terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Um dia depois do outro

Um dos refrões mais repercutidos nos meios de comunicação é relativo aos impostos que pagamos, todos, no país invadido por Cabral há quase 511 anos. A carga pesada é um fato, não uma interpretação ideologizada.

No entanto, o jornalismo, como um todo, sempre deu a entender ou apontava, com todos os dedos da mão, que o último governo é que era o grande e único responsável pela calamidade. Agitavam essa bandeira da verdade incontestável os editoriais e os articulistas, entre eles praticamente todos os economistas midiáticos que deveriam ser bons leitores de números/estatísticas.

Claro que uma unanimidade com tal consistência de origem e regada diariamente pelos veículos de todos os tamanhos e formatos gerou a certeza de que se tratava de uma sólida verdade. Você também não estava seguro disso?

Digamos que esse ‘estado de convencimento’ se instalou de modo natural nas mentes e nos corações de todos os que tinham ressalvas contra o governo Lula. Mais do que isso, foi tão bem trabalhada a “verdade” que se transformou em pensamento único, pois até em cabeças mais independentes e outras favoráveis àquele governo não se levantavam dúvidas quanto à culpabilidade atribuída com exclusividade a ele. Certo? Errado.

Imagino que foi uma surpresa para todos, a edição do dia 21 de janeiro de O Globo (p.20), por exemplo: lá consta que o governo de Fernando Henrique Cardoso é que promoveu o maior crescimento da arrecadação de impostos – 60%, contra 54% nos dois mandatos de Lula. Claro, não foi nenhuma manchete, título, subtítulo ou, mesmo, entretítulozinho.

Conhecendo a ‘linha’ do jornal citado, essas quantificações não aparecem junto a elogios. Estão
quase escondidas em um quadro cheio de algarismos, anexado a uma reportagem de quase uma página, cujo título reafirma a batida mensagem de que o governo do operário é que deitou e rolou nos impostos: “Arrecadação de impostos bateu recorde em 2010: R$ 805 bilhões”. E, assim, ‘de passagem’, no final do segundo parágrafo da matéria, duas singelas linhas, quase envergonhadas, sussurram: “Foi o mesmo caminho do governo FHC, quando a arrecadação federal subiu até mais: 60 %, ou 8,5% ao ano.”

A questão aqui, como em todos os textos postados neste blog, não é o aspecto econômico, nem mesmo o político. O que pretende mover este espaço, pelo menos minimamente, é o trato jornalístico que parece estar por trás das matérias; melhor, acima delas, pois as determinam como “produtoras de sentido” que são, em coerência com o essencial da vocação do próprio jornalismo.

Neste caso específico, pode-se afirmar que passamos anos bebendo em fontes contaminadas pela “torcida”. Tal atitude era mais ostensiva ao cuidar de destacar apenas os feitos negativos, pois essa velha ‘coreografia’ de torcida tem a surrada desculpa de que o público só gosta de coisa que fede...Não é verdade; veja-se o que alimenta as pautas de esportes, de cultura, de ciências em geral.

Vê-se que não é falso o desabafo de que alguns meios de comunicação “têm agido como verdadeiros partidos políticos.” Com relação ao tema, nem cabe a restrição de que foram só ‘alguns’; foram praticamente todos, os clássicos 99%. Tratamento idêntico aconteceu recentemente com o famoso exame (PISA) a que estudantes de 15 anos, de 61 nações, foram submetidos. Nossa ‘imprensa’ só deu destaque ao aspecto negativo, verdade, pois nós ficamos entre os cinqüenta e poucos de menor desempenho; quase não se divulgou que fomos o terceiro país que mais progrediu nos últimos anos (basta dizer que fomos os últimos colocados na avaliação anterior, levada a efeito no sexto ano do governo FHC). Mais: se considerados apenas os estudantes de escolas federais, ficamos em sétimo lugar, deixando para trás França, Inglaterra, Itália, Japão, Estados Unidos etc.

