segunda-feira, 10 de setembro de 2012

NOSSOS HERÓIS PARALÍMPICOS


      A neurociência, associada à linguística, andou estudando os mecanismos que fazem das metáforas uns verdadeiros e sólidos roteiros de dominação dos nossos pensamentos. As parábolas também são enquadráveis nesse esquema; de modo semelhante, a velha tática de “repetir uma ideia”, insistentemente, “até ela se torne uma verdade”.
      Na política, temos visto o emprego desta última estratégia sempre que um certo candidato à presidência percebe que está difícil ganhar a preferência dos eleitores: então, não mais que de repente, aparece a ‘denúncia’ de uma tentativa de vender um “dossiê”...Não tem dado certo, mas o cara consegue ir para o segundo turno. Há quem goste disso. Pelo menos os meios de comunicação faturam bastante com o ‘escândalo’ que nunca deu em nada.
      Antes disso, a televisão nacional pioneiramente explorou o conhecido quadro em que uma loura ‘americanalhada’ demonstrava que o brasileiro era, antes de tudo, não um bravo, mas um cara “bonzinho”, espertamente. Tanto a televisão repetiu o quadro de tal forma que a imagem da “loura-burra” colou nas moçoilas que cansaram de causar inveja nas de outras tonalidades. No fundo foi só uma vingança da inveja...mas divertia e vendia a ideia; aliás, bem colonialistazinha, não se pode negar.
      Durante anos nossos olhos e ouvidos não pararam de receber a mensagem de que bom mesmo era buscar “levar vantagem em tudo”. Aquela campanha que escrachava com a ética e rendeu alguns milhões a um certo ‘canhotinha de ouro’. Por sinal, hoje um especialista em se equilibrar sobre chavões. ‘Certo?’.
      Há poucos meses foi iniciada a campanha que se concentra no conceito de que “brasileiro não desiste nunca”. Pois, não é que bastou a primeira paralimpíada, depois disso, para que nossos atletas especiais “dessem um banho” na demonstração de que as metáforas podem fazer milagres?  
      Semanas após uma participação pífia dos nossos atletas nas Olimpíadas de Londres, foi surpreendente a dedicação dos “paratletas” do país. Na mesma capital inglesa e, em princípio, com o mesmo DNA verde-e-amarelo e com as mesmas metas esportivas, onde deveria predominar o velho slogan de que “o importante é participar”, os resultados dos cidadãos com ‘necessidades especiais’, foram muitíssimo melhores.
      O que não deixou dúvidas foi a incomparável diferença de apoios. Enquanto os ‘profissionais’ de destaque dos vários setores esportivos contaram com polpudas retaguardas financeiras de grandes empresas, os portadores de deficiência ali chegaram com algum apoio oficial, sim, mas em valores a quilômetros de distância; para menos. Mesmo descolados desses ‘estímulos’ encorpados, o que se viu foi uma performance exemplar do grupo ‘especial’.
      Alan Fonteles – que perdeu ambas as pernas ainda criança – surpreendeu nos 200 metros rasos, levando a medalha de ouro que todo o planeta julgava ter dono, o próprio ídolo do brasileiro, o sul-africano Oscar Pistorius, pelos desempenhos anteriores do africano: ouro nos 100, 200 e 400 metros nas Paralimpíadas de Pequim-2008. Aliás, ele não disfarçou um desconforto, para usar expressão suave, com a ‘ousadia’ do rival tupiniquim.
      O futebol trouxe, pela terceira vez, a medalha de ouro – enquanto os atletas muito bem remunerados da categoria profissional continuaram deixando para o futuro aquele lugar de honra em que, pela Fifa, já somos penta. Sem alarde, o nadador Daniel Dias levou 6 ouros, numa demonstração de que “o brasileiro não desiste nunca” – como se quer, saudavelmente, construir a imagem verde-e-amarela.
      No dia em que o Brasil comemorava sua independência, 7 de Setembro, nossos meninos e meninas paralímpicos faturaram 9 medalhas, sendo 5 de ouro. Resultado que muitos países demoraram décadas somando medalhas e não conseguiram alcançar.
        O Brasil fechou neste domingo, com a medalha de ouro de Tito Sena, da classe T46 da maratona, sua melhor participação em Paralimpíadas na história. Ao todo foram 43 medalhas em Londres, sendo 21 de ouro, 14 de prata e oito de bronze, o que rendeu ao país duas posições a mais no quadro geral de medalhas em relação a Pequim-2008, terminando em sétimo lugar.
               

segunda-feira, 2 de julho de 2012

REMANSO E CACHOEIRA



O perigo é maior quando homens pequenos projetam sombras imensas.”

