo interior que a moeda tem e que não enxergamos, justamente por ser oculta pelas faces externas. Ora, esse quarto e evidente lado é um universo para quem dispuser de um microscópio; ali se concentram bilhões de átomos (quinto lado, vezes bilhões, dependendo do tamanho da moeda). Não pára aí a riqueza da nossa moeda: além dos trilhões de lados constituídos pelas subdivisões de cada um dos citados átomos, restam os lados estético e simbólico do valor, o chamado lastro monetário. Simples, assim.

Em verdade, a verdade é que não se chega a nenhuma verdade quando se assegura que a verdade está presente na verdade que se anuncia como verdade. Nem o velho ditado que encabeça estas considerações: Difícil é aprender a ler. O resto está escrito.

Está mesmo? Restam ainda muitas dúvidas, sempre: Quem escreveu o que está ali? Destinado a quem? Onde está escrito? Quando? Como foi escrito? Para alcançar que propósitos? Movido por quais estímulos? O quê se escreveu? Até onde vão os desdobramentos, o sentido de cada mensagem escrita?

Bem, quem tiver resposta para cada questão dessas estará fazendo o dever de casa de cada jornalista e de cada cientista, de modo geral. Eles podem não alcançar respostas exatas para cada uma das dúvidas; no entanto, elas é que alimentam suas pautas diariamente.

Cabe ao leitor, ouvinte, telespectador e internauta desenvolver a consciência delas para iluminarem o que se recebe como reconstituição de fatos, opiniões, interpretações, gostos, adesões a valores, ideologias...enfim, as substâncias que as palavras carregam, como seres vivos que são.

Pois, acredite, a inteligência é uma espécie de olfato que nos dá a capacidade de ler sabores.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Critérios de noticiabilidade

Submerso num turbilhão de objetos de suposto interesse do público-alvo, cada pauteiro recorre a uma espécie de lista de referenciais para poder escolher aqueles que serão agendados em cada edição.
A lista costuma apontar "valores" que guiam o exercício da curiosidade do público, sempre regida pelo pré-princípio da "novidade". Os critérios são conhecidos como elementos de:
. proximidade, isto é, quanto mais o objeto se situa perto do receptor mais ele tem curiosidade sobre o mesmo;
. interesse humano, que explica porque temos mais curiosidade sobre celebridades, crianças, grávidas, idosos etc.
. intensidade - quanto maior a quantificação para exprimir um acontecimento mais este desperta o interesse;
. raridade - o fato real que se aproxima do inverossímil, do famoso 'cúmulo do absurdo', é muito bem recebido pela curiosidade geral.

Evidentemente há todo um jogo de pesagem, onde os critérios disputam os melhores lugares relativamente aos demais; um acidente sem maiores conseqüências, por exemplo, com o prefeito de Pequim (se é que lá existe tal encargo cívico) não tem qualquer apelo de "proximidade" para os brasileiros, nem para o resto da China, apesar do peso do elemento "interesse humano".
O roubo ou furto de um veículo é uma "novidade", mas só ganha a pauta noticiosa se o objeto afanado for de uma celebridade local - há alguns anos Pedro Bial 'foi aliviado' do seu automóvel, um Golf, e isso foi notícia em praticamente todos os veículos da cidade do Rio de Janeiro.
Por que acidentes de trãnsito matam diariamente o equivalente a algumas dezenas de passageiros de aviões e mal são notados? No entanto, a queda de cada aeronave comercial, com menos de 10% das vítimas do trânsito urbano ou rodoviário, gera uma cobertura de volumosa nos meios de comunicação: é o peso do critério da "raridade".

Pode-se fechar estas considerações com os princípios da ponderação e da comiseração.
"Comiseração", em razão do peso do trabalho de escolha que têm os jornalistas encarregados da pauta de seus respectivos veículos. "Ponderação", porque, excluída a verdadeira 'tara' que os pauteiros têm pelas notícias e reportagens negativas, a turma que precisa escolher entre milhares (milhões ?) de possíveis objetos de interesse do público tem um trabalho insano. Não dá para simplesmente condenar as escolhas.
O que podemos fazer é cobrar dos nossos meios de comunicação mais opções positivas, mais aprofundamento na apuração dos dados, mais, muito mais diversidade de pontos de vista do que os antiquados e maniqueistas "dois lados" que os velhos jornalistas juram ter a capacidade de mostrar toda a verdade de um objeto de pauta.
A flexibilidade do olhar é um sintoma da inteligência de quem olha. Este o critério que se espera presidir as mais diversas coberturas e apurações no nosso jornalismo de cada dia.

O sufoco da informação

O ritmo do crescimento de informações que diaramente circula no planeta é alucinante. Martin Hilbert e Priscila López são pesquisadores da Universidade da Califórnia e resolveram quantificar o volume de dados que, hoje, são produzidos e difundidos nos diversos suportes, digitais e analógicos.

