O massacre de Realengo foi um tiro no coração da sociedade. De tão grande, não cabe em um álbum de lembranças. De tão vivo, não dá para dependurar na parede, feito um quadro. A dor é tão grande que não há prego capaz de sustentá-lo. Como dói. A manhã de 7 de abril jamais pode ser esquecida na história de nossas vidas.
A escola municipal Tasso da Silveira ganhou, dolorosamente, um lugar em chamas na rotina dos descaminhos da loucura humana. Sessenta e seis disparos de revólver, quase à queima-roupa, rasgaram o projeto de harmonia que a Cidade Maravilhosa acalentava nos últimos anos, com evidente sucesso. Doze vidas no alvorecer foram ceifadas num relance. Outras doze, condenadas à retração para o resto de suas existências, carregando consigo petardos de ódio e chumbo ardente que cunharão seus futuros indefinidamente.
Desde o início da implantação das Unidades Pacificadoras, esquina definitiva na história do município, circulava na sociedade a sensação de que se construía um novo patamar na caminhada do Rio de Janeiro. Após o domínio do Complexo do Alemão ficou muito nítida essa impressão. Não dava para fingir que não se percebia. Até os meios de comunicação paulistas, que sempre venderam muitos jornais, revistas e programas noticiosos com as mazelas cariocas, já estavam se adequando a uma fonte claramente minguante de escândalos policialescos, cujo clímax foi o massacre da Candelária – mal acostumados que estavam com as 111 vítimas dos que ‘guardavam’ presos em Carandiru.
Todavia, na manhã suave de um outono nascente, um jovem de 23 anos fuzilou o futuro de uma dúzia de esperanças. Com 66 disparos, Wellington Menezes de Oliveira perfurou definitivamente o coração e a história imediata de milhares. Agrupando alunos, familiares e professores, o número de vítimas diretas mais imediatas do assassino chega à cifra estúpida de 25 mil. Sem contar os milhões que se sensibilizaram com a tragédia, como todos nós, para quem a vida é a esperança mais sólida de que dispomos. Esquizóide ou esquizofrênico? Uma receita, com certeza
Os especialistas em transtornos estão afunilando seus pareceres para o diagnóstico de esquizofrenia do atirador – como os psiquiatras Marcos Gebara e Guido Palomba – apesar de se saber que a “pessoa dividida”, característica dessa doença, não costuma tomar atitudes criminosas, hediondas, em série, segundo o professor de psiquiatria da Uerj, Miguel Chaloub; para ele, trata-se de um caso de esquizoidia, quando o doente tem um quadro de vida solitária, introspecção doentia e má adaptação à realidade (O Globo, 9/4/2011,p.8).Esquizofrênico ou esquizóide, o autor da chacina deve ter se inspirado nos padrões de crimes semelhantes (chamados school shoting) especialmente nos EUA. Graças ao estágio de “aldeia global” em que vivemos, os meios de comunicação não deixam de divulgar esses eventos trágicos desde 13 de março de 1996, na Escócia, quando um atirador invadiu uma escola primária e executou 16 crianças e uma professora, se suicidando. Para uma cabeça doente, um modelo tão repetido, acrescido do agravante de ser oriundo de países tidos como ‘modelares’, ganha a dimensão de uma verdadeira receita.
Em verdade, agora não importa se a ‘receita’ tinha no bullying a motivação básica ou se estava baseava na rejeição por parte do gênero feminino, já que a maioria das vítimas eram meninas (a mãe o abandonou, a mãe adotiva faleceu). Nem se trata de ponderar se o nome da doença era esquizofrenia ou esquizoidia. Ambas as doenças, assim como os quadros de rejeição e gozação estudantil, são sofridos por milhões de humanos, somados todos os países. No entanto, eles não são determinantes para que suas vítimas massacrem. Prevenção é o que se pode fazer A lição de prevenção é que não se pode deixar de tirar das dores que atormentam os familiares, amigos e toda a sociedade. O sofrimento é, agora, a face mais visível e cruel da história universalizada da escola Tasso da Silveira de Realengo. Não se sabe, e isso importa muito, quantos de nós e dos parentes das vítimas do dia 7 votaram a favor do “não controle de armas”, quando o governo propôs o sufrágio das armas, há alguns anos. Persuadidos pelos numerosos políticos, asseclas do capital da indústria de armamentos, os pouco instruídos brasileiros acolheram o argumento de que tínhamos que, pessoalmente, nos defender da barbárie...Como se cidadãos não treinados e sem planos de combate fossem capazes de enfrentar bandidos calejados no manuseio de armas e previamente munidos de cuidados.