Remanso

Não se trata de preconceito contra baixinhos. Para eles também existe o ditado, aliás, mais popular do que o pensamento acima: “Dos pequenos frascos é que vêm os melhores perfumes”. Genérico demais, sem dúvida, pois quem faz exames de fezes...Bem, é melhor deixar isso pra lá; longe de ‘ventiladores’, como são nossos pensamentos e palavras.

Cachoeira

Enquanto isso, entrou na pauta do país, saindo do remanso, um pequeno-homem com uma mega-sombra, o multifacetário Carlos Augusto Cachoeira – vulgo ‘Carlinhos Cachoeira’, para os íntimos do raio de ação de certos ventiladores, acima mencionados.  O aspecto imponderável e ainda não explicado convincentemente, ‘pelas partes responsáveis’, foi o prolongado remanso em que o ‘queda d’água’ atuou, tecendo a sombra imensa, incrivelmente guardado, desde 2009, por um ministro do Supremo Tribunal Federal.
A sociedade ficou sabendo que a ‘cachoeira’ do Cachoeira ficou resguardada por quatro longos anos (enquanto ele, insuspeito, comandava o circo, com plenos poderes), apenas porque determinado ministro do Supremo Tribunal Federal “aguardava os resultados de outras investigações” que ele não sabia que existiam, pois eram secretas e de outro poder
Diz a sabedoria popular que “de bumbum de neném e certas cabeças nunca se sabe o que pode sair”. Percebeu que este ‘dito’ pode ser generalizado, aliás, muito fartamente? Fiquemos, apenas e tão somente, com o imediato que ‘saiu nos jornais’. As entrelinhas imensas, que costuram o entendimento das leis, possibilitam tantas vertentes que tudo, rigorosamente, é esperável dos defensores dos ‘fracos e oprimidos’, como passam a ser tratados os pequenos-homens deste país, quando surpreendidos em seus mal-feitos. Literal e freqüentemente, nosso território verde-e-amarelo vive inundado por ‘cachoeirices’ deste padrão de atitude da fina elite (os cachorros nos perdoem, pela semelhança vocabular...).
Até o momento, três governadores foram ‘acachoeirados’, no cenário ‘ventilado’ da CPI; claro que com amplo espaço para suas legítimas defesas. O filho do grande musicólogo, Sérgio Cabral, tudo indica que já se viu livre deste portentoso ventilador. Que siga longe do seu raio de ação; pois certas amizades, companhias e conluios não ficam bem a autoridades nem a integridades, como já sugeria o princípio ético romano: “À mulher de César não basta ser honesta; precisa parecer honesta.” Isso se aplica a cidadãos, vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores, ministros, presidentes. Ah, até a papas.
Sem remansos, que, nesse quesito, como diria o povo: o buraco é mais embaixo.

Remanso, cachoeira e ‘mensalão’