Perceberam como está velha a imagem usada até há pouco de que a edição diária do "The New Iork Times" contém mais informação do que um cidadão inglês médio teria acesso em toda sua existência, se vivesse no começo do século XVII. Agora a onda de dados tomaria conta de 295 trilhões de megabytes.

Se fosse gravada essa tsunami informativa em CD-Rom de 730 megabytes, eles formariam uma pilha que, saindo da Terra, passaria da faixa de órbita da Lua; essa ponte ou 'caminho' de informações seria composto de 404 bilhões de discos de 1,2 milímetros de espessura cada um.
De acordo com o artigo publicado pela dupla de cientistas na revista "Science" desta semana, o conjunto dos computadores pessoais do planeta pode processar cerca de 6,4 trilhões de MIPS - sigla para milhões de dados por segundo.

A FUNÇÃO AGENDADORA DOS JORNALISTAS

Diante desse volume espantoso de dados disponibilizados pode-se imaginar as dimensões do encargo que cabe aos meios de informação ao fazerem a agenda diária de suas edições jornalísticas.

Com uma disposição muito precária de tempo (pois a indústria da informação trabalha sob intensa pressão do relógio), cada veículo precisa escolher seus objetos de pauta em meio a uma verdadeira 'via láctea' de eventos, assuntos e singularidades as mais diversas; são opiniões, interpretações, dados carregados de gostos, de opções ideológicas e de marcas vivas, vibrantes de um balcão onde se misturam valores, preconceitos, cismas e dogmas.

Mergulhado no coração desse "mega-tudo-que-nem-tem-nome", os jornalistas que fazem pautas têm que tomar decisões, em segundos, sobre o que aproveitar em cada edição. Naturalmente existem certos princípios de interesse que sustentam as escolhas - são apelidados de "critérios de noticiabilidade", apesar de servirem, na prática, tanto para notícias quanto para reportagens.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Telhados brancos

O mundo das idéias está cheio de possibilidades magistrais, só aguardando que nossa inteligência se torne mais fina e sensível para que possamos aproveitá-las. Este é uma espécie de princípio que carrego comigo desde sempre (em verdade, a data ficou desbotada), e ao qual recorro quando as coisas ficam aparentemente sem saída. Como está cada dia mais evidente a questão do aquecimento global e suas conseqüências fatais.

Vivendo em um planeta que foi condenado à extinção da vida pelas iniciativas irresponsáveis dos seus moradores, cada dia se torna mais urgente identificar, criar e apoiar idéias que conduzam a soluções para o túnel sem saída em que nos metemos, junto com todos os animais – diga-se de passagem.

Nessa linha de preocupações, a iniciativa de pintar de branco os telhados aparece com a força de um movimento que precisa de todos e merece atenção geral. Trata-se de uma campanha elaborada pelo GBC (Green Building Council) e sustentada pelo laboratório Lawrence Berkeley National.

Segundo o laboratório, cada cem metros quadrados de telhado pintado de branco compensa dez toneladas de CO2 ao ano, o grande vilão do aumento da temperatura. De imediato, existe a redução da temperatura no interior de cada imóvel na ordem de dois a três graus – isso gera uma redução de gasto de energia para compensar o calor, tanto em cidades de clima tropical como em outras, nos períodos de verão.

Outro efeito dos telhados brancos, desde que o número deles sempre expressivo, é a redução da temperatura em um grau nas próprias cidades onde ocorrer a adoção da medida. O diretor-executivo do GBC do Brasil, Nelson Kawakami afirmou que:

- Ao proporcionar maior conforto térmico, os telhados brancos reduzem o consumo de energia com ar-condicionado e ventiladores. Mais que isso: eles são de fácil aplicação e pouca manutenção. Já existem tintas e materiais autolimpantes que evitam que as superfícies tenham que ser repintadas depois de alguns anos. (O Globo, 6/01/2011, p. MB1)

Na capital de Santa Catarina, Florianópolis, já existe, desde dezembro de 2009, uma lei favorável à pintura das coberturas de edifícios e residências – mas ainda está aguardando a respectiva regulamentação. Foi proposta pelo vereador Jaime Tonello, criando o “Programa de Redução do Aquecimento Global no município, através de ações que visem a estimular a pintura, na cor branca, dos telhados das construções do município.”

A Companhia de Desenvolvimento Habitacional do estado de São Paulo já encampou a idéia: os conjuntos habitacionais ganharão a nova cor, sejam antigos ou novos, em Cubatão, Itanhaém, Piraju, Valinhos e Ilhabela. Aliás, esta última já pintou os prédios do hospital, do ginásio de esportes e de algumas escolas e foi a primeira prefeitura nacional a aderir ao movimento batizado de “One Degree Less” ou “Um grau a menos”. Lá algumas residências particulares alteraram as cores de seus telhados e a prefeitura estuda uma forma de premiar tais iniciativas com descontos no IPTU.

E nós, de braços cruzados?

