quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A baianice e a baianeza de João Ubaldo Ribeiro, no território comum a jornalistas e literatos

“Não há fatos, só interpretações.”
(Freiderich Nietzsche)

A literatura e o jornalismo respondem por um volume expressivo de toda a produção discursiva humana. Os objetivos perseguidos por ambos são múltiplos e cobrem extensa dimensão no campo dos gêneros vocacionados para a elaboração de relatos sob o regime determinado por um contrato de comunicação, pois cumprem certas especificidades que os singularizam.
O modelo de produção de sentidos adotado pelo jornalismo repousa sobre um trio básico no modo de organização de sua estrutura interna – informativo, opinativo e interpretativo – que batiza toda a sua malha retórica. Tão ampla é a tessitura, que se avizinha do fazer literário e com ele opera verdadeira comunhão, de tal profundidade, a ponto de as fronteiras se diluírem entre eles e se fundirem, formando uma mesma meada. É o caso específico da crônica, com seus humores e sabores diversos. Carregada de uma evidente concretude, por usar o imediato como referencial, todavia em núpcias com a perfumaria sutil, etérea da arte.
O presente exercício de percepção-análise-e-relato abandona a polaridade fictícia que alardeia o divórcio entre a arte literária e as escaramuças da “ciência do imediato”, marca mais notável do jornalismo. O resultado é um enlace matrimonial, onde a baianice e a baianeza do mais famoso cidadão da Ilha de Itaparica comanda o ritual, sob os acordes ora da galhofa, no limite do esculacho, ora da ironia, travestida da sedução, típica, por sua vez, dos rituais mambembes e malemolentes da mistura do assertivo poético e pleno de botões, da língua sofisticada de velho Camões, e o gingado estiloso da capoeira afrodescendente. Todavia, incisiva, politicamente falando.
Achegue-se mais, leitor, para ouvir o berimbau místico, de paletó-e-gravata, se disfarçando em cuíca hilária e apimentada, moleca, ao fugir do padrão do conhecido e esperado, provocando a desconstrução de um mantra. Tudo graças às malasartes de João Ubaldo Ribeiro.

Os discursos do quarto poder

O jornalismo tem se caracterizado pelo empenho na busca do novo. Pode-se, até, defini-lo, como a História do imediato, que não seria um erro. Alguns já o apelidaram de “história à queima roupa”. Há gente mal-humorada que já prefere vê-lo como uma erva daninha e o trata como nulidade que não o ter inventado seria um favor à humanidade. Mas tal “profecia” foi em vão e ele se projetou como protagonista da História; com alguma razão, nem sempre sustentada pela ética, infelizmente, é cognominado “quarto poder”.
A primeira informação acadêmica sobre jornalismo, que se conhece, é de 1806, quando, na Alemanha, a Universidade de Breslau ofereceu o primeiro curso sobre a “ciência da imprensa” ─ segundo José Marques de Melo, em sua obra de referência “A opinião no Jornalismo brasileiro” (1985, p.23).
Todavia, segundo mesmo autor, o novo segmento de investigações só ganharia corpo por volta da passagem do fim do século XIX para o XX. Assim, na Suiça, a Universidade de Besle sustentou uma programação de conferências de Karl Bucher sobre “ciências da imprensa”, 1984 a 1890. Em Paris, foi criada a Escola Superior de Jornalismo, em 1899, enquanto na Alemanha apenas no ano de 1916 surgia o primeiro Institut fur Zeitungskunde, na Universidade de Leipzig (MELO, idem, p.23).
Na América do Norte, por mais que a maioria dos autores afirme que ali teria surgido, durante a guerra interna (Norte versus Sul, de 1861 a 1865), a conhecida estrutura do relato noticioso denominado “Pirâmide invertida” ─ hoje dominante em todo o planeta ─, registra-se que o Washington College, na Virgínia, estimulava a criação de um programa de formação jornalística desde 1869; no entanto, as pesquisas sobre o jornalismo só ganharam fôlego na década de 1930.
