quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Os nomes e as coisas

“O universo é feito de histórias, não de átomos.” (Muriel Rukeyser)
Um marco decisivo na história dos humanos foi o desenvolvimento da capacidade de fazer abstração. Talvez ainda morando em cavernas e árvores, ao criarem nomes para identificarem objetos e ações, ele deram o passo definitivo para se descolarem dos demais seres animados. De modo natural, a socialização dessa habilidade se tornou um requisito básico para que os ancestrais dos futuros astronautas, assim como dos comedores de ‘hot dog’ constituíssem as tribos diversas. Desde então; com ela, puderam articular seus projetos comuns e as mais diversas interações entre si, em busca das melhores condições de convivência e sobrevivência.
A partir desse marco, dar nomes passou a ser essencial para que a espécie humana pudesse pensar. Alguém já disse que “a denominação é essencial ao pensamento.” E com toda a razão. Ficamos tão dependentes da habilidade de dispor de nomes para pensar que ela nos escravizou, literalmente. (Se você tiver disciplina e paciência, experimente pensar em alguma coisa para a qual não exista qualquer nome. Naturalmente, não vale a esperteza de raciocinar com os lugares comuns: “aquele treco que dá naquele tipo de árvore que só existe na tonga da milonga do caburetê...”. Por mais que Vinícius de Moraes tenha cantado o finalzinho do pensamento turvo. Toquinho, também; para o bem da verdade.
Caso não recorramos a um artifício desses – mas que não diz nada – é preciso ser criativo para pensar sem palavras. Talvez seja um vício, um defeito. Mas é um fato.
Assim, não deixa de ter um sentido (profundamente antropológico, vamos reconhecer) a célebre narrativa que abre a não menos célebre Bíblia dos judeus e dos cristãos, o Gênese, atribuído a Moisés, quando relata que o criador de todas as coisas não apenas fez os seres animados em duplas que formavam casais, como deu nome a tudo. Está lá, logo nos primeiros versículos do capítulo inicial: “E disse Deus: Haja luz. E houve luz. E chamou à luz dia, e às trevas, noite.” Mais adiante, “chamou Deus ao firmamento céu, e ao ajuntamento das águas, mares. E viu que isso era bom.”
No mesmo capítulo 1, versículo 19, depois de ter criado o homem, narra o texto que o criador trouxe todos os animais e todas as aves a ele, só para que desse nomes a eles; “e tudo o que o homem chamou a todo ser vivente, isso foi o seu nome.” Em seguida vem a passagem que tem alimentado a coisa feia do machismo: “fez cair um sono pesado sobre o homem...tomou uma das suas costelas e formou a mulher.” Ao exibir a criação ao homem, este não fez por menos e já foi ‘enquadrando’ a cara-metade como extensão de si mesmo, com palavras que não deixam dúvidas: “Esta é, agora, osso dos meus ossos, e carne da minha carne.” (Capítulo.2, versículo 23)
Até nossos dias o exercício da denominação continua como um claro sinal do poder sobre o objeto nomeado. Quando Luiz Gonzaga foi coroado o “rei do baião” – bem antes de Pelé e Roberto Carlos merecerem o mesmo título – a comunidade que tinha alguma voz, no Brasil, fazia um ato democrático, de poder, excluindo os demais candidatos ao posto maior do suposto reinado ou império (que este é mais sonoro).
O jornalismo tem sido um dos nichos nesse campo de nomeações. E elas têm demonstrado ter forte carga de poder. Como um sistema estruturado sobre palavras, essencialmente, os meios de comunicação respondem pelas nomeações de personagens, ideias e eventos que sustentam a narrativa da história humana. Em verdade, os jornalistas fazem apenas um rascunho dessa história, em razão dos limites de tempo que têm para selecionar o que pode ter interesse (agendar), definir o que merece apuração (pautar) e, enfim, estabelecer o que pode ser relatado, tintim por tintim - quer dizer, palavra por palavra - com o menor risco de ser um engano ou, pior ainda, uma mentira aprontada pela fonte dos dados que recolheu (apuração). Por isso o jornalismo é uma autêntica ‘cozinha de palavras’. Cada veículo tem uma espécie de vocabulário e uma gramática, próprios que revelam o perfil ideológico dele. O “equipamento”, digamos assim, funciona como um binóculo pelo qual cada jornal enxerga o mundo, pois serve para nomear as “coisas” todas que julga interessarem ao receptor, seja ele leitor, ouvinte ou telespectador/internauta). No fundo, não são nada diferentes de cada um de nós, pois vemos o que olhamos, sempre, a partir do ponto de vista que já pré-existe em nossa cultura, sensibilidade, gosto e crenças. Mais: a partir do local físico que ocupamos quando olhamos (pense na idéia de ‘horizonte’; é perfeita para enquadrar esta constatação).