Enquanto isso, será que o resto do país vai ficar aguardando os resultados para se animar e começar a se mexer? Será que temos tempo contemplar os bons exemplos enquanto aguardamos com as mãos na cintura? Quem esteve recentemente em locais atingidos pelas últimas catástrofes – como na região serrana do estado do Rio de Janeiro – certamente sabe que a resposta é não; não temos esse tempo para contemplar, enquanto degradamos a natureza. Os quase mil mortos e cerca de duas centenas de ainda desaparecidos tornaram aquela tragédia a maior do país.

Precisamos fazer algo de imediato e de modo concreto. Por exemplo: está acabando alguma construção? Pinte o telhado de branco. Pode participar da reunião no seu condomínio? Converse logo com o síndico e tente incluir na pauta a iniciativa. Conhece algum vereador ou deputado, ou dispõe de um canal de comunicação com um deles? Toque no assunto com ele – incomode, faça-o ver que esse é um projeto de futuro e repercussão garantidíssimos.

Há um conhecido pensamento de Bertold Brecht que, livremente, diz o seguinte:
· Primeiro levaram um judeu – nem tomei conhecimento.
· Depois levaram outros – não me revoltei.
· Agora vieram me levar...como posso reagir?

Antes que o aquecimento global acabe com nossas vidas, nós temos que tomar conhecimento dele, nos revoltar contra a situação e reagir. Ficar esperando que as autoridades, sozinhas, tomem a iniciativa pode vir a ser tarde demais.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O que explica a queda da violência

Já se comentou, aqui, sobre a suposta sede atávica da população por más notícias; uma espécie de “complexo de hiena” ou de “urubu”, todos igualmente consumidores de podridão.

Em dúvida se tal sede é, de fato, da população ou do jornalismo, ficamos com a evidência de que o incentivo do mau hábito, por parte dos jornalistas, é ato um claro de sugestionamento ou, mesmo, de semeadura. Para os profissionais da notícia, a coisa funciona como um sério argumento de venda. O mote é ‘dar ao povo o que o povo gosta’. Mas, gosta só disso? Ou gosta tanto disso por ser alimentado apenas de lixo humano?

Em verdade, boas noticias são tão raras e tão pouco destacadas, quando ganham algum espaço, que não se pode deixar de comemorar aquelas que conseguem furar o bloqueio do suposto “gosto do consumidor”. Agora, mesmo, fomos brindados com a notícia de que as taxas de homicídio e outros crimes caíram nos estados do Rio e de S. Paulo. Certamente não se pode explicar o fato auspicioso pela oferta menor desse tipo de cardápio nos meios de comunicação de massa. Basta dar como exemplo de como a criminalidade favorece a violência: no estado de S. Paulo a região de Presidente Prudente, onde foram instalados 17 presídios recentemente, foi onde mais cresceu a taxa de homicídios (53,3%, só no último ano).

Apesar da insistência nesse padrão de produto negativo, uma espécie de incentivo ao crime, felizmente a dinâmica da história dos homens revela mudanças. É possível, até, que as denúncias dos jornais tenham contribuído para a queda da criminalidade. Difícil crer, mas, quem sabe? Todavia é preciso considerar um cenário maior para se entender os números positivos.

Na antiga ‘terra da garoa’, pois, hoje, já não garoa mais, o reforço na capacidade penal, as ações de cunho social e os projetos comprometidos com a segurança explicam, em parte, a redução da criminalidade.

Na cidade do Rio não dá para desconsiderar a iniciativa de instalar UPPs em locais críticos; elas são verdadeiras retomadas cívicas de territórios soberanamente dominados pelo crime. A ocupação dos complexos do Alemão e da Vila Cruzeiro também tem méritos significativos, principalmente morais, pois levanta a bandeira de que “é possível fazer acontecer”. Projetos de ONGs, como o do AfroReggae, também resgatam a cidadania e semeiam a esperança. Sem essa dose de sonho bom os homens não atuam como cidadãos e se deixam levar por quem os subjuga, facilmente.

Não haveria mais algum outro condicionamento de âmbito nacional para as taxas reduzirem? Por trás das várias iniciativas mencionadas acima, muito provavelmente estão a melhoria dos índices econômicos, a queda da taxa de desemprego (no Rio 5,1%), a sustentação do poder aquisitivo do salário mínimo (só comparável à época de sua criação) e a alta do salário médio dos trabalhadores - no Rio R$ 1.929,05, por exemplo, contra R$ 1.615,73, em S. Paulo, segundo o IBGE). Além desses fatores estratégicos é preciso acrescentar o papel fundamental da redução das desigualdades, evidenciada pelo ingresso de cerca de 30 milhões na classe média.

Assim fica claro que os bons números, ainda que longe de serem suficientes, são resultados de um empenho de âmbito nacional. Se todos aceitam o conceito de que “não há almoço grátis”, também é preciso saber “ler” o contexto responsável pelas precondições favoráveis para a queda da violência, pois não há “queda da violência grátis”. Por trás há, sempre, um esforço pesado em prol das melhores condições de vida.