segunda-feira, 4 de julho de 2011

TÊNIS EM 3D

Em Londres fazia uma manhã ensolarada. Na quadra central do complexo de Wimbledon os dois tenistas mais bem colocados no ranking da ATP, Rafael Nadal e Novak Djokovic, tinham acabado de ouvir o “time” pronunciado pelo árbitro brasileiro, sinalizando que o jogo começaria pra valer naquele instante. De um lado, o espanhol, se despedindo do primeiro lugar no ranking da ATP; do outro, o sérvio, se preparando para assumir a liderança do mesmo. Entre eles uma partida prometia marcar a história futura do torneio mais antigo do planeta, com mais de um século de estrada.

Eram 10 horas e 15 minutos da manhã do primeiro domingo de julho de 2011, dia 3. Na linha abaixo do Equador, no hemisfério Sul, um grupo privilegiado de aficionados pelo esporte das bolinhas amarelas se acomodava nas confortáveis poltronas da sala 8 do Cine Downtown, na Barra da Tijuca. Num horário em que todos os cinemas da cidade, talvez do país, costumam estar fechados, ali estava ocorrendo ‘a primeira vez’ de uma partida de tênis (ou de qualquer esporte) transmitida ao vivo, em cores, em tempo real e – a novidade -em ‘terceira dimensão’ para o país.

Djokovic prepara o saque com uma dúzia de quiques, sua marca registrada.

Alguém na platéia acha graça:
- O cara acha que vai enervar o touro. Ele não sabe o que o espera. Alguns riem.

O sérvio alça a ‘bolinha’ – como é carinhosamente apelidado o equipamento de jogo – a uns 5 metros do solo e um golpe poderoso interrompe sua queda e a redireciona para a área de serviço do espanhol, vivendo as últimas horas de primeiro do ranking. Um silêncio denso e expressivo, na sala praticamente lotada (restam apenas 11 lugares vazios nas duas primeiras filas do cinema), revela o grau de expectativa do público que não pôde estar no All England Club, presencialmente. Naquela hora, uma certeza estava sendo costurada na mente daqueles amantes do esporte de Maria Esther Bueno e, mais recentemente, de Gustavo Kuerten: com exceção do juiz e dos boleiros, ninguém estava presenciando aquele momento histórico mais ‘dentro da quadra’ do que cada um daqueles 119 agraciados.

A platéia prende a respiração: a técnica de captação de imagens e os óculos de decodificação deixam aquele grupo com nítida impressão de estar a menos de 5 metros do tenista de 24 anos e 1,88 m. O golpe que projetou o petardo a 205 km por hora elevou o nível de adrenalina da platéia atenta e ainda impressionada com a ilusão visual de estar ao lado do sacador, como jamais qualquer um dos presentes estivera, por mais que tenha presenciado algumas partidas de ambos os tenistas em algum estádio concreto. A grama, baixinha e já maltratada pelas duas semanas de jogos sucessivos, estava ali, quase ao alcance dos pés, palpável; melhor: pisável. A virtualidade do canal usado para transmitir as imagens era não era mais uma “promessa” de impressão nítida de vizinhança das ações. Uma certeza contaminava a todos: Estávamos no camarote ‘do gargarejo’ de Wimbledon.

Até 12:44h aplausos e expressões de desapontamento pontuaram a marcha do sérvio sobre o “Miúra” da terra de Picasso, de 25 anos e um mês, exatamente. Uma caminhada difícil, mas segura, em direção ao título inédito para o sérvio, mas com o qual o falso canhoto já estava acostumado desde 2005, dando poucas chances aos adversários.

Os poucos momentos de distensão na platéia atenta tinham sido de estranhamento do vocabulário do comentarista ‘patrício’ que anunciava os pontos de maneira desconhecida na terra de Guga: ‘nada a 15’, ‘nada a 30’.

Ah, o jogo: Djokovic venceu por 3 sets a 1 (6/4, 6/1, 1/6 e 6/3). Nadal resumiu a partida de 2 horas e 28 minutos:
- Hoje foi impossível. Joguei o melhor que pude, mas Djoko estava incrível.
Ao comemorar o resultado, o sérvio lançou bolas, empunhaduras e raquetes para o público. Mais: ajoelhou na relva (como dizia o comentarista da terrinha), vacilou por dois segundos e comeu uma simbólica porção da ‘sagrada grama de Wimbledon’.

E entrou definitivamente para a História.

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