Nessa mesma corrente do caudaloso rio de cachoeiras e remansos estratégicos, ganhou espaço generoso o choro do ministro, reclamando que o ex-presidente Lula o teria pressionado a favor dos ‘mensaleiros’. Do ‘mensalão’ você ainda se lembro, ‘por pressupuesto’, não?
Todavia, parece que a sociedade não estranhou muito o fato de o constrangido ministro só vir a reclamar, mais de um mês após o suposto assédio. Como todo mundo pôde perceber – você não notou? –, o caso rendeu ‘panos pra manga’, especialmente nas agendas de conhecidos veículos que muito curtem ‘ventilar’ os mal-feitos – até tragédias - sobre certas personalidades ou entidades que eles carimbam de ‘inimigos’. Não importando se o dito é só aparente ou real, pois pouco se importam com o singelo ato de ouvir todos os lados envolvidos; eles querem é ‘ventilar’, pois isso vende. (“LULA É INTERNADO”, foi a manchete mais recente, sugerindo uma tragédia: era só para tirar um cateter...) Isso é feio. 
Vem cá, como em todos os países, para ser ministro não há a pré-condição de se saber viver em um ambiente onde circulam todas as versões e ‘torcidas’, especialmente da mídia que adora a condenação prévia? Nem é preciso lembrar os casos Brizola, Alcenir Guerra, Escola Base e Ibsen Pinheiro. Mais: se houve a pressão – que a única testemunha nega -, foi preciso ‘amadurecer’ a consciência por mais de um mês? Louve-se a sensibilidade do ministro, mas que o remanso de 40 dias pegou mal, pegou.
(*) João de Deus Corrêa é jornalista, professor universitário e colaborador deste veículo. 

domingo, 13 de maio de 2012

MATAR OU MORRER PELAS PALAVRAS

                                                                       
    É de Victor Hugo a expressão surpreendente: “A palavra, como se sabe, é um ser vivo.” Um anônimo teria dito: “Difícil é aprender a ler: o resto já está escrito.” Já Muriel Rukeyser assegurou que “O universo é feito de histórias e não de átomos.”
      A nação brasileira, vista pelo viés político, está entrando em um desses momentos que tem tudo para ser histórico e tecido pelas palavras. Se duvida, volte sua atenção para o horizonte político, cujo palco é o Congresso, e acompanhe a mais nova Comissão Parlamentar de Inquérito. Sim, a última, dedicada ao personagem ternamente conhecido pelo codinome de Carlinhos Cachoeira. Ela promete ser um verdadeiro e tresloucado tsunami, com risco de paralisar os trabalhos (!) parlamentares.  
      O que se quer ressaltar, aqui, é o ponto central do foco de observação: a palavra. Todo o processo que acaba de se iniciar naquele ambiente ‘democrático’ está sustentado pelo exercício dos nomes que os personagens diversos vão atribuir aos atos e aos pensamentos – palavras, portanto - do que se revelou recentemente a última mega-gororoba desse “país tropical”, aliás, cantado por Jorge, outrora Bem, hoje Ben Jor (outro sintoma vivo da importância da palavra).

Palavras e sentidos: a trama da história e dos parasitos

      Desde 2009 são feitas gravações de conversas da mais espetacular revelação de protagonista das agendas políticas e éticas da terra onde viveram personagens tão bem retratados pelo genial Chico Anysio – essa perda recente e tristemente irrecuperável. Para refrescar a memória, basta lembrar como o ilustre Senador da República, Demóstenes Torres, Presidente do DEM e Presidente do Conselho de Ética (!!!), na ocasião, se referia ao personagem que tem como segundo nome o contraditório “Augusto”: “Professor Cachoeira”. (O contraventor era respeitosa e intimamente tratado por um título da mais alta responsabilidade moral na voz de um Senador e Presidente do Conselho de Ética...) Pois não cantamos tanto, no hino à Bandeira, “Salve lindo pendão da esperança/ salve símbolo augusto da paz”? Pois é, Augusto, segundo o dicionário, refere-se ao que é “respeitável, venerando, sublime, magnífico” (AURÉLIO, 2004, p.228). Convenhamos, de ‘pai dos burros’ não tem nada; é a sabedoria em ‘pessoa’, digamos assim, seja Aurélio, Houaiss e outros menos cotados no linguajar cotidiano.
      Hoje essas cínicas conversações entre senadores, governadores (já há quatro envolvidos direta ou indiretamente), estão aí, nos jornais e revistas; todas devidamente disponíveis por escrito, como não pode faltar na gramática ética de todo jogo do bicho e de outros animais e quedas d’água afins. Reafirmando o pensamento do “anônimo”, citado no início: Difícil é aprender a ler: o resto está escrito, pois ela é o fio da meada que tece toda a trama da política e da politicagem. Convenhamos, também não é justo esquecer o detalhe sórdido. Tudo comprovando a tese do escritor francês: A palavra, como se sabe, é um ser vivo. E como tem vivacidade (!), por mais que os surpreendidos pelas gravações, delas, sempre arrotem que ‘não são legais’; alguns se saem com a desculpa esfarrapadíssima de que ‘não foi bem assim que eu falei’ – lembra do ex-presidente FHC, quando pediu: “Esqueçam o que escrevi”? Até hoje repete o refrão. É uma verdadeira síndrome do arrependimento tardio; tocante, mesmo.

