No entanto, o jornalismo, como um todo, sempre deu a entender ou apontava, com todos os dedos da mão, que o último governo é que era o grande e único responsável pela calamidade. Agitavam essa bandeira da verdade incontestável os editoriais e os articulistas, entre eles praticamente todos os economistas midiáticos que deveriam ser bons leitores de números/estatísticas.
Claro que uma unanimidade com tal consistência de origem e regada diariamente pelos veículos de todos os tamanhos e formatos gerou a certeza de que se tratava de uma sólida verdade. Você também não estava seguro disso?
Digamos que esse ‘estado de convencimento’ se instalou de modo natural nas mentes e nos corações de todos os que tinham ressalvas contra o governo Lula. Mais do que isso, foi tão bem trabalhada a “verdade” que se transformou em pensamento único, pois até em cabeças mais independentes e outras favoráveis àquele governo não se levantavam dúvidas quanto à culpabilidade atribuída com exclusividade a ele. Certo? Errado.
Imagino que foi uma surpresa para todos, a edição do dia 21 de janeiro de O Globo (p.20), por exemplo: lá consta que o governo de Fernando Henrique Cardoso é que promoveu o maior crescimento da arrecadação de impostos – 60%, contra 54% nos dois mandatos de Lula. Claro, não foi nenhuma manchete, título, subtítulo ou, mesmo, entretítulozinho.
Conhecendo a ‘linha’ do jornal citado, essas quantificações não aparecem junto a elogios. Estão
quase escondidas em um quadro cheio de algarismos, anexado a uma reportagem de quase uma página, cujo título reafirma a batida mensagem de que o governo do operário é que deitou e rolou nos impostos: “Arrecadação de impostos bateu recorde em 2010: R$ 805 bilhões”. E, assim, ‘de passagem’, no final do segundo parágrafo da matéria, duas singelas linhas, quase envergonhadas, sussurram: “Foi o mesmo caminho do governo FHC, quando a arrecadação federal subiu até mais: 60 %, ou 8,5% ao ano.”
A questão aqui, como em todos os textos postados neste blog, não é o aspecto econômico, nem mesmo o político. O que pretende mover este espaço, pelo menos minimamente, é o trato jornalístico que parece estar por trás das matérias; melhor, acima delas, pois as determinam como “produtoras de sentido” que são, em coerência com o essencial da vocação do próprio jornalismo.
Neste caso específico, pode-se afirmar que passamos anos bebendo em fontes contaminadas pela “torcida”. Tal atitude era mais ostensiva ao cuidar de destacar apenas os feitos negativos, pois essa velha ‘coreografia’ de torcida tem a surrada desculpa de que o público só gosta de coisa que fede...Não é verdade; veja-se o que alimenta as pautas de esportes, de cultura, de ciências em geral.
Vê-se que não é falso o desabafo de que alguns meios de comunicação “têm agido como verdadeiros partidos políticos.” Com relação ao tema, nem cabe a restrição de que foram só ‘alguns’; foram praticamente todos, os clássicos 99%. Tratamento idêntico aconteceu recentemente com o famoso exame (PISA) a que estudantes de 15 anos, de 61 nações, foram submetidos. Nossa ‘imprensa’ só deu destaque ao aspecto negativo, verdade, pois nós ficamos entre os cinqüenta e poucos de menor desempenho; quase não se divulgou que fomos o terceiro país que mais progrediu nos últimos anos (basta dizer que fomos os últimos colocados na avaliação anterior, levada a efeito no sexto ano do governo FHC). Mais: se considerados apenas os estudantes de escolas federais, ficamos em sétimo lugar, deixando para trás França, Inglaterra, Itália, Japão, Estados Unidos etc.
Todavia, segundo as cabeças do nosso jornalismo, isso não vende jornais. Será? E se fosse, essa premissa poderia ser mais importante que o compromisso com a verdade? Onde está o princípio de se observar e relatar os fatos sob os enfoques que possam alcançar suas reais dimensões? É o caso de se perguntar: as lições do caso Escola Base ainda não foram suficientes? Ou já estão esquecidas?
Atitudes partidárias assim só fazem mal, ao público e à imagem do jornalismo, pois a história é implacável com a mentira e as meias verdades. Por isso nada melhor que as revelações de um dia depois do outro.