É de Victor Hugo a expressão surpreendente: “A palavra, como se sabe, é um ser vivo.” Um anônimo teria dito: “Difícil é aprender a ler: o resto já está escrito.” Já Muriel Rukeyser assegurou que “O universo é feito de histórias e não de átomos.”
A nação brasileira, vista pelo viés político, está entrando em um desses momentos que tem tudo para ser histórico e tecido pelas palavras. Se duvida, volte sua atenção para o horizonte político, cujo palco é o Congresso, e acompanhe a mais nova Comissão Parlamentar de Inquérito. Sim, a última, dedicada ao personagem ternamente conhecido pelo codinome de Carlinhos Cachoeira. Ela promete ser um verdadeiro e tresloucado tsunami, com risco de paralisar os trabalhos (!) parlamentares.
O que se quer ressaltar, aqui, é o ponto central do foco de observação: a palavra. Todo o processo que acaba de se iniciar naquele ambiente ‘democrático’ está sustentado pelo exercício dos nomes que os personagens diversos vão atribuir aos atos e aos pensamentos – palavras, portanto - do que se revelou recentemente a última mega-gororoba desse “país tropical”, aliás, cantado por Jorge, outrora Bem, hoje Ben Jor (outro sintoma vivo da importância da palavra).
Palavras e sentidos: a trama da história e dos parasitos
Desde 2009 são feitas gravações de conversas da mais espetacular revelação de protagonista das agendas políticas e éticas da terra onde viveram personagens tão bem retratados pelo genial Chico Anysio – essa perda recente e tristemente irrecuperável. Para refrescar a memória, basta lembrar como o ilustre Senador da República, Demóstenes Torres, Presidente do DEM e Presidente do Conselho de Ética (!!!), na ocasião, se referia ao personagem que tem como segundo nome o contraditório “Augusto”: “Professor Cachoeira”. (O contraventor era respeitosa e intimamente tratado por um título da mais alta responsabilidade moral na voz de um Senador e Presidente do Conselho de Ética...) Pois já não cantamos tanto, no hino à Bandeira, “Salve lindo pendão da esperança/ salve símbolo augusto da paz”? Pois é, Augusto, segundo o dicionário, refere-se ao que é “respeitável, venerando, sublime, magnífico” (AURÉLIO, 2004, p.228). Convenhamos, de ‘pai dos burros’ não tem nada; é a sabedoria em ‘pessoa’, digamos assim, seja Aurélio, Houaiss e outros menos cotados no linguajar cotidiano.
Hoje essas cínicas conversações entre senadores, governadores (já há quatro envolvidos direta ou indiretamente), estão aí, nos jornais e revistas; todas devidamente disponíveis por escrito, como não pode faltar na gramática ética de todo jogo do bicho e de outros animais e quedas d’água afins. Reafirmando o pensamento do “anônimo”, citado no início: Difícil é aprender a ler: o resto está escrito, pois ela é o fio da meada que tece toda a trama da política e da politicagem. Convenhamos, também não é justo esquecer o detalhe sórdido. Tudo comprovando a tese do escritor francês: A palavra, como se sabe, é um ser vivo. E como tem vivacidade (!), por mais que os surpreendidos pelas gravações, delas, sempre arrotem que ‘não são legais’; alguns se saem com a desculpa esfarrapadíssima de que ‘não foi bem assim que eu falei’ – lembra do ex-presidente FHC, quando pediu: “Esqueçam o que escrevi”? Até hoje repete o refrão. É uma verdadeira síndrome do arrependimento tardio; tocante, mesmo.
A ética e a memória armazenadas na História
No entanto, pela disposição demonstrada por “nossos” representantes em Brasília, o que a CPI promete, para os próximos capítulos, é a comprovação do pensamento inovador de Rukeyser: O universo é feito de histórias e não de átomos. Tanto o político quanto o social.
Pode-se garantir, com toda segurança, que o universo político é uma engenharia de palavras que brigam, sem dúvida, mas que constroem a história dos embates que ficarão para a história, cheios de vontade de serem ‘a’ História oficial. As diversas CPIs que sustentamos, na capital criada por Juscelino Kubitschek de Oliveira, no Serrado brasileiro, não nos deixam mentir. Todas jogaram muita água fora da bacia, mas levantaram muitas ações e omissões que as palavras ficaram poucas para dizer com precisão; algumas, por sinal, foram repetidas ao infinito, como a sonora “quadrilha”. Agora ela retorna, para ser ‘o’ refrão da vez. Variam os sobrenomes “quadrilha do Cachoeira”, “quadrilha de Goiás”, “quadrilha do Carlinhos”. Já “quadrilha do Augusto” não deve ser muito ‘tocada’, pois é infame demais, pela contradição interna das palavras e seus respectivos sentidos.
Aqui é muito conveniente lembrar um pensamento assustadoramente verdadeiro para o momento: “O perigo é maior quando homens pequenos projetam sombras imensas.” Alguém já disse isso. Se ainda não o fez, deveria ter feito. A ideia é perfeita para retratar um cenário que o país está vendo se formar no horizonte e assiste a tudo de cadeira.
Como você já recordou, espero que concorde com o imortal Victor Hugo: A palavra, como se sabe, é um ser vivo. E como vive e faz história, a palavra, no planeta globalizado, como é costumeiro se repetir, sem maiores entendimentos. Mas, isso fica para uma outra ocasião. Com menos ‘quadrilhas’ e mais ‘augustos’ autênticos – quando e se aparecerem soltos por aí. Está difícil, posso garantir. Pois, como uma metralhadora giratória, o universo das palavras está, literalmente, “com a faca na boca”, como quem parte para a luta diária, para matar ou morrer.