Uma das limitações mais complexas da produção no jornalismo é relativa à observação dos objetos – sejam eles acontecimentos, propriamente ditos, a serem reconstituídos, ou entidades, a serem ‘analisadas’ em suas singularidades respectivas, ora concretas ora abstratas. Como já se sabe, desde o século III, d.C., um persa chamado Manes firmou uma espécie de ‘princípio’ que assegurava que todas as coisas têm apenas dois lados pelos quais podem ser observadas. Ele reduzia tudo ora para o lado de Deus, ora do Demônio.
Daqueles velhos tempos até os nossos dias muita gente, até gente boa, acredita que essa visão maniqueísta (o nome vem do Manes, acima) é perfeita para a percepção completa de qualquer objeto. O senso comum, então, a consagrou como aquela visão clássica do “preto ou branco”, 8 ou 80, ou “dois lados da moeda”; a paranóia do persa virou uma clássica prova de verdade. Quem pensa um pouco mais já sabe que nem há só o preto ou o branco, nem o 8 ou 80, similar. A moeda, coitada, teve que se contentar com a mentira de que tem só dois lados, quando nem precisa ser alfabetizado para reparar que ela dispõe, pelo menos, de três: a cara, a coroa e a lombada (essa esquecida), sem falar nas três faces internas correspondentes a cada uma das externas. Só aí são seis lados da pobre e mal-falada moeda.
Na verdade, os limites da observação humana estão em todas as áreas sobre as quais os homens se debruçam para produzir algum conhecimento, muitas vezes com as melhores intenções. Claro, não se pode generalizar, pois todos os agentes produtores de conhecimentos têm algumas motivações, umas mais nobres e inocentes, outras até inconscientes; infelizmente, nem sempre a aparente ‘melhor das intenções’ é o que se pode chamar, com justiça, de observação isenta. No jornalismo esses ‘deslizes’, digamos assim, são muito mais freqüentes do que se pensa.
Nestes dias (17 de julho) uma reportagem de fôlego do grande jornal O Globo enfrentou a velha encruzilhada da observação de um objeto, em verdade bem complexo: o BNDESPar – uma espécie de entidade responsável por participações acionárias do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social; um braço, portanto, do conceituado BNDES (que, dizem, Obama quer imitar). A chamada para a leitura da referida matéria jornalística já prometia um olhar, digamos, ‘assinado’: “Um poderoso anabolizante de empresas – BNDESPar se associa a grandes grupos. Efeito colateral é uma ‘perda’ de R$ 3 bi.
Quando o objeto é imaginário
Fora a associação originariamente ‘positiva’ com a função transformadora que as substâncias nutritivas sofrem no organismo (função ‘anabolizante’), hoje claramente negativa, pois associada à química ilegítima, a produção de sentidos do texto de uma página inteira (27), sem anúncios, é, rigorosamente, negativa. Sem dúvida, o que justificou a pauta da matéria foi a iminência – já afastada - de o BNDES participar da operação entre o Carrefour e o grupo Pão de Açúcar. A leitura do texto revela como a observação do objeto (BNDESPar) se dá com um olhar estritamente unilateral, por mais que algumas outras fontes, que não o jornalista, tenham se manifestado. Destaque-se: todas com olhar condenatório da atuação do Banco, que não se manifesta.
Logo no primeiro parágrafo o autor diz a que veio, aliás, como pedem os manuais de jornalismo: “seis das maiores operações realizadas pelo BNDESPar dão pistas de que podem não ter sido exatamente um bom negócio. (...) Levantamento do Globo mostra que as operações acumulam uma ‘perda’ de R$ 3,04 bilhões...a partir de 2007 em comparação ao atual valor das ações negociadas na Bovespa” – sentencia Bruno Villas Boas. No entanto, antes do final do mesmo parágrafo se dá o ‘esvaziamento dos pneus’ da reportagem: “A ‘perda’, claro é contábil, não se consolidou porque a BNDESPar não se desfez dos papéis.” (grifo meu)
Ora, ora. Então, a página inteira de O Globo se dedica a uma pauta agendada pelo imaginário do jornalista? Um autor clássico sobre o jornalismo – Nilson Lage - resume uma espécie de ‘pensamento único’ sobre pautas jornalísticas: “A essência do jornalismo é partir da observação da realidade (do que ela tem de singular), esteja ou não conforme alguma teoria.”(Lage, N. A reportagem. Rio de Janeiro: Record, 2001, p.42)
Na mesma publicação, Lage conceitua reportagem como “exposição que combina interesse do assunto com o maior número possível de dados.” (p.112)
Não é preciso esperteza nem sutileza intelectual para notar que a grande matéria não tem base na “observação da realidade”, pois o Banco não negociara as ações (como, aliás, confirma o texto); logo, não teve prejuízos com elas. Os “dados” apresentados para dar consistência ao discurso (“essência do jornalismo”) são até em grande número, mas pecam pela falta de base mínima, uma espécie de “feijão com arroz”, do cardápio jornalístico: os fatos não existem, simplesmente. Sabe-se, ao contrário, que o BNDES tem uma longa história de competência como arquiteto e pedreiro no cenário instalado dos mais diversos segmentos do parque industrial do país.