No Brasil, a publicação pioneira sobre o jornalismo ganhou história nas mãos de Carlos Rizzini, em 1945, com a obra “O livro, o jornal e a tipografia no Brasil”; um ano depois foi criada a faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, seguida da Faculdade Nacional, na cidade do Rio de Janeiro, hoje, UFRJ, em 1947. No entanto, o padrão “piramidal” só foi adotado a partir de 1950, no Diário Carioca; veio trazido dos EUA para a capital do país por Pompeu de Souza, seu responsável direto. Sete anos depois, Carlos Rizzini publicou a obra “Hipólito da Costa e o Correio Brasiliense”, reconhecendo como “brazileiro” um jornal escrito em Londres, mas destinado ao país, com data de 1808.
O Jornalismo, então, pouco a pouco, ganha algumas definições que lhe permitem uma expressiva largueza de espaço para acolher vários gêneros de produção do discurso, ainda que seja confundido com a especificidade gráfica (é denominado “imprensa” pela grande maioria dos autores, até em nossos dias). O já mencionado estudioso Marques de Melo o define como “processo social que se articula a partir da relação entre organizações formais e coletividades, através de canais de difusão que asseguram a transmissão de informações em função de interesses e expectativas” (idem, p.10).
A amplitude do conceito o deixa destituído de singularidades, pois há inúmeros “processos sociais que se articulam entre organizações formais e coletividades” que recorrem a “canais de difusão” para transmitir “informações em função de interesses e expectativas” ─ basta pensar nos mais diversos sindicatos, com seus respectivos jornais ou boletins, nos diversos organismos como a OAB e as ONGs, além de outras entidades congêneres que são tão distantes do fazer jornalístico quanto os diários pessoais publicados na Internet.
Um dos autores mais tradicionais no campo do pensamento jornalístico assegura: “Jornalismo é antes de tudo informação de fatos atuais, correntes, que mereçam o interesse público, devidamente interpretados, porquanto informação, orientação e direção são atributos essenciais do periodismo” (BELTRÃO, 1960, p.61).
Por mais que se deva louvar a amplitude das funções jornalísticas (informar, orientar, interpretar, argumentar), quando Beltrão se refere ao periodismo como sinônimo de Jornalismo está recorrendo a uma designação saudosista demais para caber em um cenário contemporâneo. Emissoras de rádio e televisão, além da Internet (esta ele não chegou a conhecer, é verdade) não têm qualquer compromisso com a sistemática sequenciação de edições; hoje predomina a atualidade, o furo, sem submissão ao dead-line, presente apenas na produção de veículos de feitura gráfica. Aliás, por esta razão, a periodicidade nem pode mais ser apontada como um atributo do jornalismo, como assegurava Otto Groth (1883-1965), apesar dessa premissa continuar sendo repetida ao infinito por todos os autores que abordam a origem do jornalismo, sem qualquer visão analítica da defasagem em que embarcam.
Propõe-se, assim e aqui, um novo conceito: “Jornalismo é a construção de dedicados a objetos de suposto interesse de determinado público alvo”.

Os gêneros e o contrato de comunicação

O fazer jornalístico é constituído, em essência, de singularidades discursivas, tradicionalmente conhecidas como gêneros, que são categorizados em função da “finalidade do texto e da situação comunicativa em que são produzidos” (OLIVEIRA, 2007, p.81).
Pode-se afirmar que, nesse domínio discursivo ─ o jornalístico─, encontram-se basicamente três modos de organização do texto: o informativo (nota e notícia), o opinativo (editorial, crônica, artigo, entrevista, colunas e charges) e o interpretativo (reportagens, algumas entrevistas, colunas, artigos e crônicas). Além desses, se se considerar os gêneros horóscopo e tirinha, chegariam a cinco os modos de organização, incluindo-se o injuntivo e o narrativo respectivamente, conforme nomenclatura de Oliveira (2007, p.85). Para ele, os modos de organização dividem-se em seis categorias, definidas conforme a estrutura interna do texto: descritivo, narrativo, argumentativo (opinativo/interpretativo), expositivo (informativo), injuntivo e enunciativo.
Essa divisão proposta para o domínio jornalístico, entretanto, é bastante generalista, uma vez que, num gênero, como a crônica, por exemplo, ora pode-se narrar, descrever, ora, argumentar; na notícia, além da informação, propriamente dita, também há a narração. Assim, é necessário analisar caso a caso, a fim de determinar qual modo é predominante. Da mesma forma, os gêneros podem tramitar em mais de um domínio, como as crônicas, campo de produção do autor baiano, aqui estudado. Primeiramente, originária do domínio discursivo jornalístico, extrapolou esse domínio, transitando para o universo literário.