Todavia, segundo as cabeças do nosso jornalismo, isso não vende jornais. Será? E se fosse, essa premissa poderia ser mais importante que o compromisso com a verdade? Onde está o princípio de se observar e relatar os fatos sob os enfoques que possam alcançar suas reais dimensões? É o caso de se perguntar: as lições do caso Escola Base ainda não foram suficientes? Ou já estão esquecidas?

Atitudes partidárias assim só fazem mal, ao público e à imagem do jornalismo, pois a história é implacável com a mentira e as meias verdades. Por isso nada melhor que as revelações de um dia depois do outro.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Formadores de opinião?

Ele assina José R. Cantanhede e a afirmação não deixa dúvidas: “A obrigação dos jornais e das tvs é informar e só, nada mais do que isso. Esse negócio de dizer como deve ser, ou como nós, a população, devemos fazer não cabe a esses pseudoformadores de opinião. O dever da mídia – jornais, revistas e noticiários da tv - é informar os fatos, os acontecimentos, com total isenção. Para quem lê, ouve ou vê tire e tome suas próprias conclusões.” (Imprensa, jan/fev. p. 6)

Como se vê, a discussão sobre a adequação do espaço jornalístico para oferecer opinião e interpretação tem enfrentado resistências. Todavia há uma torcida mais amigável; na mesma publicação, edição e página, Domingas D. de Lemos lamenta a saída do Mainardi da Veja: “Que pena... sou sua leitora e admiradora de sua disposição e coragem, com as quais por tanto tempo enfrentou e venceu tantas perseguições. Sinto-me em prejuízo com a redução de suas tão ricas e esclarecedoras informações.” Possivelmente ela não tomou consciência de que o colunista trabalhava mais com opinião e interpretação que com informações propriamente ditas, mas o desabafo é significativo.

Na última edição do programa ‘Larry King Live’, o presidente B. Obama ofereceu uma terceira posição, sem esgotar outras possibilidades, ao agradecer o titular pelos serviços prestados: “Obrigado por estes 25 anos de conversas com os americanos. Dizem que ele só faz perguntas, mas as respostas que obtém nos surpreendem, nos informam e nos abrem os olhos.” Todo mundo sabe que perguntas podem provocar dados objetivos, sensações, interpretações e opiniões; é uma das riquezas das entrevistas, mesmo quando aplicadas como ‘espetáculos da fala’, conhecidos como talk shows.

Fica evidente que, independente de quem manifeste sua opinião, o cardápio dos meios jornalísticos tem produzido ‘odores’ variados. E eles não são apreciados de modo homogêneo, aliás, como os cheiros, de modo geral, não o são. Por isso o tema volta neste espaço.
Felizmente não há um dogma papal, acadêmico, espiritual ou ético para solucionar a questão. Caso houvesse, deveria ser discutido. O que se pode perceber é que os meios de comunicação, em si, têm sido pauta de discussão também entre os não-jornalistas. O que é um belo trunfo para a categoria, pois já dizia a sabedoria popular mineira: “ame ou odeie, pois a indiferença mata”.

A base de uma discussão sobre o jornalismo deve ser o conceito que se adote relativamente a ele. Aqui se trabalha com a perspectiva de que o fazer jornalístico é um:

“Processo de elaboração de sentidos sobre eventos, temas e personagens que possam interessar ao público.”

Tendo essa definição como referência, torna-se patente a possibilidade de atender aos objetos do desejo (dos interesses) mencionados acima pelos leitores citados. Assim, os eventos devem ser tratados com o máximo de isenção possível, sim; mas aqui o Cantanhede vai se decepcionar: a isenção total é um produto que está fora do alcance humano na produção de sentidos, de relatos. Por outro lado, os temas podem ser reconstituídos – também com a limitação da objetividade humana – mas podem merecer interpretações e opiniões; desde que as opiniões fiquem nos espaços reservados para tal (editoriais, artigos, crônicas, colunas, charges) e as interpretações sejam oferecidas em depoimentos de fontes e de personagens, o que é característico de reportagens, entrevistas e demais matérias de opinião.

