segunda-feira, 30 de maio de 2011

ESTÃO INJUSTIÇANDO UM LIVRO, SEM CONHECÊ-LO

Os meios de comunicação deram, recentemente, um espaço ‘estúpido’ e ‘sinistro’ à polêmica sobre um livro direcionado a alunos adultos de comunidades mais singelas, onde a linguagem oral não costuma primar pelo rigor gramatical. Aliás, em nenhuma comunidade do país se pode dizer que a fala dos cidadãos anda muito atrelada à sintaxe. Basta lembrar como todo o Sul e grande parte do Norte e Nordeste consagraram a segunda pessoa verbal: de peão a governador do estado, praticamente todos dizem o destemperado ‘tu vai’. Na capital paulista e no interior estão consagrados ‘os mano e as mina’. O acadêmico e ex-presidente da república, FHC, em entrevista publicada no dia 29/05 último, defendendo a descriminalização das drogas, não tergiversou, foi atropelando a gramática: “ aumentando o consumo; tendo um resultado negativo (a guerra contra as drogas), danificando as pessoas e a sociedade.” (Folha de S.Paulo, caderno Ilustrada, p.E2)

Aqui vão as perguntas que não querem se calar: Ninguém vem a público vociferar contra esses abusos? Regiões inteiras falando errado, a capital econômica e acadêmica do país sem saber concordar artigo com substantivo, vai ficar por isso mesmo? Onde estão os vilipendiadores da professora que escreveu um belo livro que ensina corretamente a gramática, quando um homem culto, como o sociólogo Fernando Henrique, atropela as formas verbais?

Pois o ‘tempo fechou’ quando se soube que uma professora de Língua Portuguesa, Heloísa Ramos, havia expressado que convivemos com tal desleixo lingüístico, em um livro distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático. Mais grave: muita gente que se julga ‘boa’ chegou a assegurar que o texto ensinava o erro. Uma procuradora da República chegou a dizer que os responsáveis “estavam cometendo um crime”. (O Globo,17/05, p.3). Um colunista diário do mesmo jornal assegurou que se tratava de uma “pedagogia da ignorância” – mas no mesmo artigo ele cometeu um desses crassos erros de concordância, tão comum na linguagem oral: “Na verdade, está é agravando as condições precárias do cidadão-aluno que busca na escola melhores condições de vida, limitando, se não impossibilitando, que atinjam esse objetivo”. Outro falava que “ensinar compulsoriamente ‘nós pega o peixe’, como admite a nova cartilha, é mais pornográfico que os catecismos de Carlos Zéfiro”. (O Globo, 23/05, p.10- Segundo Caderno)

Aliás, um editorial, do mesmo jornal e no mesmo dia, acima apontado, garante: “um livro que permite erros de português(...) inviabiliza a inclusão social”. O texto continua:“trata-se de questão muito mais séria do que é capaz de alcançar a ideologia de almanaque que justifica tais agressões à língua, à inteligência do país”. (Idem, p. 6)

Durma-se com um barulho desses! Dizer que se fala errado no país transubstanciou-se em “ideologia”, “ofende” a “inculta e bela” e leva de roldão a nossa “inteligência”? Depois as pessoas estranham quando alguém toca na ferida dos meios de comunicação e diz que eles “estão agindo como se partidos políticos fossem.” Pois é. Olhando bem, aliás, lendo bem, não parece que jornalistas, acadêmicos, políticos e clássicos candidatos aos 15 minutos de fama, não têm se comportado com aquela gana desmoralizadora que a saudosa União Nacional dos Estudantes ostentava nos velhos tempos? Cuspido e escarrado.
Estão atirando no que não leram, mas acham ‘politicamente correto’ criticar

Dizer que todo mundo está mentindo intencionalmente é exagero, mas qualquer alfabetizado, devidamente despido de preconceito, pode ler que a autora do livro “Por uma vida melhor” jamais ensina o “dois real” nem o “nós pega o peixe”. Este é fato de constatação facílima. Ela não admite o erro, nem o ensina, em qualquer passagem do livro. Apenas informa sobre a existência dos dois padrões de uso da língua – aliás, quem não sabe, deveria estudar um pouco de lingüística ou ler o livrinho da professorinha. A “tia” Heloísa – com todo respeito - e assegura que a norma culta é melhor, em todo corpo restante da obra. Claro, ela não poderia prever que não-leitores de sua obra tomassem as dores de maus leitores.