Enfim, como os jornais, somos ‘sujeitos’ que nomeiam ‘objetos’ (a palavra sujeito vem do latim ‘subjectum’, indicando “aquele que está submetido a alguma coisa”). Os jornais e cada um de nós somos ostensivos “torcedores”, irremediavelmente atrelados a modelos segundo os quais encaramos tudo o que nos cerca. A partir de tais modelos é que produzimos o entendimento que satisfaz ao nosso desejo de ‘ver’ tudo arrumado, com boa dose de lógica. Este é outra condição ancestral do modo de viver dos humanos: não basta ter nomes para que vai ser pensado e dito, é preciso ter lá certa lógica.
Quando em 5 de junho de 2005, Roberto Jéferson, insatisfeito com o quinhão que recebera (confessou que eram só 4 milhões), buscou a jornalista Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, para jogar no ventilador o que ele denominou por “mensalão”, estava exercendo, espertamente – diga-se de passagem –, o poder de nomear o mal nos outros como quem faz um auto-exorcismo expulsando de próprio corpo a carga de culpa da aceitação de um ‘troco ilegal’ que um funcionário indicado por ele para a direção dos Correios denunciara, após ser surpreendido recebendo propina cinicamente. Claro que tudo isso ocorreu porque os meios de comunicação agendaram, apuraram e relataram – quer dizer “jogaram no ventilador”, para usar uma expressão mais ‘feijão-com-arroz’.
O giro do mundo é tão veloz e de faces tão diversificadas que os meios de comunicação mal conseguem relatar um acidente ou descalabro e já tem que apurar e relatar outras histórias. Acabam esquecendo em um limbo, aparentemente provisório, o desenrolar dos fatos, as conseqüências, os desdobramentos. As histórias, enfim, ficam sem fechamento. Você se lembra, por exemplo, do famosíssimo “Caso Escola Base”? Sim, aquela denúncia de que donos e professores de um maternal, em Aclimação, S.P., estariam abusando sexualmente das crianças a quem os pais confiavam os cuidados? Lembra como acabou a história que começou no longínquo 24 de março de 1994? Pois é: ainda não acabou.
Não se ouve nem se lê qualquer notícia sobre os diversos processos que jornais, revistas, emissoras de tv e o próprio Estado de S. Paulo respondem na Justiça. Não é só porque a Justiça é morosa. Também. Mas, acima de tudo, porque não interessa à subjetividade de nenhum veículo divulgar em que pé anda o estágio do ofício democrático da Justiça, na missão de punir os detratores de inocentes e dar uma compensação aos diretores e professores da Escola Base. Estes, sim, tiveram os cursos de suas vidas severamente afetados pela mentira de uns, pela vaidade de outros, assim como pela ambição de audiência/recepção e venda de todos os veículos.
Todavia não se fala mais no longo processo que deu ganho de causa às vítimas da acusação, em “primeira instância”, há quase uma década. E não se fala mais nisso. Não há mais interesse, como nunca mais houve, desde abril daquele ano, quando se descobriu que tudo não passava de falsa denúncia e podres coberturas jornalísticas de eventos que não ocorreram. Sem querer imputar culpa exclusiva em um respeitável jornal, veja-se como o famoso caso do acidente do “bondinho de Santa Tereza” (27 de agosto) tem rendido matérias diárias no jornal O Globo, com bons espaços também na TV do mesmo grupo. Tudo porque uma repórter daquele grupo foi vítima – ainda está sob cuidados médicos -, além do marido e da filha, esta teve morte instantânea. Desde então, diariamente, o grande jornal traz uma ou mais matérias sobre o acidente ou os bondinhos - pelo menos até o dia 20 de setembro.
Enfim, o que se quer sublinhar aqui, a pretexto da importância de dar nomes às coisas, é que chegamos a um estagio de vida em sociedade no qual só discutimos os temas agendados e pautados pelos meios de comunicação. Quando eles esquecem um ‘objeto’, nós, também, deixamos de pensar nele. Em outras palavras, vivemos no regime, na “democracia” que os veículos de informação nos condicionam ou, mais radicalmente, nos deixam viver, literalmente. Complicado, não? Mas é a mais pura verdade. Daí nasce a importância do chamado jornalismo dos leitores ou internautas, quando o receptor reclama, elogia, critica. Eles estão fornecendo aos nossos ‘pautadores’ uma agenda sobre o que interessa ser incluído nesse imenso salão de debates que é o jornalismo. Para o bem da democracia e não de um só veículo ou autoridade.
Dar nomes é um ato político. É um franco exercício democrático. Inclusive discutir a tal da “regulação dos meios de comunicação” que estes mesmos meios dizer ser iniciativa de ditaduras. Não é de se estranhar: todas as ditaduras reais (no sentido de concretas, é bom explicar) sempre dão um nome feio ou pesado às iniciativas que as ameaçam de alguma maneira. Fazem isso porque sabem o peso que existe no ato de dar nomes às coisas, aos procedimentos, às pessoas. Prezamos tanto a democracia que falar algo apelidado por um esperto de antidemocrático é condenar a nova idéia à prisão do desprezo. No mínimo às condição de cafonice.
Por falar nisso, existe algo mais cafona do que esta palavrinha cafona? Pensar nela é o supra sumo da cafonice. Ou existe algo de mais “acafonado”?