Verifica-se, portanto, que os textos publicados nos jornais pertencem a gêneros variados, que ora expressam dados “objetivos” (informativos), ora estão na esfera dos discursos de cunho persuasivo (opinativo, argumentativo), ora restringem-se à elaboração de sentido acentuadamente pessoal sobre dados da realidade externa concreta (interpretativos).
Há quem diga que a função da linguagem predominante no domínio discursivo jornalístico é a referencial, presente nas notícias, considerada marca característica desse veículo, por excelência, informativo. Contudo, basta fazer um pequeno levantamento ─ reportagens, crônicas, editoriais, colunas e artigos ─ para verificar a grande gama de textos oriundos da esfera argumentativa, que correspondem ao modo de organização do discurso mais atuante em nossa sociedade. Koch (1996, p.23) vai além, ao considerar “a argumentação como a atividade estruturante de todo e qualquer discurso”, uma vez que, a todo momento, argumenta-se para justificar um ponto de vista, seja por intermédio de uma desculpa, uma negação de um pedido, seja fazendo valer direitos, criticando, ou ainda, em circunstâncias noticiosas, tentando demonstrar que o ponto de vista adotado é o verdadeiro etc. Nesse sentido, a função da linguagem mais atuante na sociedade é a apelativa, e o jornal não foge à regra, visto a quantidade de gêneros dos quais ela faz parte.
No caso da crônica de João Ubaldo, objeto deste estudo, cuja característica reivindicada nos bancos escolares é a fugacidade do tema, percebe-se a argumentação, o comentário, como processo constitutivo do relato, que narra a história do personagem Zecamunista, inventor de uma nova ideologia a ser aplicada no Brasil. Em duas de suas crônicas, publicadas em dois domingos de outubro seguidos, o autor explora a temática corrupção que, apesar estar estampada em todos os jornais diariamente, não pode ser considerado assunto fugaz, uma vez que é tão velho quanto a própria história do país ─ e para não sermos injustos, de praticamente todas as nações.
Retomando a questão da argumentação e em virtude de sua proeminência na construção discursiva, torna-se muito importante seu ensino na escola, desde as séries iniciais. De maneira geral, o estudo da construção do texto nos bancos escolares centra-se em três modos de organização: descrição, narração e argumentação. Essa divisão, apesar de didática, não traduz a realidade da escrita ─ os textos trazem em seu bojo mais de um modo de estruturação, havendo, na verdade, a predominância de um deles. Em relação ao gênero, este sim não muda, pois a sua finalidade e a situação comunicativa, critérios extratextuais, permanecem.
Além das especificidades acima, um discurso também deve estar em consonância com o contrato de comunicação (CHARAUDEAU, 2008) no qual está inserido, isto é, tem de atender a determinadas indicações, como a formatação do texto, a variante linguística e o propósito comunicativo, por exemplo. Os gêneros petição e receita, só para ilustrar, obedecem a estruturas específicas, com vocabulário funcional e formulação da sintaxe frasal peculiares, de tal forma que o sucesso na comunicação depende da adequação a esses princípios. Os atos de linguagem, portanto, devem se sujeitar às convenções exigidas pelos gêneros, o que implica não esperar a leitura de um jornal como se fosse um romance ficcional. Mesmo que este seja redigido no formato daquele, ainda assim, ele continuaria a pertencer ao gênero romance, uma vez que só a formatação não define o gênero textual.
No ensino da dissertação, por exemplo, costuma-se dividi-la em duas modalidades, argumentativa e expositiva. Apesar de justificável essa subdivisão, ao se expor um fato, dificilmente existe neutralidade, sempre há a possibilidade de captar a intenção do autor, seja pelos procedimentos de referenciação ─ caracterizados pela atividade que consiste na reconstrução dos objetos do discurso ─, seja pela escolha lexical. A diferença reside no fato de, na argumentação, o ponto de vista do autor estar explícito, sendo função do autor persuadir o leitor, visando sua adesão ao posicionamento defendido. Neste caso, além de acionar seu conhecimento linguístico (primeira barreira, entendimento das palavras), tem o leitor de acionar seu conhecimento de mundo para compreender os argumentos postos pelo autor, seja explícita ou implicitamente. Perceber as estratégias discursivas, isto é, a forma como os argumentos se desdobram, é responsabilidade do leitor, da sua perspicácia em captar os sentidos que compõem as entrelinhas.
