Atribui-se a Victor Hugo a criativa sentença: “A palavra, como se sabe, é um ser vivo.” Apesar da vida que tem, ela permite que façamos ‘cobras e lagartos’ dela. Tal capacidade de manipular as palavras é o dom mais distintivo do ser humano, pois caracteriza o exercício da abstração em seu nível social mais requintado. Outros animais quando falam apenas estão nos imitando na sonoridade; não na produção de sentidos.
No seu mais amplo sentido, a literatura vive dessa capacidade humana de saborear e dispor das ideias, por meio das palavras, exatamente para que elas nos liguem aos outros, por sua vivacidade penetrante. Ali, comunicando um conceito, aqui, levando uma interpretação, acolá, conduzindo uma opinião ou um sentimento. Em todos os casos, a vivacidade da palavra é a substância que faz dela o DNA do pensamento. Uma prova: experimente pensar em algo de que você não disponha de palavras.
O jornalismo se realiza no exercício desse elemento básico do pensar. Vive do processo continuado e exaustivo de construir correntes vivas, feitas de palavras, para nos legar informações, interpretações, opiniões. Todas simples variações clássicas da mais humana tarefa de produzir sentido. Isso implica no empenho em produzir convicção, verdade, mesmo, tanto ao comunicar um determinado acontecimento, clara e objetivamente, quanto ao omitir ou desconstruir o impacto de outro.
Veja os exemplos a seguir dos títulos jornalísticos da mesma notícia auspiciosa sobre o Brasil, no dia 4 de março último, informada pelo IBGE:
a) BRASIL PASSA A SÉTIMO MAIOR PIB DO MUNDO.
b) ECONOMIA BRASILEIRA CRESCE 7,5% EM 2010.
c) DILMA: ‘PIBÃO FOI BOM’, MAS NÃO SE REPETIRÁ NOS PRÓXIMOS ANOS.
Como em qualquer exercício de múltipla escolha, qual das manchetes acima você acha que tem a intenção de esvaziar o impacto da competência do país em produzir bens e serviços? Pois é, a alternativa c foi a manchete, com todas as letras: “Dilma: ‘Pibão foi bom’, mas não se repetirá nos próximos anos”.(O Globo, p.1) Em caracteres de tamanho discretíssimo, a afirmação era precedida pelo dado que foi a manchete na maioria dos demais veículos informativos de 4 de março último, uma variante do recurso conhecido como ‘nariz de cera’: “O PIB de 7,5% em 2010”.
Em seguida, o texto da ‘chamada de capa’ trazia a sentença que seria a manchete nas demais duas centenas de países do planeta: “a economia brasileira cresceu 7,5% em 2010... com isso o país já tem o sétimo maior PIB do mundo.” (O Globo, p. 1) Letras garrafais? Não; apenas no tamanho de textos corridos de qualquer resultado de uma partida morna no meio de uma semana cinza, sem peso, perdida no início de um torneio de basquete ou vôlei.
Pode-se alegar que a informação essencial estava no texto. Estava. Mas por que não mereceu estar na manchete da edição, como é o modelo empregado pelas melhores instituições de jornalismo no Brasil, desde meados do século XX? Nelson Rodrigues diria que se trata do nosso conhecido complexo de ‘vira-lata’: temos vergonha das nossas melhores realizações. Evidentemente, alguns jornais insistem na velha torcida contra as realizações do governo de um certo metalúrgico – mas deixemos isso para lá.
Voltando ao padrão de títulos adotados no jornalismo contemporâneo, eles são inspirados nos dados mais impactantes da notícia ou da reportagem, aqueles elementos informativos que reconstituem a essência do fato, não os comentários sobre ele, conhecidos como desdobramentos.
Veja todas as manchetes da mesma semana, no mesmo jornal :
“Comunidade internacional se une para isolar Kadafi” (segunda, 28 de fevereiro)
“Habitação popular perde quase metade das verbas” (terça, 01 de março)
“Maluf, mensaleiros e Newtão cuidarão da reforma política” (02 de março)
“BC aumenta os juros pela segunda vez no governo Dilma” (03 de março)
“Dilma: ‘Pibão foi bom’, mas não se repetirá nos próximos anos” (04 de março)
“Após crédito farto, calote aumenta e já preocupa” (05 de março)
Independente do destaque gráfico acima para o caso, fica nítido o tratamento diferenciado aplicado à última grande realização do país – aliás, ela mereceu outras 7 páginas no citado jornal. Em todos os títulos os dados anunciados são negativos e foram retirados do bloco de dados constitutivos da essência do relato, não de comentários sobre ele. Será que a expressão ‘pibão foi bom’ tem algum apelo noticioso superior ao impacto de o país chegar ao sétimo lugar no mundo? Ou é tão imperioso esvaziar a bola do país que vale qualquer subterfúgio para camuflar suas realizações?
É um caso para pensar.
Sábio, como sempre, certa vez Einstein afirmou: “O mundo é um lugar perigoso para se viver. Não exatamente por causa das pessoas que são más, mas por causa daquelas que não fazem nada quanto a isso.” (Citado por Ana Beatriz Barbosa Silva, em “Mentes perigosas”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008, p.60)
Este espaço é uma contribuição mínima no sentido de fazer alguma coisa para que o conhecimento técnico do jornalismo – disponível na literatura - sirva para tornar a relação do leitor ou receptor com os jornais menos ‘perigosa’. Se é que você entendeu o recado de Einstein.
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