Uma das tentações mais irresistíveis para o ser humano é a postura de torcedor. Não se trata apenas dos casos de agremiações esportivas. A isenção é uma montanha muito íngreme para nossa ‘racionalidade’, pois ela foi construída, desde os mais tenros anos, com base no apego a valores que herdamos como verdades absolutas. Muitas, muitíssimas vezes, eles não passam de “pensamentos únicos” ou “verdades convenientes”, todas passageiras.
Por essa limitação tão ancestral em nossa história, a percepção das coisas reais, que estão bem à vista, se torna uma cilada em que caímos inúmeras vezes e diariamente. Tudo bem, se estamos apenas torcendo por um clube ou pela derrocada de um “big brother”. Todavia, quando a torcida invade o campo profissional a postura muda de peso.
Imagine um médico que não percebe uma doença básica do paciente e receita uma ‘química’ para uma coceirinha qualquer, porém estimulante da doença mais expressiva. Um engenheiro que, desatento à inclinação do terreno – por exemplo, acima da quota dos 45 graus -, prescreve piscinas e outras delícias pesadas para um terreno de encosta. Em ambos os casos as conseqüências negativas podem até não explodir ou implodir de imediato; mas são certas. Há dias um juiz foi parado numa blitz do trânsito por estar sem emplacamento do veículo e sem os respectivos documentos; deu voz de prisão à funcionária que simplesmente aplicava a lei e abriu boletim de ocorrência contra a desacatadora: “Imagine como dói a injustiça contra mim, que faço justiça” - teria dito o magistrado.
No campo do jornalismo o exercício de torcida é um espetáculo diário. O craque da rodada, para um veículo, pode ser o ‘nota 5’ em outro; um projeto de governo ganha elogios em determinada revista, enquanto outra vê nele um desacato ao bom senso, quando não à vastidão da democracia. Como tais posições de torcida são contra ou a favor de determinados governos, personalidades ou ‘valores’, o leitor apressado, ou escravo de um só veículo, fica comprando e sorvendo o engodo, inocentemente.
O resto está escrito, realmente
Às vezes seria suficiente um pouco mais de paciência para esperar o dia seguinte, com os desdobramentos esclarecedores dos fatos; em outras ocasiões a simples leitura da matéria até o fim permitiria notar que o jornalista torce com tanta sofreguidão que nem percebe haver levantado, ele mesmo, alguns dados anuladores das certezas que impregnam os títulos de suas notícias ou reportagens. O repórter chega a ‘ouvir os dois lados’, mas só escuta um deles, o do seu time. Veja um caso recente, abaixo, em O Globo, de 19.02.2011, p.28.
O título assegurava: ‘APORTE NO BNDES REDUZ EFICÁCIA DE AJUSTE FISCAL’. O subtítulo, ou “linha fina”, no jargão dos jornalistas, reforçava a denúncia: “Para analistas, novos empréstimos de R$100 bi do Banco podem invalidar cortes de $50 bi no orçamento”.
A matéria confirmava que “um aumento de capital do BNDES de R$ 6,4 bilhões coloca em xeque, na opinião de alguns economistas, a eficácia da austeridade fiscal pregada pelo governo, que também informou cortes de R$ 50 bilhões no orçamento federal.” Em seguida, e realmente, são citadas as posições de Rogério L.F.Werneck, da PUC- Rio, e de Fábio Kanzue, da USP, reforçando a crítica ao aumento de capital do Banco de fomento, “por aquecer a economia” (sic).
Mesmo deixando passar a confusão que se estabelece com “novos empréstimos de R$100 bi” e a informação trazida de que o aporte era de R$ 6,4 bi...se for até o “pé” da reportagem, o leitor vai reparar, surpreso, que um mesmo número de economistas tem posição contrária ao tom e ao título: Um é José F.L. Gonçalves, economista-chefe do banco Fator, o outro é Antonio Correa de Lacerda, professor da PUC – SP. Ambos falam do conhecido e óbvio efeito do reforço de caixa em um país em desenvolvimento: “aportes não invalidam cortes no orçamento (...), os investimentos que podem surgir com os novos empréstimos do BNDES devem estimular a economia de forma saudável.”
Durma-se com um barulho desses! Muita gente está tão acostumada com esse barulho que até dorme mais sossegada, como se fosse um acalentador som se chuva. Não é, infelizmente, um acalanto. Como nem toda chuva induz a um bom sono – as últimas tragédias na região serrana ocorreram nessas circunstâncias e sabemos as gravíssimas conseqüências delas.
Aprender a ler
Leitores não têm muita, talvez nenhuma, informação de que há um velho chavão no jornalismo que estabelece como o suprassumo da verdade ou, pelo menos, da melhor das intenções de alcançá-la, “ouvir os dois lados”. Na sociedade ‘civil’ já se ouve esse princípio maniqueísta, de vez em quando; algumas cabeças que se dizem ‘pensantes’ o repetem como se fosse um mantra garantidor do paraíso da lógica que santifica os raciocínios todos. Não é. Quantos lados tem uma caixa? Quantos um acontecimento? E uma idéia ou projeto? Uma pessoa ‘normal’ tem quantos pontos em sua vida? E por dia?
Para simplificar, quantos lados tem uma singela moeda? Só cara e coroa? Todas têm um terceiro, o lado da lombada, esquecida sempre. Esta “fala” de um certo interior que a moeda tem e que não enxergamos, justamente por ser oculta pelas faces externas. Ora, esse quarto e evidente lado é um universo para quem dispuser de um microscópio; ali se concentram bilhões de átomos (quinto lado, vezes bilhões, dependendo do tamanho da moeda). Não pára aí a riqueza da nossa moeda: além dos trilhões de lados constituídos pelas subdivisões de cada um dos citados átomos, restam os lados estético e simbólico do valor, o chamado lastro monetário. Simples, assim.
Em verdade, a verdade é que não se chega a nenhuma verdade quando se assegura que a verdade está presente na verdade que se anuncia como verdade. Nem o velho ditado que encabeça estas considerações: Difícil é aprender a ler. O resto está escrito.
Está mesmo? Restam ainda muitas dúvidas, sempre: Quem escreveu o que está ali? Destinado a quem? Onde está escrito? Quando? Como foi escrito? Para alcançar que propósitos? Movido por quais estímulos? O quê se escreveu? Até onde vão os desdobramentos, o sentido de cada mensagem escrita?
Bem, quem tiver resposta para cada questão dessas estará fazendo o dever de casa de cada jornalista e de cada cientista, de modo geral. Eles podem não alcançar respostas exatas para cada uma das dúvidas; no entanto, elas é que alimentam suas pautas diariamente.
Cabe ao leitor, ouvinte, telespectador e internauta desenvolver a consciência delas para iluminarem o que se recebe como reconstituição de fatos, opiniões, interpretações, gostos, adesões a valores, ideologias...enfim, as substâncias que as palavras carregam, como seres vivos que são.
Pois, acredite, a inteligência é uma espécie de olfato que nos dá a capacidade de ler sabores.
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