Voltando à plataforma discursiva do jornalismo impresso, pode-se assegurar que o “dedo interpretativo” das individualidades intervenientes no processo editorial aparece com evidência e constância severas na distribuição de ilustrações, no uso da cor seletivamente, na dimensão dos títulos, na escalação das matérias em determinados lugares, ora mais nobres, ora mais de sombra, em cada página, a começar pela capa. Tais decisões estratégicas, aparentemente cândidas e distantes da manipulação, são verdadeiros discursos intencionalíssimos e carregados da retórica, muitas vezes as mais inconfessáveis, eticamente falando, “transbordando num espaço multissígnico e multimidiático” (SIMÕES, 2009, p.54).
O jornal, como ambiente de múltiplos códigos, exige do leitor interpretação que se realiza na constante contraposição do signo verbal e do não verbal. Em virtude da complexidade de informações e de temas variados, o leitor está exposto a diferentes áreas do saber que, de modo transdisciplinar, demandam habilidade de leitura para captar o dito, o não-dito e o imagético. Tanto as marcas expressivas (icônicas), quanto as impressivas ou indiciais (idem, p.59), presentes na mescla dos signos verbais e não verbais, despertam a imaginação do leitor, forjando sua interpretação. Portanto, reafirmamos que não só a imagem, mas a própria diagramação, com tudo que lhe é inerente, tem participação ativa no construto do texto, compondo sentido junto às palavras que, por sua vez, também têm sua contraparte imagética, na medida em que se fundam na imagem mental de algo (idem, p.68).
Um caso recente e exemplar é a edição dia 25 de outubro do presente ano, do competente O Globo. Reconhecido por não “digerir” os governos de cunho esquerdista (o termo costuma ser excomungado, mas aqui é pertinente, espera-se demonstrar, pelas evidências discursivas), de âmbito regional ou federal. O caso Leonel Brizola foi tão notório que a Justiça, fustigada por anos a fio, fez a conhecida ‘intervenção fatal’: no dia 15/3/1994, um Cid Moreira, na condição de constrangido, leu burocraticamente: “Todos sabem que eu, Leonel Bizola, só posso ocupar espaço na Globo quando amparado pela Justiça”. Foram apenas 440 palavras que o poder judiciário arbitrou bastar em compensação pelos anos de alegorias, metáforas e ataques frontais contra a figura maior do Estado do Rio, eleito democraticamente, por duas vezes.
No veículo impresso da família Marinho, o embate contra partidos e personalidades continua, sem trégua. Alguém já disse (Lula) que nossos jornais ‘agem como partidos políticos’ – ninguém gostou, claro; seria aético. Todavia, o grande matutino carioca trata “diagramaticamente” os personagens com os quais não simpatiza ─ para usar uma expressão ingênua ─ com uma competência ‘profissional’. No auge de uma denúncia de corrupção, envolvendo o ministro dos esportes, Orlando Silva, sabidamente herdado do governo Lula, a manchete (não uma chamadazinha qualquer) daquele dia era “Delator articula com 7 ONGs novas denúncias no Esporte”. O subtítulo ou “linha fina”, no jargão das redações, era “João Dias entrega à PF gravações de conversas com servidores da pasta”. Então, do nada, aparece, imenso, o dedo “ideológico”: antes de qualquer linha informativa sobre o evento anunciado, uma foto colorida de 24 por 15 centímetros, oito vezes maior que o texto, traz a imagem do cidadão Lula e da presidenta Dilma, sorridentes e portando cocares indígenas azuis. É bem verdade que a foto estava “justificada” por uma legenda quase invisível, mas devidamente “envenenada” pela alcunha que a inicia, maiúscula: “CACIQUES: A presidente Dilma e o ex-presidente Lula participam da inauguração da ponte Rio Negro ─ uma obra de R$1.099 bilhão, no Amazonas”.