Assim como no país de referência de nossas cabeças colonizadas, o direito às armas sempre foi arrotado como um “ato de democracia”, descaradamente, do mesmo jeito cínico algumas cabeças que se julgam coroadas têm defendido o direito de cidadãos públicos serem racistas e/ou homofóbicos – basta lembrar dos casos recentes do deputado Bolsonaro e do escritor Monteiro Lobato, em novembro último, quando alguém do Ministério da Educação sugeriu incluir uma notinha alertando os leitores sobre expressões racistas do grande escritor. Tem gente de aparente “alto quilate” que alega se tratar da mais pura defesa da liberdade. Ora, se o dever do Estado não incluir a ação preventiva de cercear a oferta de recursos – sejam armas ou palavras – para o bem maior da coletividade, estamos correndo o risco de volta à barbárie.
Um teste: será que os pais e irmãos das crianças fuziladas em Realengo vão aceitar o argumento de que não se pôde impedir o massacre porque vivemos numa democracia? Será que a desculpa da liberdade de ir e vir e de consumir armas vai consolar o que restou de vida na existência dos familiares e amigos dos meninos da escola Tasso da Silveira? Bastaria o estado se dizer cuidadoso como um “pai presente” (argumento do nobre deputado), ao invés de se retomar a campanha contra as armas e enrijecer a legislação contra o uso delas por civis? Palavras, assim, convenientemente ‘democráticas’, vão consolar a dor sem-fim da aldeia em que se transformou Realengo?E se cada um de nós – apenas num hipotético exercício mórbido – formos vítimas desses ‘cidadãos armados’ que andam soltos por aí, será que morreremos felizes? Ficaremos realizados, mas entrevados, para o resto de nossos dias, só de sabermos que a democracia foi preservada? Como se vê, não é preciso ser um gênio para perceber que não dá para o bicho nos pegar e só depois reclamarmos que o bicho abusou das liberdades democráticas. É urgente castrar os monstros potenciais. Tirar-lhes as armas. Ou alguém acredita que esquizofrênicos, esquizóides ou psicopatas são ‘machos o suficiente’ para, desarmados, enfrentarem uma escola inteira? Uma só classe?Como disse Confúcio, É melhor acender uma pequena vela do que reclamar da escuridão.
A escola municipal Tasso da Silveira ganhou, dolorosamente, um lugar em chamas na rotina dos descaminhos da loucura humana. Sessenta e seis disparos de revólver, quase à queima-roupa, rasgaram o projeto de harmonia que a Cidade Maravilhosa acalentava nos últimos anos, com evidente sucesso. Doze vidas no alvorecer foram ceifadas num relance. Outras doze, condenadas à retração para o resto de suas existências, carregando consigo petardos de ódio e chumbo ardente que cunharão seus futuros indefinidamente.
Desde o início da implantação das Unidades Pacificadoras, esquina definitiva na história do município, circulava na sociedade a sensação de que se construía um novo patamar na caminhada do Rio de Janeiro. Após o domínio do Complexo do Alemão ficou muito nítida essa impressão. Não dava para fingir que não se percebia. Até os meios de comunicação paulistas, que sempre venderam muitos jornais, revistas e programas noticiosos com as mazelas cariocas, já estavam se adequando a uma fonte claramente minguante de escândalos policialescos, cujo clímax foi o massacre da Candelária – mal acostumados que estavam com as 111 vítimas dos que ‘guardavam’ presos em Carandiru.
Todavia, na manhã suave de um outono nascente, um jovem de 23 anos fuzilou o futuro de uma dúzia de esperanças. Com 66 disparos, Wellington Menezes de Oliveira perfurou definitivamente o coração e a história imediata de milhares. Agrupando alunos, familiares e professores, o número de vítimas diretas mais imediatas do assassino chega à cifra estúpida de 25 mil. Sem contar os milhões que se sensibilizaram com a tragédia, como todos nós, para quem a vida é a esperança mais sólida de que dispomos. Esquizóide ou esquizofrênico? Uma receita, com certeza
Os especialistas em transtornos estão afunilando seus pareceres para o diagnóstico de esquizofrenia do atirador – como os psiquiatras Marcos Gebara e Guido Palomba – apesar de se saber que a “pessoa dividida”, característica dessa doença, não costuma tomar atitudes criminosas, hediondas, em série, segundo o professor de psiquiatria da Uerj, Miguel Chaloub; para ele, trata-se de um caso de esquizoidia, quando o doente tem um quadro de vida solitária, introspecção doentia e má adaptação à realidade (O Globo, 9/4/2011,p.8).Esquizofrênico ou esquizóide, o autor da chacina deve ter se inspirado nos padrões de crimes semelhantes (chamados school shoting) especialmente nos EUA. Graças ao estágio de “aldeia global” em que vivemos, os meios de comunicação não deixam de divulgar esses eventos trágicos desde 13 de março de 1996, na Escócia, quando um atirador invadiu uma escola primária e executou 16 crianças e uma professora, se suicidando. Para uma cabeça doente, um modelo tão repetido, acrescido do agravante de ser oriundo de países tidos como ‘modelares’, ganha a dimensão de uma verdadeira receita.