Pois o livro “Por uma vida melhor” gasta menos de 0,05% do seu texto, no capítulo 1, para informar que a língua falada comporta variações que a gramática condena, mas a fala não deixa de ser entendida por isso; ela garante que o erro pode levar o falante a ser discriminado; garante que existe o padrão correto e o ensina didaticamente – no restante do livro. Mais: nos exercícios 4, 5 e 8 solicita que o estudante corrija expressões erradas.

O jornal Folha de S.Paulo apresentou, na edição de 22 de maio, um estudo de mais de 1500 horas de falantes brasileiros, só com habitantes de capitais, que revela, “entre os brasileiros com nível superior não passa de 5% a freqüência na fala com que o pronome é colocado em casos em que a norma padrão escrita recomendaria. Entre os menos escolarizados, o percentual é de 1%”.(página 6, caderno Cotidiano)

Muita gente boa, consagrada culturalmente, já atropelou formalmente o rigor gramatical. Guimarães Rosa cometeu o seguinte: “O senhor sabe; pão ou pães é questão de opiniães”. Noel Rosa já escreveu “Mulata vou contá as minha mágoa, meu amô não tem erre, mas é amô debaixo d’água”. O célebre padre Antônio Vieira caprichou: “Assim castiga, ou premeia Deus”. Milton Nascimento gravou uma cantiga de marujada que diz: “Quem me ensinou a nadar foi os peixinhos do mar”.

João Ubaldo Ribeiro está certíssimo quando assegura que “muitas vezes, ao falarmos ‘certo’, estamos na realidade falando inadequadamente, como um orador que, num comício no Mercado de Itaparica, se esbaldasse em proparoxítonas, polissílabas e mesóclises.” (O Globo, 29/05, p.7)

Enfim e ao cabo, o livro “Por uma vida melhor” acaba dando uma expressiva lição de cidadania aos editores dos meios de comunicação, aos intelectuais apressados e a todos nós. Lidando com adultos de baixa escolaridade, antes de arrotar regras gramaticais, ele certifica ao estudante que aquele livro não ridiculariza nem despreza o modo rústico, digamos assim, de falar no ambiente dele. Reconhece que a população fala assim, à margem do padrão da Academia, e que é melhor falar com correção – e o livro se dedica a ensinar isso, o tempo todo.

Como diria o velho Victor Hugo: “A palavra, como se sabe, é um ser vivo.” Saber usá-la, sem preconceitos e despido de condenações, sem base nos fatos, é consagrar o compromisso com a cidadania e com a liberdade de existir; ela é muito mais flexível e menos preconceituosa do que nós nos achamos, em nossa vã sabedoria.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

OSAMA ACERTOU OBAMA

Sem dar um tiro, o mentor do atentado de 11 de setembro de 2001 acabou acertando o presidente dos EUA. Por incrível que possa parecer, está cada vez mais evidenciado que a execução do “símbolo do mal”, nas primeiras horas do último dia 3, encharcou Obama de algo que não se chama justiça, exatamente.

Pelo contrário. Para um país tão preocupado em se dizer e cioso em se mostrar “paraíso da democracia”, executar um prisioneiro desarmado poderia, até, parecer justo para a emoção das quase três mil famílias enlutadas há nove anos. Poderia, sim, mas não é; aliás, não passa da simples volta à barbárie, pois contradiz um princípio básico, pétreo mesmo, da justiça. E para piorar, o esconderijo só foi descoberto mediante tortura, outro grave erro.