Não satisfeitos, os artífices do estranho “mix” estético ideológico trazem na página 4, inteira, a manchete: “Dilma: Orlando não resistiria à nova denúncia”. Novamente numa foto de 19 por 11,5cm, em cor e registrando os mesmos cocares anis, estão lá as duas personalidades “indigestas” para o jornal que governam e governaram o país nos últimos oito anos e quase dez meses. A matéria textual ocupa praticamente a mesma extensão da foto irônica. Neste caso, pelo menos na região de baixa visualidade da página, há uma pequena foto da tal ponte “pretexto”, assegurando que ela “liga Manaus ao município de Iranduba”. A matéria só fala do caso do ministro; em verdade quase isso, pois das 161 linhas, sem contar título, subtítulo e fotos, somente 7 falam da ponte...
Ainda há dúvida de que a diagramação ou “arte”, como alguns eufemisticamente a nomeiam, seja um dos discursos a serviço da retórica jornalística?

Análise do processo irônico/argumentativo na crônica “Novos Horizontes Ideológicos”

A ironia, enquanto estratégia discursiva, faz parte de uma manobra do escritor de, por intermédio do dito, passar a mensagem oposta. Pensando na máxima de Grice, “não diga aquilo que acredita ser falso” (Koch, 1996, p.153), a ironia, analisada explicitamente, seria uma violação a esse preceito; contudo, como a leitura se realiza amplamente na esfera do não-dito, a ironia não foge a essa indicação.
O texto do João Ubaldo, em crônicas publicadas no diário da família Marinho, tem como característica a ironia que resvala para a galhofa. É uma produção argumentativa, bem fundamentada e que invade o cômico, pela forma como é redigida. Vale ressaltar que essa forma de redação não é escrita fácil para aqueles pouco afeitos ao exercício do ato gráfico ou com pouco contato com ele, como a maioria do alunado brasileiro. Por intermédio da ironia, Ubaldo procura revelar a falsidade de sua tese, mostrando, pelo caminho do absurdo, seu ponto de vista. Por intermédio dessa estratégia, busca a anuência de seu leitor, uma vez que assumindo o discurso contrário, no caso ─ a favor da corrupção ─ ,o desconstitui.
A ironia pode ter níveis diversos, sendo mais exposta ou menos. No discurso oral, tem-se na entonação grande aliada; mas, no texto escrito, o leitor tem de perceber o contrasenso do explícito para atingir o verdadeiro objetivo do texto.
Ao analisar essa crônica, devemos ter em mente o momento de sua enunciação, de modo a captar as informações que emergem da superfície textual, por intermédio das relações lógicas, e as que emergem do discurso e são subjetivamente reconstruídas pelo leitor. Neste último caso, o leitor tem de perceber a intencionalidade do autor na sua crítica a padrões recorrentes na nossa sociedade, a corrupção, a fim de desvendar sua fina ironia, que chega a ser mordaz em alguns momentos.
A ironia, portanto, é alçada a categoria de especial relevância, na medida em que se constitui sobre o explícito e torna-se recurso argumentativo ao ser compartilhada sob a forma de subentendido. Retoricamente, o foco do discurso está centrado exatamente nas entrelinhas, no implícito, funcionando como estratégia de defesa de um ponto de vista, de modo a convencer o leitor, de forma subliminar, da verdade do que está sendo dito.
O autor, ao misturar relato com comentário, cria uma atmosfera por intermédio da história, que lhe permite opinar mais livremente, além de servir de contexto para a argumentação a respeito da epidemia corruptiva que assola o Brasil.
Ele emprega a sigla IPCA, porém não a explicita de imediato e cria certa atmosfera de mistério, deixando em suspenso o rumo de sua argumentação, que, a princípio, se confrontada com o título, “Novos horizontes ideológicos”, poderia ser mais uma argumentação, entre tantas outras, no campo científico e filosófico. Contudo, quem conhece o autor e seu estilo fica na expectativa da subversão, que começa a ser anunciada no sintagma “realidade nacional” e na frase “encará-la sob nova perspectiva (...) abrir novos horizontes ideológicos” e não para mais. Ou seja, a tese defendida pelo autor a respeito da corrupção torna-se semi-ativa no discurso, uma vez que a todo momento o autor reitera o roubo como esquema predominante na sociedade brasileira.