A ética e a memória armazenadas na História

      No entanto, pela disposição demonstrada por “nossos” representantes em Brasília, o que a CPI promete, para os próximos capítulos, é a comprovação do pensamento inovador de Rukeyser: O universo é feito de histórias e não de átomos. Tanto o político quanto o social.
      Pode-se garantir, com toda segurança, que o universo político é uma engenharia de palavras que brigam, sem dúvida, mas que constroem a história dos embates que ficarão para a história, cheios de vontade de serem ‘a’ História oficial. As diversas CPIs que sustentamos, na capital criada por Juscelino Kubitschek de Oliveira, no Serrado brasileiro, não nos deixam mentir. Todas jogaram muita água fora da bacia, mas levantaram muitas ações e omissões que as palavras ficaram poucas para dizer com precisão; algumas, por sinal, foram repetidas ao infinito, como a sonora “quadrilha”. Agora ela retorna, para ser ‘o’ refrão da vez. Variam os sobrenomes “quadrilha do Cachoeira”, “quadrilha de Goiás”, “quadrilha do Carlinhos”. Já “quadrilha do Augusto” não deve ser muito ‘tocada’, pois é infame demais, pela contradição interna das palavras e seus respectivos sentidos.
      Aqui é muito conveniente lembrar um pensamento assustadoramente verdadeiro para o momento: “O perigo é maior quando homens pequenos projetam sombras imensas.” Alguém já disse isso. Se ainda não o fez, deveria ter feito. A ideia é perfeita para retratar um cenário que o país está vendo se formar no horizonte e assiste a tudo de cadeira.
     Como você já recordou, espero que concorde com o imortal Victor Hugo: A palavra, como se sabe, é um ser vivo. E como vive e faz história, a palavra, no planeta globalizado, como é costumeiro se repetir, sem maiores entendimentos. Mas, isso fica para uma outra ocasião. Com menos ‘quadrilhas’ e mais ‘augustos’ autênticos – quando e se aparecerem soltos por aí. Está difícil, posso garantir. Pois, como uma metralhadora giratória, o universo das palavras está, literalmente, “com a faca na boca”, como quem parte para a luta diária, para matar ou morrer. 