Assim, sem querer ser didática e já sendo, a notícia tem como objeto os acontecimentos – onde cabe cobrar isenção. A reportagem se dedica a assuntos e personagens – nela cabem pontos de vista diferenciados, interpretações e opiniões, desde que não emitidos pelo jornalista. Já editoriais, artigos, crônicas, colunas e charges trabalham com as três ‘substâncias’ questionadas algumas pelos leitores: informação, interpretação, opinião.

Jornais, portanto, precisam trazer um serviço mais amplo que só a opinião, mais que a simples informação, mais que a pura interpretação. O jornalismo é como um cardápio, constituído de ofertas diversas, cabendo ao consumidor eleger o que deseja degustar. Simples assim.

Para encerrar, por ora, a conversa, fiquemos com uma expressão mais sábia do que os diplomas que não tem revela nas palavras do ex-presidente Lula, em entrevista a blogueiros, no dia 24 de novembro:

- Sou o resultado da liberdade de imprensa no Brasil. (Os que se acham formadores de opinião) se enganam; o povo não é mais massa de manobra; ele está mais inteligente...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Politicamente correto?

Nos primeiros dias do novo ano os jornais divulgaram que a editora responsável pela publicação dos livros de Mark Twain, nos EUA, vai retirar a palavra nigger dos ramances dele. Como o termo é tido como pejorativo, será substituído por ‘escravo’ nas centenas de vezes em que aparece nas obras, editadas pela NewSouth Books.

É bom observar que muitas escolas – numa atitude politicamente correta - já não adotam, há décadas, as publicações do clássico escritor, em razão dessa linguagem politicamente incorreta. (O Globo, 06/01/2011, p. B12)

No Brasil, por muito menos, os jornais caíram de pau, em novembro último, sobre uma solicitação inicial de um organismo subordinado ao MEC que sugeriu fosse incluída uma ‘nota explicativa’ em texto de Monteiro Lobato – também um clássico – que emprega uma expressão muito mais racista que a do Twain. Ao narrar um possível ataque de animais selvagens, o velho Lobato dispara, sugerindo a clara inferioridade dos negros:

- Não vai escapar nem tia Nastácia, que tem carne preta...

Curiosamente os nossos intelectuais, jornalistas e agregados reagiram indignados. Todos. Acusavam o governo de estar querendo censurar o clássico Monteiro. Em verdade, quando se soube da sugestão dada já se sabia que o Ministro havia vetado a iniciativa; mesmo assim não se perdoou a já sepultada proposta.

"Nota explicativa" seria mesmo censura? Não valeria a pena alertar os jovens leitores de que ali o "clássico" M. Lobato estava reproduzindo um preconceito da época dele e isso é coisa feia?

Siga o raciocínio:

a) Nos dois casos (Lobato e Twain) os autores são mesmo clássicos infanto-juvenis.
b) Nos dois casos os autores se expressam com fervor racista – não se pode negar.
c) Em ambas as situações os textos vão ajudar a formar a cabeça da juventude.
d) Ora, como se sabe, "é de pequenino que se torce o pepino".
e) Também, como é sabido, jovens e adultos continuam tendo atitudes segregacionistas, como de racismo, de machismo e de homofobismo.
f) Vale a pena liberar para os pequenos essas sementes racistas, se na infância é que são plantados os valores básicos do futuro cidadão?

O mais lamentável de tudo é que os veículos de comunicação deram espaço nobre
apenas para os adversários da tal ‘censura’. Depois a sociedade e os próprios meios de comunicação ficam espantados com os comportamentos de racismo, machismo e homofobismo.