Há forte ironia, quando afirma que “nossos problemas precisavam de soluções originais”, “chave para uma nova era de paz e prosperidade”. Ao colocar como fundamento de sua tese a “oportunidade para todos”, deixa subentendido o que, de fato constituiria um bom governo, apesar de, no contexto da crônica, ser uma proposta irônica. Ao mesmo tempo, essa expressão vai ao encontro do personagem Zecamunista, relator da proposta, cujo nome é um neologismo, que justifica sua própria tese.
O sintagma “soluções originais” ao ser confrontado com “bases ideológicas que hoje já mais ou menos norteiam as ações dos nossos governantes”, tem o ar de um paradoxo, no entanto revela a perenidade das práticas de nosso governo: “roupagem nova para velhas atitudes”.
No segundo parágrafo, João Ubaldo critica o linguajar dos políticos, quando afirma que “Zecamunista usa palavras de que nunca ninguém ouviu falar”. E continua seu tom de crítica quando assegura que o IPCA é “coisa existente em centros adiantados”, isto é, nos altos escalões do governo, com localização em grandes centros urbanos.
Depois ele explora o mistério sobre a sigla. Neste parágrafo, traz à tona a ignorância do povo relativa a essa sigla, fazendo a seguinte pergunta: “Ainda que mal se perguntasse e bem se perdoasse a ignorância, em que consiste esse famoso IPCA? Qual a função dele, nos lugares onde já existe?”. O modo do verbo utilizado na primeira pergunta reforça o conteúdo proposicional do enunciado, uma vez que põe o fato como suposição a transparecer seu ponto de vista, ao passo que se tivesse utilizado o presente, “Ainda que mal lhe pergunte” teria reforçado a certeza em relação com o que está enunciando, conforme se observa na segunda pergunta. O emparelhamento de duas indagações com modos verbais diferentes compõem um estilo de “morde e assopra”, em que ora é mais veemente e ora atenua suas alfinetadas, mesmo que de forma tênue, como neste caso, por intermédio de variação morfológica do verbo. Além disso, o uso do chavão “perdoar a ignorância” traz em suas entrelinhas a máxima que circula no imaginário da sociedade brasileira, a de que “o povão é burro”, transparecendo uma forma de escrever em que a ironia não se concentra em alguns pontos, mas aparece “salpicada” ao longo de toda sua exposição.
O mote de seus argumentos é a corrupção cujo raio de influência exige que seja transformada em instituto. A sigla funciona como índice do seu significado cômico/irônico: “Instituto Político de Corrupção Aplicada”, demonstrando, na fala do Zecamunista, a criatividade de sua nomenclatura, afirmando tratar-se de um “pioneirismo nosso”.
No quarto bloco, Ubaldo retoma a conversação, após explicar a referida sigla, por intermédio da estrutura clivada, “Como se sabe”, criando a pressuposição de que o que será dito é compartilhado por todos. Em seguida, com a clareza do cinismo que quer evidenciar, ele não mede as palavras: “rouba-se muito no Brasil e a maior parte dos governantes vê o poder como caminho aberto para se fazer na vida” (itálico nosso). Então, e de modo enfático, o autor escancara a ironia do estado “democratizante” ao iniciar sua frase com um conectivo ratificador: “Aliás, é como todo mundo, não só os governantes, vê o poder. Estranho é o sujeito que vai eleito ou nomeado alguma coisa não prosperar economicamente”. Ou seja, o que deveria ser anormal é tomado como padrão e, o que é pior, o povo legitima essa prática.
O sexto parágrafo é provocado por uma suposta contestação, ironicamente retórica:
“─ Mas, Zeca, você sempre disse que é contra a corrupção.
─ Disse e sou, mas isso é no terreno filosófico.”
No terreno prático, ele é a favor da corrupção, desde que se inclua o povo no esquema corruptivo. Em “A corrupção só é um problema devido à exclusão”. O advérbio “só” funciona como modalizador, fornecendo um tom sarcástico ao que deveria ser, de fato, um problema.