Em verdade, agora não importa se a ‘receita’ tinha no bullying a motivação básica ou se estava baseava na rejeição por parte do gênero feminino, já que a maioria das vítimas eram meninas (a mãe o abandonou, a mãe adotiva faleceu). Nem se trata de ponderar se o nome da doença era esquizofrenia ou esquizoidia. Ambas as doenças, assim como os quadros de rejeição e gozação estudantil, são sofridos por milhões de humanos, somados todos os países. No entanto, eles não são determinantes para que suas vítimas massacrem. Prevenção é o que se pode fazer A lição de prevenção é que não se pode deixar de tirar das dores que atormentam os familiares, amigos e toda a sociedade. O sofrimento é, agora, a face mais visível e cruel da história universalizada da escola Tasso da Silveira de Realengo. Não se sabe, e isso importa muito, quantos de nós e dos parentes das vítimas do dia 7 votaram a favor do “não controle de armas”, quando o governo propôs o sufrágio das armas, há alguns anos. Persuadidos pelos numerosos políticos, asseclas do capital da indústria de armamentos, os pouco instruídos brasileiros acolheram o argumento de que tínhamos que, pessoalmente, nos defender da barbárie...Como se cidadãos não treinados e sem planos de combate fossem capazes de enfrentar bandidos calejados no manuseio de armas e previamente munidos de cuidados.
Assim como no país de referência de nossas cabeças colonizadas, o direito às armas sempre foi arrotado como um “ato de democracia”, descaradamente, do mesmo jeito cínico algumas cabeças que se julgam coroadas têm defendido o direito de cidadãos públicos serem racistas e/ou homofóbicos – basta lembrar dos casos recentes do deputado Bolsonaro e do escritor Monteiro Lobato, em novembro último, quando alguém do Ministério da Educação sugeriu incluir uma notinha alertando os leitores sobre expressões racistas do grande escritor. Tem gente de aparente “alto quilate” que alega se tratar da mais pura defesa da liberdade. Ora, se o dever do Estado não incluir a ação preventiva de cercear a oferta de recursos – sejam armas ou palavras – para o bem maior da coletividade, estamos correndo o risco de volta à barbárie.
Um teste: será que os pais e irmãos das crianças fuziladas em Realengo vão aceitar o argumento de que não se pôde impedir o massacre porque vivemos numa democracia? Será que a desculpa da liberdade de ir e vir e de consumir armas vai consolar o que restou de vida na existência dos familiares e amigos dos meninos da escola Tasso da Silveira? Bastaria o estado se dizer cuidadoso como um “pai presente” (argumento do nobre deputado), ao invés de se retomar a campanha contra as armas e enrijecer a legislação contra o uso delas por civis? Palavras, assim, convenientemente ‘democráticas’, vão consolar a dor sem-fim da aldeia em que se transformou Realengo?E se cada um de nós – apenas num hipotético exercício mórbido – formos vítimas desses ‘cidadãos armados’ que andam soltos por aí, será que morreremos felizes? Ficaremos realizados, mas entrevados, para o resto de nossos dias, só de sabermos que a democracia foi preservada? Como se vê, não é preciso ser um gênio para perceber que não dá para o bicho nos pegar e só depois reclamarmos que o bicho abusou das liberdades democráticas. É urgente castrar os monstros potenciais. Tirar-lhes as armas. Ou alguém acredita que esquizofrênicos, esquizóides ou psicopatas são ‘machos o suficiente’ para, desarmados, enfrentarem uma escola inteira? Uma só classe?Como disse Confúcio, É melhor acender uma pequena vela do que reclamar da escuridão.
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