Por outro lado, o ‘braço’ que investe em ações, o BNDESPar, não apenas trabalha com uma agenda de longo prazo (be-a-bá de qualquer cartilha de aplicações institucionais), como tem divulgado lucros substanciais (R$ 3,4 bi, em 2008, R$ 3,9 bi, em 2009, e R$ 3,7 bi em 2010).
Como este espaço é vocacionado para as questões jornalísticas, quis-se ressaltar, aqui, a presença de “pedra no meio do caminho”, como diria Carlos Drummond, na leitura dos melhores jornais e nos textos dos melhores jornalistas. Mesmo que o leitor desavisado não tenha consciência de como notícias e reportagens são ‘embaladas’, nunca é tarde discutir esses ‘condicionantes’ da veracidade delas. Não é exagero relembrar que outra “produção unilateral de sentidos” aconteceu exatamente no clássico caso da Escola Base, em 1994, de triste memória.
Por mais que ouvir “dois lados” seja uma espécie de “princípio” ultrapassado no próprio jornalismo contemporâneo – é preciso ouvir todos os lados. Observar um objeto de apuração sob um só enfoque já é uma derrota do princípio da isenção. Quando este nem existe, simplesmente, é uma temeridade.
sábado, 23 de julho de 2011
segunda-feira, 4 de julho de 2011
TÊNIS EM 3D
Em Londres fazia uma manhã ensolarada. Na quadra central do complexo de Wimbledon os dois tenistas mais bem colocados no ranking da ATP, Rafael Nadal e Novak Djokovic, tinham acabado de ouvir o “time” pronunciado pelo árbitro brasileiro, sinalizando que o jogo começaria pra valer naquele instante. De um lado, o espanhol, se despedindo do primeiro lugar no ranking da ATP; do outro, o sérvio, se preparando para assumir a liderança do mesmo. Entre eles uma partida prometia marcar a história futura do torneio mais antigo do planeta, com mais de um século de estrada.
Eram 10 horas e 15 minutos da manhã do primeiro domingo de julho de 2011, dia 3. Na linha abaixo do Equador, no hemisfério Sul, um grupo privilegiado de aficionados pelo esporte das bolinhas amarelas se acomodava nas confortáveis poltronas da sala 8 do Cine Downtown, na Barra da Tijuca. Num horário em que todos os cinemas da cidade, talvez do país, costumam estar fechados, ali estava ocorrendo ‘a primeira vez’ de uma partida de tênis (ou de qualquer esporte) transmitida ao vivo, em cores, em tempo real e – a novidade -em ‘terceira dimensão’ para o país.
Djokovic prepara o saque com uma dúzia de quiques, sua marca registrada.
Alguém na platéia acha graça:
- O cara acha que vai enervar o touro. Ele não sabe o que o espera. Alguns riem.
O sérvio alça a ‘bolinha’ – como é carinhosamente apelidado o equipamento de jogo – a uns 5 metros do solo e um golpe poderoso interrompe sua queda e a redireciona para a área de serviço do espanhol, vivendo as últimas horas de primeiro do ranking. Um silêncio denso e expressivo, na sala praticamente lotada (restam apenas 11 lugares vazios nas duas primeiras filas do cinema), revela o grau de expectativa do público que não pôde estar no All England Club, presencialmente. Naquela hora, uma certeza estava sendo costurada na mente daqueles amantes do esporte de Maria Esther Bueno e, mais recentemente, de Gustavo Kuerten: com exceção do juiz e dos boleiros, ninguém estava presenciando aquele momento histórico mais ‘dentro da quadra’ do que cada um daqueles 119 agraciados.
A platéia prende a respiração: a técnica de captação de imagens e os óculos de decodificação deixam aquele grupo com nítida impressão de estar a menos de 5 metros do tenista de 24 anos e 1,88 m. O golpe que projetou o petardo a 205 km por hora elevou o nível de adrenalina da platéia atenta e ainda impressionada com a ilusão visual de estar ao lado do sacador, como jamais qualquer um dos presentes estivera, por mais que tenha presenciado algumas partidas de ambos os tenistas em algum estádio concreto. A grama, baixinha e já maltratada pelas duas semanas de jogos sucessivos, estava ali, quase ao alcance dos pés, palpável; melhor: pisável. A virtualidade do canal usado para transmitir as imagens era não era mais uma “promessa” de impressão nítida de vizinhança das ações. Uma certeza contaminava a todos: Estávamos no camarote ‘do gargarejo’ de Wimbledon.