Em seguida João Ubaldo não deixa pedra sobre pedra no intento de produzir um discurso politicamente incorreto, mas subliminarmente usual nos palanques dos candidatos a políticos: “Com o IPCA a corrupção vai ficar ao alcance de todos”. E, em seguida, por intermédio do modalizador “claro”, faz uma crítica contundente aos nossos governantes, adjetivando-os de forma escancarada: “Claro, não se vai esperar que o corrupto de um pequeno município atinja os mesmos patamares de um juiz safado, um deputado ladrão, um senador salafrário ou um ministro vigarista”.
No bloco seguinte (sétimo), o baiano de Itaparica dá uma estocada na própria polícia federal: poderia continuar a domesticar e a prender, mas a regra de “prender na segunda e soltar na terça” tinha de valer para qualquer corrupto, sem distinção. Nisso ele demonstrava “caráter”.
De pronto, ele desloca para a boca do personagem outra inventiva: “Aliás, agora mesmo me veio outra idéia inovadora... Agora todo mundo tem estatuto e, portanto, vamos criar estatuto do corrupto...” Não resiste e apela para o sarcasmo explícito ─ “um bom estatuto faz milagres... sou a favor de estatuto para tudo, Estatuto do Carnaval, Estatuto do Corno, Estatuto dos Fanhos e assim por diante”. E, novamente, volta à ironia, fechando o parágrafo: “A Prática do estatuto é uma abordagem que ainda tem a vantagem de já estar sendo aplicada no Brasil, onde todo dia aparece estatuto novo”.

Perspectiva finalizadora

Então, fechando o discurso irônico-sarcático, nosso notável escritor esbanja coerência: “O bom comunista, como ele, sabe aproveitar circunstâncias adversas em benefício de suas causas.” E, pelo novo estatuto, “os pobres e semipobres da ilha adquirirão novo status político-econômico, mesmo porque não será esquecido o estabelecimento criterioso de mecanismos para permitir o ingresso deles no multifacetado e fascinante mundo da corrupção”.
Os adjetivos “criterioso, multifacetado e fascinante”, ironicamente revelam as artimanhas da corrupção, que se concretizam nos substantivos “financiamento, treinamento e estágio”, ao dizer: “Além de financiamento, treinamento pelo IPCA e estágio em alguns dos órgãos públicos mais notoriamente corruptos nos três poderes”. Aqui, o autor, por intermédio de desdobramentos cognitivo-discursivos, fecha o cerco de sua argumentação ao declarar abertamente sua posição sobre os três poderes, mas não o faz sem antes contar com a anuência de seus leitores, ao utilizar o advérbio “notoriamente”.
Ubaldo se empolga e critica os programas “bolsa”, propondo a pouco sutil “bolsa corrupção” que serve para aqueles que não são capazes de se sustentar, carregando na tintura ideológica, projetando o absurdo de sua tese.
Ostensivamente embalado pelos crivos da ironia, da crítica e do sarcasmo, João Ubaldo Ribeiro, cidadão mais projetado de Itaparica, rival em tudo do decantado e já falecido ACM, cede espaço ao personagem-tema, Zecamunista, em um exercício de suicídio ético: ─ “Descobri a filosofia desse governo. Tem como modos de ação o bolsismo e o estatutismo. Cabe a nós, proletários, usar os dois em nosso benefício.”
E a cultura popular continua assegurando, com nítida unanimidade: o baiano pode ser preguiçoso, mas Nosso Zecamunista não reza por esse manual litúrgico. Evidentemente. Ele está encharcado no dendê, vencido e corrosivo da fornicação como projeto político. Faz escola.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O ‘esporte’ do apedrejamento e os sem qualquer esportividade

A notória fragilidade humana se manifesta nos momentos mais desumanos – teria dito Albert Einstein quando esteve no Brasil, no século passado. As palavras não foram estas; mas a ideia, sim. Pois agora se pode dizer o mesmo no mesmíssimo país ‘caricaturizado’ como terra dos ‘bonzinhos’ (“Brasileiro é bonzinho”, dizia o velho gancho da comédia antiga).
