O jornalismo é um desses elementos indispensáveis que constituem o alicerce do edifício onde a democracia levantou paredes e se deixou cobrir pelo telhado da igualdade entre os homens. Diz-se, até, que ele é uma dessas pedras angulares, uma condição indispensável para a existência e, acima de tudo, a sobrevida dos “interesses do povo”, na visão do Aurélio Buarque de Holanda Ferreira – pai-e-mãe do notável “Aurélio”, o dicionário da Língua Portuguesa. Naturalmente, a contribuição jornalística para vida comum não se resume em comentar os feitos das celebridades; tampouco as façanhas dos candidatos a esse lugar no Olimpo da sociedade. Ele tem a missão básica de enunciar, de expor os fatos e os temas que retratam a dinâmica da vida no planeta; coisas de claro interesse público e outras do interesse do público de cada veículo. Também é vocação dos jornalistas denunciar. Segundo o mesmo e clássico Aurélio, denunciar é “acusar, delatar; revelar; evidenciar...” (Curitiba: Editora Positivo, 2004, p.620) Não se trata de selecionar apenas fatos, temas e personagens do mundo político, da vida pública. A pauta que tem como objeto a denúncia precisa estar democraticamente aberta para a direita e para a esquerda, para o norte, assim como para o sul; necessita estar sensível ao poder eleito e a sua oposição legitimada na intenção cívica. Enfim, a denúncia não escolhe campo; ela joga o jogo da informação confirmada, em todos os segmentos que, de maneira direta ou indireta, deságüem nos interesses da sociedade. Entre nós ficaram famosas as denúncias dos “mensalões” vários: do PSDB, no fim dos anos 1990, envolvendo Eduardo Azeredo, do PT, em 2005, envolvendo partidos da base aliada, mais recentemente do DEM, centrado na figura do governador Arruda, rendendo ‘dividendos’ até os dias atuais. Todavia tivemos outras denúncias, estas vazias, que se dão “por conveniência própria” do denunciante, segundo o mestre Aurélio. São clássicas aquelas que envolveram o ministro Alcenir Guerra, no governo Collor, o senador Ibsen Pinheiro, ainda nos anos 1990 e vergonhosamente consagrada denúncia conhecida como “Escola Base”, em 1994 – para ficarmos com algumas do século passado. Alto risco MORTE E PROGRESSO 40 trabalhadores já morreram em obras do PAC Não sei se você leu, mas no último domingo (27 de março) uma grande reportagem de três páginas mereceu uma chamada de capa do também grande jornal carioca, O Globo. Na edição de maior tiragem do veículo denuncia-se que “Mortes em obras do PAC estão acima dos padrões”. Nas páginas 35, 36 e 37 uma equipe de jornalistas assina a matéria “Morte e Progresso”, como acima aparece, com título em corpo acima de 60. Já no primeiro parágrafo vem o número de vítimas fatais: “Num levantamento inédito feito pelo GLOBO (sic) em 21 grandes empreendimentos, que somam R$ 105,6 bilhões de investimentos, foram registradas 40 mortes de operários em acidentes, desde 2008.” O detalhe vem no segundo parágrafo: “Somente em 2010, a taxa de mortalidade foi de 19,79 para cada cem mil empregados. Índice considerado altíssimo...é mais que o dobro da (taxa) registrada para o conjunto dos empregados do setor formal da economia – 9,49.” (p.35) Olhando assim, impressiona. Tanto pelo tamanho da matéria (3 páginas), pelo número de profissionais envolvidos na apuração, quanto pelo padrão usado para sustentar a denúncia – afinal, trata-se de uma exorbitância quantitativa, “mais que o dobro”. A sedução dos números Então nossa taxa é muito alta? Altíssima. Incomoda? Muito. No entanto é honesto comparar o índice aplicado nas construções do PAC com o do “conjunto do setor formal da economia”? Bancários sobem e caem de andaimes? Economistas lidam com cercas eletrificadas? Vendedores escalam paredões de 30 andares para pintá-los? O setor formal da economia tem um segmento com cenário muito mais arriscado que estes: exatamente o da construção, como é o PAC. Alguém já disse que os números não mentem jamais. Contudo economistas, contadores e estatísticos sabem que eles dizem apenas o que nós queremos deles – o que nem sempre é a verdade, infelizmente. O leigo em cálculos, nas mãos da retórica de números, então, é um “pato” (está no Aurélio: “mau jogador”; o que sofre “as conseqüências de algo” - p.1507). Votando aos números acima, o que incomoda bastante é constatar que a elaboração do quadro comparativo usado na reportagem está viciado. Por que não comparar com o índice encontrado na construção civil, mas com o “conjunto dos empregados do setor formal da economia”? No terceiro parágrafo da mesma matéria, mais exatamente na linha 33, está o segredo: “A taxa de mortalidade (na construção civil) está em 23,8, um pouco acima da encontrada em obras do PAC.” Ah, bom! Como diria um colunista do mesmo e grande jornal. Então é isso: a denúncia é porque as construções do PAC estão ‘um pouco abaixo’ das demais construções? Uma leitura analítica, deixa perceber que há uma torcida forte (reportagem de 3 páginas) para que o governo erre. Se não, por que se denuncia quando suas obras têm índice de mortandade 4,01 inferior à rotina civil da engenharia nacional? Se ambos os índices estão até desumanos, por que não denunciar os 23,8 de mortandade, então? Não está evidente demais que se trata de um grau de intensidade mais elevado, mesmo para leigos em cálculos? E este não é um dos “critérios de noticiabilidade” mais conhecidos no jornalismo? Pois é. Durma-se com um barulho desses: o índice 19, 79 é mais intenso que 23,8...
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