Até 12:44h aplausos e expressões de desapontamento pontuaram a marcha do sérvio sobre o “Miúra” da terra de Picasso, de 25 anos e um mês, exatamente. Uma caminhada difícil, mas segura, em direção ao título inédito para o sérvio, mas com o qual o falso canhoto já estava acostumado desde 2005, dando poucas chances aos adversários.
Os poucos momentos de distensão na platéia atenta tinham sido de estranhamento do vocabulário do comentarista ‘patrício’ que anunciava os pontos de maneira desconhecida na terra de Guga: ‘nada a 15’, ‘nada a 30’.
Ah, o jogo: Djokovic venceu por 3 sets a 1 (6/4, 6/1, 1/6 e 6/3). Nadal resumiu a partida de 2 horas e 28 minutos:
- Hoje foi impossível. Joguei o melhor que pude, mas Djoko estava incrível.
Ao comemorar o resultado, o sérvio lançou bolas, empunhaduras e raquetes para o público. Mais: ajoelhou na relva (como dizia o comentarista da terrinha), vacilou por dois segundos e comeu uma simbólica porção da ‘sagrada grama de Wimbledon’.
E entrou definitivamente para a História.
Eram 10 horas e 15 minutos da manhã do primeiro domingo de julho de 2011, dia 3. Na linha abaixo do Equador, no hemisfério Sul, um grupo privilegiado de aficionados pelo esporte das bolinhas amarelas se acomodava nas confortáveis poltronas da sala 8 do Cine Downtown, na Barra da Tijuca. Num horário em que todos os cinemas da cidade, talvez do país, costumam estar fechados, ali estava ocorrendo ‘a primeira vez’ de uma partida de tênis (ou de qualquer esporte) transmitida ao vivo, em cores, em tempo real e – a novidade -em ‘terceira dimensão’ para o país.
Djokovic prepara o saque com uma dúzia de quiques, sua marca registrada.
Alguém na platéia acha graça:
- O cara acha que vai enervar o touro. Ele não sabe o que o espera. Alguns riem.
O sérvio alça a ‘bolinha’ – como é carinhosamente apelidado o equipamento de jogo – a uns 5 metros do solo e um golpe poderoso interrompe sua queda e a redireciona para a área de serviço do espanhol, vivendo as últimas horas de primeiro do ranking. Um silêncio denso e expressivo, na sala praticamente lotada (restam apenas 11 lugares vazios nas duas primeiras filas do cinema), revela o grau de expectativa do público que não pôde estar no All England Club, presencialmente. Naquela hora, uma certeza estava sendo costurada na mente daqueles amantes do esporte de Maria Esther Bueno e, mais recentemente, de Gustavo Kuerten: com exceção do juiz e dos boleiros, ninguém estava presenciando aquele momento histórico mais ‘dentro da quadra’ do que cada um daqueles 119 agraciados.
A platéia prende a respiração: a técnica de captação de imagens e os óculos de decodificação deixam aquele grupo com nítida impressão de estar a menos de 5 metros do tenista de 24 anos e 1,88 m. O golpe que projetou o petardo a 205 km por hora elevou o nível de adrenalina da platéia atenta e ainda impressionada com a ilusão visual de estar ao lado do sacador, como jamais qualquer um dos presentes estivera, por mais que tenha presenciado algumas partidas de ambos os tenistas em algum estádio concreto. A grama, baixinha e já maltratada pelas duas semanas de jogos sucessivos, estava ali, quase ao alcance dos pés, palpável; melhor: pisável. A virtualidade do canal usado para transmitir as imagens era não era mais uma “promessa” de impressão nítida de vizinhança das ações. Uma certeza contaminava a todos: Estávamos no camarote ‘do gargarejo’ de Wimbledon.
Até 12:44h aplausos e expressões de desapontamento pontuaram a marcha do sérvio sobre o “Miúra” da terra de Picasso, de 25 anos e um mês, exatamente. Uma caminhada difícil, mas segura, em direção ao título inédito para o sérvio, mas com o qual o falso canhoto já estava acostumado desde 2005, dando poucas chances aos adversários.
Os poucos momentos de distensão na platéia atenta tinham sido de estranhamento do vocabulário do comentarista ‘patrício’ que anunciava os pontos de maneira desconhecida na terra de Guga: ‘nada a 15’, ‘nada a 30’.
Ah, o jogo: Djokovic venceu por 3 sets a 1 (6/4, 6/1, 1/6 e 6/3). Nadal resumiu a partida de 2 horas e 28 minutos:
- Hoje foi impossível. Joguei o melhor que pude, mas Djoko estava incrível.
Ao comemorar o resultado, o sérvio lançou bolas, empunhaduras e raquetes para o público. Mais: ajoelhou na relva (como dizia o comentarista da terrinha), vacilou por dois segundos e comeu uma simbólica porção da ‘sagrada grama de Wimbledon’.
E entrou definitivamente para a História.
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