A lista de ilegalidades jurídicas começa com o que parece ser uma invasão do território de um outro país, o Paquistão, para chegar ao Osama, por mais que se saiba que “desde 2001, o país recebeu U$ 22 bilhões para colaborar contra o terrorismo.” (Folha de S.P., 8 de maio, p. A2)

Outra atitude claramente sinalizadora do comportamento ilegítimo da “terra de Marlboro” foi revelada pela narrativa dos integrantes da comitiva militar especial: apenas um cúmplice do velho terrorista teria atirado em direção às forças americanas e foi morto no calor do confronto, menos mal. Assim como uma mulher teria levado um tiro na perna por estar entre os soldados e o procurado. Plenamente justificado, pelas circunstâncias do embate.

Consumado o crime da execução, ao jogar o corpo no mar, sem deixar vestígios da materialidade do ato, a nação hegemônica do planeta teria engordado sua ficha de procedimentos criminosos, pois a Convenção de Genebra não abraça a legitimidade desse sumiço estratégico. Fica muito claro que a missão antiterrorista não queria simplesmente fazer justiça, prendendo Bin Laden. O negócio era agir como facínora, pois não tem outro nome quando se planeja e executa uma ação de fazer justiça com as próprias mãos.

A dimensão de um crime não justifica outro crime

Em verdade, o que se nota no episódio é a velhíssima “lei do mais forte” que tanto marcou a história da barbárie humana. As leis internacionais foram elaboradas e aceitas, pela comunidade das nações, precisamente com o intuito de superar o primitivismo animalesco da vingança, diga-se de passagem. Se dizem que isso é prática de irracionais e de mafiosos fica no ar a crendice desconstrutiva do “acredite se quiser”, pois só vale se não se mexer com os armados e poderosos.

Osama planejou e comandou um crime bárbaro contra as “Torres gêmeas”? Sem qualquer resquício de dúvida. Hitler e seus asseclas, também. Mas foram julgados, condenados e executados estes últimos, já que o mandante se matou. Justiça feita.

A questão da barbárie volta à tona quando se revê a história recalcitrante das nações gigantes. Lembra das bombas atômicas sobre Hiroxima e Nagasaki, em agosto de 1945? Foram “apenas” um troco justificado pelo velho argumento arrotado quando se quer vingar: “guerra é guerra”, sinônimo do primitivismo de um vale-tudo suicida. Pois eram rataliação ao bombardeio sobre Peal Harbor, no Havaí, sofrido pelos americanos, em dezembro de 1941.

A grande preocupação é quanto ao rastro infinitamente vicioso dessas recaídas dos mesmos países poderosos que atropelam os direitos todos para se vingarem. Ficar calado, nessas horas, é o mesmo que apoiar a fajutice da “lei do mais forte”. Aplaudir esses crimes cometidos com farda equivale a bater palmas para execuções e torturas praticadas por militares, por exemplo, em um regime “ordeiro” como todas as ditaduras se intitulam. Apoiar atos de execução, assim, com base numa decisão presidencial, compromete o que resta de racional e isento em nós, para soar como puro cinismo, se, enquanto isso, nos espantamos com o volume da criminalidade “civil”.

Ninguém pode ter a ilusão de que ao executar o “homem mais procurado do planeta” Obama esteja construindo uma linha divisória entre o horror do terrorismo e a isenção da justiça.

Quando alguma nação responde a um comportamento bandido com ação similarmente bandida, ela está fazendo como moleque mais forte que bate no subnutrido e pergunta se o outro “vai encarar”. Vai. Pode não ser no mesmo momento nem com o mesmo padrão de punho usado até ali. A certeza única é que “tem troco”.

Lamentavelmente a isso não se pode chamar de civilização. Pelo menos no sentido universal do termo. Vale para o Texas dos velhos filmes, vale para a postura do moleque de rua, como vale para os bandidos que infestam nossos centros urbanos.

Jogar com bandidos usando as armas e as regras deles é molecagem com os cidadãos. Pelo menos com aqueles preocupados com o progresso no seu sentido mais humano. Um progresso que se mede não pelo gabarito das armas e das munições, nem pelo dinheiro na conta bancária, mas pelo compartilhamento das leis, da cultura, da arte, do saber e, acima de tudo, dos bons modos.

No episódio do fim do Osama não dá para salvar a cara de Obama. Pelo menos até as próximas revelações.

Aguardemos.