domingo, 1 de abril de 2012

COMO UM DICIONÁRIO FAZ FALTA

Nossos melhores jornais e revistas - seguramente, também os não tão bons - andam disseminando perigosamente, até, uma franca e espantosa inaptidão para o uso de um livrinho chamado dicionário. Não é mais concebível que seja chamado de 'pai dos burros', pois quanto mais culto e inteligente for o cidadão, mais deveria usar tal memória fantástica. Segundo o nosso “Aurélio”, com justeza é definido como "conjunto de vocábulos de uma língua...com o respectivo significado". (Aurélio, 2004, p.674)
Uma questão que andou merecendo uma corridinha ao ‘pai dos espertos’ é a impertinente gororoba que querem nos empurrar, goela a dentro, 'privatização' como um perfeito sinônimo de 'concessão'.
Como se trata de uma pauta nitidamente política, a discussão ganhou mais espaço do que o famoso 'satisfeitissíssimo' de um antigo ministro. Naquela ocasião, se acusava o autor da 'criação' exótica de ser apenas um "semianalfabeto", um "operário", “sindicalista”, para outros, que, não se sabia como, fora ocupar a chefia de um Ministério. Lembra do sindicalista Magri? Pois é; os que se julgavam 'bacanas' não perdoam 'gente de baixo querendo aparecer' - como afirmaram indiretamente quase todos os meios de comunicação de massa na época, alguns ‘apresentadores televisivos e radiofônicos’ e outros colunistas, sempre donos da verdade; aliás, os mesmos que incitaram a população de São Paulo a fazer o linchamento dos donos da Escola Base, em fins de março e início de abril de 1994. Deu no que deu.
Agora, as 'celebridades' que assinam artigos e colunas de crônicas se apegaram ao ato público e notório da concessão administrativa, dada pelo governo federal em benefício de alguns aeroportos do país. Não por mera coincidência, o leilão concessionário ocorreu dias após as pesquisas revelarem o expressivo apoio da população ao governo atual. Aliás, superior ao nível de aprovações tanto dos governos Lula quanto FHC. Como um "poste" poderia ir tão longe, ninguém sabia explicar, naturalmente. Nem tentativas ocorreram. Os autores da tese 'postista' entraram mudos e saíram calados. Mas descobriram uma possível ‘pólvora’: a chaga da privatização.
Especialistas em factóides se reuniram em um conglomerado de conhecidos vultos políticos – desses que passeiam por Brasília de terça a quinta feira, pela manhã, que “ninguém de ferro”, dizem – para inaugurar, dia desses, uma placa comemorativa da “primeira privatização do governo atual”. Eram concessões de aeroportos. Entre os ilustres factoidistas se destacava a careca alarmista do “doutor” Demóstenses Torres, para usar uma expressão consagrada em inúmeros ‘telefonemas preocupantes’, digamos assim, pelo amigo íntimo Carlinhos Cachoeira.
O que nos tocou, no momento, foram a agilidade e a dissimulação dos 'intelectuais' que 'bateram na ferida', como gostam de dizer, contra uma "incoerência espantosa" - segundo sentenciou um desses ilustres amigos do amigaço do Cachoeira. Certamente ainda magoado com a falta de coragem de debater a questão da 'privataria', notada entre os mesmos que, antes, se "orgulharam" de realizar privatizações às dezenas - diga-se logo, com amplo apoio dos mesmos veículos de comunicação que sempre sustentaram ditaduras, bancos e grandes corporações - em especial, as estrangeiras -, neste "berço esplêndido".

O pingo no i

Aí, como quem não quer nada, você pega um dicionário e vê lá, com todas as letras: concessão é "ação de conceder; permissão, consentimento" (...); "do latim concedere, concessione". (Aurélio, pp. 514 e 515). Quem é dono de um imóvel, por exemplo, ao alugar ou arrendar o dito cujo, não faz nada além de conceder seu uso a outrem, sem transferir a propriedade, o que "até as pedras sabem", diria o Nelson Rodrigues. Já privatizar ganha outra dimensão: é "passar a propriedade do governo...a entidade (es) do setor privado", vem, também, do latim "privatus=próprio". Tudo exatamente igual a vender um imóvel. (Aurélio, p.1632)
Não soa estranho que certas cabeças que se acham iluminadas, doutas, insistam em propagar a falsa igualdade? Um conhecido ex-presidente gastou um artigo inteiro, em O Globo, para dourar a pílula da mesma tentativa de engodo semântico. Ele e outras vozes menos doutas parecem compor um coral, só que afinado no estupro da verdade dicionarizada. E nos perguntamos: Um arrendamento ou aluguel seria idêntico a uma venda? Não, por seus efeitos jurídicos, muito menos em nossa outrora “inculta e bela” flor do Lácio.
Poderíamos assegurar, com base nos dicionários e na legislação, que, segundo Nelson Rodrigues, tal unanimidade é burra? Não parece. A burrice é aquela que escuta calada tal ‘crime’ linguístico, pois “quem cala, consente”, diz o povo. Esse jogo de sinonímia fajuta tem tudo de esperteza e nada de burrice. Espertamente, apenas aposta no comodismo com que escutamos certas falcatruas e deixamos que elas ganhem corpo, até virar verdade. Outra fala popularizada diz que “repetida indefinidamente, uma mentira se converte em verdade.” É nesse jogo-de-bicho que apostam os espertos...
Repare-se que, além dos conhecidos colunistas (que vivem à sombra da hierarquia dos seus veículos, ajudando-os, alegremente, a jogar pedras nos desafetos da chefia), algumas mentes que não precisam de tal postura servil, também correram a cocorocar que a = b. Se é que me faço entender.
Claro que muitos desses não olham para um dicionário, há décadas. Alguns por não saberem usá-lo, pois isso não dá voto; outros por se acharem acima dele. Entende-se essa dificuldade muito 'natural' da inconveniência de um “aurélio”, seja assinado por quem for. Todavia, merecem ouvir a conhecida troça do hoje político Romário: Tem gente que, calada, é um sábio.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