Bastou ir ao espaço a notícia de que o ex-presidente Luiz Inácio estava com um câncer para um número expressivo de cidadãos ‘bonzinhos’ cobrarem que o Lula fosse se cuidar em um hospital qualquer; a maioria exigia que fosse para uma fila do SUS ou algo que o valha.
Engraçado, melhor, trágico é que de Tancredo Neves, Juscelino, Jânio, assim como do ex-vice presidente José Alencar nem do Itamar Franco – para mencionar dois casos bem recentes – não se ouviu tanta ‘preocupação’ com a saúde dos homens públicos. O próprio Paulo Salim Maluf escapou do conselho, quando alegou estar doente (sintomas digestivos) para escapar de um “estado prisional”, há pouco mais de dois anos, e foi surpreendido tomando cerveja e traçando lingüiça de porco em Campos do Jordão, dois dias depois de solto. Não é por nada, não, mas o ‘imorrível’ político tem sido procurado, digamos que “policialescamente”, por mais de 100 nações. Claro, no país dos bonzinhos ele virou um equilibrista nas entrelinhas das leis e das vontades judiciárias.
No entanto, voltando ao caso do “paraíba, analfabeto e sapo barbudo” que pôde buscar atendimento em hospital de referência, a tchurma não quis perdoar...Será por que, em seu governo, eleito democraticamente - também é bom lembrar - ele exagerou ao criar mais de um milhão e meio de vagas em universidades públicas? E, agora, alguns desavisados do feito e aproveitadores dele querem se vingar? Ou seria pelo fato de, em seu governo, as escolas federais terem alcançado na pesquisa do conhecido organismo internacional PIZA (alguém, por obséquio, poderia ‘desenhar”, para os analfabetos funcionais, que não se trata daquele pratinho calórico da terra da bota?).
Há, ainda, a hipótese do enfurecimento naturalíssimo, claro, de alguns intelectuais e outros boçais, mesmo, que ainda não aceitam que um cara, sem diploma superior, recorrendo só a nove dedos das mãos tenha propiciado a revolução de incluir na classe média 27 milhões que eram só “zeros à direita e à esquerda”, mercadologicamente falando, feito reconhecido internacionalmente. E, o mais incrível, é que os mais desvairados adversários locais reconhecem. Também existe a hipótese de que o tal de Lula é responsável por esse monte palhaços de antiga baixa classe média tenha trocado suas bicicletas por carros que estão congestionando as ruas e estradas? Isso não se faz com nós outros que antes desfilávamos mais tranqüilamente…
- Então, esse irresponsável tem que ficar numa fila do SUS para aprender sofrer na pele os efeitos do ódio de quem ele está incomodando. É o que se pode “ler”, mesmo sem o palpite do arcaico e prosaico Sr. Freud. Ele também incomodou quando começou a dar voz e vez ao inconsciente, sufocado e castrado, até então, pela elite científica do início do século XX; ele também foi renegado, vaiado e aconselhado a se virar, pela aristocracia, com um câncer na boca.
Evidentemente, os dois barbudos cometeram erros. Claramente, ambos carregavam defeitos. Nitidamente é um direito de cada individualidade gostar ou não, seguir ou, até, aplaudir ou não os feitos ou ideias desses malucos que se recusam a repetir os modelitos que estavam dando tão certo...Transparente. O triste, humanamente falando, é que o “analfabeto social” só sabe se expressar para puxar a corda, uterina e ensebada, do ressentimento e da mais deslavada ignorância.
Um dos mais conceituados nomes do pensamento político e jornalístico do país, Clóvis Rossi, elegantemente falou de um “brutal surto de preconceito, de origem social”, sugerindo que o paraíbazinho desdedado “fique que no seu devido lugar”. A também colunista da Folha de S.Paulo, Barbara Gancia, afirmou que enxergou ali a reação de quem não tolera “essa gente que lota os aeroportos e não quer trabalhar como empregada doméstica”. Ambos foram na mosca, sublinhando a intolerância e o preconceito, além do velho complexo de “filho único” que agüenta ouvir um ‘não’, mesmo quando se trata de coisa tão séria quanto a vida. Aliás, reações geraram na Folha.com mais de 200 mil comentários. (Folha de S.Paulo, 6/11/2011, p.A8) interatividade democrática é , de um lado, um avanço do jornalismo e, de outro, uma porta direta.