Por mais que a Constituição diga que é abominável a segregação de qualquer natureza, os negros continuam com acesso restrito à universidade e aos melhores postos nas empresas; as mulheres continuam a receber salários inferiores aos dos homens e permanecem tratadas a pancada; os homossexuais continuam a ser perseguidos e mortos (só no Brasil, cerca de 200 são executados por ano).

Qualquer dia a turba vai eleger candidatos cujas bandeiras não serão mais "bandido bom é bandido morto". Para usar um slogan de um deputado recém-eleito pelos paulistas com um tsunami votos, "Vote em Tiririca, pior que está não fica".

Tudo é possível, se não se faz o possível para alcançar resultados possíveis. Preconceitos vêm pelas beiradas, desde a infância, e ali precisam ser ceifados. Ou fica muito difícil reverter. Então as pautas dos jornais continuarão expondo o lixo preconceituoso das peçonhas que criamos – preocupadíssimos com os intocáveis "clássicos".

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Boas-vindas!

Bem-vindo a este espaço.

Ele se propõe a pensar o jornalismo nosso de cada dia. Assim,descolado. Também aquele que a ‘academia’ pensa, de vez em quando;pois ninguém é de ferro, como diria Pedro Bial, para ficar só com esse enfoque.

Minimalista, aqui, no sentido de focar até unidades mínimas de sentido, desde que integrantes desse universo imenso observado pelo processo de construção de versões sobre a realidade – chamado ordinariamente de ‘jornalismo’. Não importa se escondidas por trás de reportagens, notícias, artigos, editoriais, crônicas, notas ou colunas. É isso.

Por exemplo? A página 15 de O Globo do dia 23 de dezembro deste 2010:“A educação brasileira já é uma das três que mais avançam no mundo”. A matéria traz informações sobre o relatório do Programa Internacionalde Avaliação de Alunos, conhecido como PISA, e produzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico; um organismo internacional.

O relatório, aliás, divulgado dias antes, afirma que o Brasil teve oterceiro maior índice de evolução nos últimos 10 anos. Ficou atrás,apenas, de Luxemburgo e do Chile. Por que uma década? Porque em 1999 –sexto ano do governo FHC – nossos alunos foram os últimos colocados na primeira edição da pesquisa PISA.

Onde está a curiosidade da notícia? Justamente por não ser umanotícia. É um anúncio do Ministério da Educação. O governo precisou comprar um espaço nos jornais do país para divulgar um feito internacional dos nossos estudantes, pois o assim chamado grande jornalismo local, preferiu destacar que tínhamos ficado apenas no 53°lugar.

A gente sabe que em resultados esportivos a nossa ‘crônica’desconsidera tudo que não seja o primeiro lugar. Mas costuma informar com algum destaque. Agora, não; o “politicamente correto” parece serpassar a imagem que continuamos um país de vira-latas, como diriaNelson Rodrigues. Se vivo estivesse, o velho cronista e teatrólogo diria que nossa ‘imprensa’ estava torcendo pelos adversários ou agindo como partido político, como já foi amplamente discutido há dois meses.

Tem mais: considerados apenas os resultados dos nossos alunos deescolas públicas federais, nós ficamos em 7° lugar no planeta. Nafrente de países como U.S.A., França, Japão, Inglaterra, Itália eoutros do mesmo calibre. Uma pena que nosso jornalismo goste tanto demostrar somente nossos tropeços. Até se entende que a meta seja sempre chegar em primeiro, mas progresso é vitória.

Bastaria perguntar a qualquer um dos garotos que participaram das provas se é estimulante essa atitude de desvalorizar o esforço. Claro que não! Apenas confirma nossa velha paixão pelas notícias negativas; ou, o que é pior, nosso eterno complexo de cidadão de segunda classe –não importando a clareza dos fatos quando entendidos em seu contexto real e concreto.

Ser contra as realizações de um determinado governo é corretíssimo, mas apenas nos espaços de opinião do jornal, nos editoriais. Notíciase reportagens são ‘vendidas’ como versões objetivas dos fatos; no mínimo, relatos equilibrados pela isenção.