JUNTO E MISTURADO – O JORNALISMO EM SEU ESTADO NORMAL

Os produtos jornalísticos que nos chegam às mãos – está bom: aos olhos e aos ouvidos também – têm a característica muito singular de pertencerem a um mundo simbólico da produção de sentidos, onde os relatos são marcados pelo senso do imediato e submetidos aos constrangimentos físicos decorrentes da necessidade de juntar o que está distanciado e de misturar o que não se mistura no mundo concreto, por ser de campo ou lugar diferente.
Naturalmente, esse cenário é um retrato da busca da sustentabilidade da produção comunicativa destinada a informar, interpretar e opinar sobre eventos, assuntos e performances de alguns personagens que têm um bom nível de ‘consumibilidade’, se é que o leitor me perdoa essa criação exógena (ou maluca, mesmo, com todas as letras, para usar uma linguagem mais feijão-com-arroz). Vamos a alguns exemplos.
Na Ditadura, o jornal não citava os direitos humanos
No dia inaugural do mês de carnaval, o grande ‘matutino’ carioca dos Marinho, trouxe a manchete, imensa: “Em Cuba, Dilma cita apenas EUA sobre direitos humanos”.
Seria risível, se não fosse profundamente trágico, se o leitor recorresse à memória, ou aos arquivos, e achasse algo similar ao cobrado pelo bravo periódico à presidente eleita – na época da ditadura, também, é claro e justo a igualdade de condições. Poderia ser um singelo: “No Brasil, O Globo cita os direitos humanos”. Ou: “...denuncia as torturas”. Ao invés de ceder espaços, sistematicamente e em todos seus veículos, para pronunciamentos que expressavam a truculência do poder usurpado. Ele assassinou jornais (Correio da Manhã, Opinião e outros) e um sem-número de vidas, além dos milhares de torturados, sob o silêncio dos corajosos de agora, amparados na democracia alcançada por outros.
Tem uma história de que “pimenta nos..., digamos, ‘olhos’ dos outros é refresco...”. Pois é. Precisa comentar mais?

Vanderlei: 4 mi X Flamengo: OTudo isso porque as coisas não são tão singelas quanto à simplicidade do olhar de 10 entre 10 observadores impressionistas deixa transparecer. Nos últimos dias, por exemplo, a agenda dos ‘objetos’ de que os nossos jornais cuidam gastou páginas, horas e milhões de caracteres para discutir se a vitória de um time autodenominado ecologicamente com o DNA do conhecido urubu teria gás suficiente para sustentar seu treinador; este que, estrategicamente, estava ancorado e dependurado na multa de R$ 4 milhões, contra o FLA.
O autor destas linhas precisa confessar que, por injunções de trabalho fora da capital do estado, passou as duas últimas horas do dia 1 de fevereiro e a primeira do dia 2 tendo que ouvir a lenga-lenga da cobertura de um jogo contra um tal de Potosí, onde o que parecia interessar mesmo era muito mais a queda anunciada do Luxemburgo do que o escore da partida. O dito cujo negou dezenas de vezes estar demissionário; seu indigitado substituto também negou que ‘hoje’ fosse candidato e todo mundo que teve que aturar essa tortura que rotineiramente desemboca no desfecho demissionário – fosse ‘menguista’, botafoguense, vascaíno ou ‘pó-de-arroz’. Horas depois se soube que o técnico teria sido demitido e o que ‘não sabia de nada’ estava contratado.
Vida que segue. Não é por nada não, mas ter que torcer e contar com uma expulsão para dar uma ‘goleada’ de 2X0 já era sintomático de crise.

MELLO 5 X CNJ 6
Iniciado nos estertores de 2011, o debate sobre os limites do poder do Conselho Nacional de Justiça ocupou a pauta do Supremo Tribunal Federal e da nossa paciência. No meio do caminho – em dezembro – o ministro Marco Aurélio Mello (aquele que é primo do ‘defenestrado’ presidente Collor e, aliás, não tem culpa no parentesco, só no DNA), sim, o citado ministro ou deveria dizer “Doutor”? Bem, o caso é que o nosso ilustre togado “dera uma liminar restringindo a investigação às corregedorias” (O Globo, 3/2/2012, p.1).
Agora, a maioria do STF, além de inibir a dita restrição ao CNJ, decidiu, também, que o julgamento dos juízes tivesse um verniz condizente com o estado democrático e passasse a ser aberto, não mais uma caixa pra lá de preta - e que geralmente é amarela, caracterizando um cenário sintomaticamente contraditório. Tudo isso foi pauta jornalística, desde setembro último, gostasse você ou não do produto travestido de ‘informativo’.

CORINTHIANS ZERO X BARCELONA ZERONão. Você não perdeu o jogo que encima este parágrafo. Todavia poderia ser um placar razoável. Ou não? O que você acha? Também poderia ser Vasco 1 X Barcelona 1. Não? Evidentemente, se sua mente se basear apenas no que nossa fauna jornalística produziu por ocasião do atropelamento do Santos F.C., seu parecer terá as cores fortes da verossimilhança. Mas pode ser bem diferente, se você se abstrair da verdadeira tromba d’água que simbolizou a choradeira caipiresca e tipicamente ‘colonizado’ dos nossos jornalistas, todos tão preocupados em pousar de especialistas seriíssimos sobre o “nobre esporte bretão”.
Todo mundo repetiu o chavão de que o time da Catalunha ‘deu uma lição de futebol moderno’ sobre ‘o melhor time do Brasil’. Reparou? Mas, reparou, também qual foi a colocação da esquadra da Vela Belmiro no último “Brasileirão”? O torneio inteiro ela brincou mais ao nível do rabicho da tabela classificatória do que com o topo. Como é que cabe assegurar ser o time que poderia representar, naquele momento, o “país do futebol”? Com que evidências se poderia assegurar, como o fizeram os ‘entendidos’, que o treinador da equipe santista era um dos dois ou três melhores da terra do Pelé? Time que tem como destaque os atacantes, como o Neimar, e uma defesa bisonha, se convida o adversário daquele padrão para vir brincar de ‘dois toques’ na própria área está apostando todas as fichas na derrota vergonhosa e merece levar um ‘zero’ em vermelho no caderninho ou na prancheta que tem como título um negócio que passou léguas daquela partida, chamado ‘estratégia’.
Fosse o time dos Gaviões ou o do Ricardo Gomes (campeão e vice do torneio nacional) tem-se a impressão que haveria jogo; não aquele amontoado de acovardados reverenciando o adversário, sem qualquer sentido de marcação e de ataque. Não acha? Mas pense.

DA VINCI 1O X COPISTA 9

Outra pauta, esta de breve duração, mas de forte impacto nas mentes interessadas no universo das artes, foi a descoberta, melhor, a revelação da descoberta de uma nova e enxuta Mona Lisa. Naturalmente, mais lisa que a Mona original, pois passara séculos ao largo dos efeitos do acúmulo de poeira e da decomposição provocada pela incidência da luz sobre ela. Igualzinha aos turistas que se aproximam das nossas praias virgens dos raios de Sol (eles, claro e esbranquiçados, naturalmente).
O mundo das artes entrou num frenesi – aliás, bem adequado com o estupor das nevascas que têm castigado o hemisfério norte, na Eurásia, e fugido das terras do Tio Sam, driblando as justificativas e as hipóteses de paletó-e-gravata dos cientistas e curiosos todos.
Pode-se até incriminar o trabalho de ‘cópia’ do discípulo do grande Leonardo, mas ele ‘dá de dez’ nos exercícios artísticos que andam expostos no deslumbrante museu que o centenário-e-mais-um-pouco Oscar Niemayer (como é que se escreve, mesmo, o sobrenome do gênio?). Quem ainda não foi ver de perto o que nosso gênio arquitetou, não sabe o que está perdendo: ele explora, com um deslumbramento