Sem dar um tiro, o mentor do atentado de 11 de setembro de 2001 acabou acertando o presidente dos EUA. Por incrível que possa parecer, está cada vez mais evidenciado que a execução do “símbolo do mal”, nas primeiras horas do último dia 3, encharcou Obama de algo que não se chama justiça, exatamente.
Pelo contrário. Para um país tão preocupado em se dizer e cioso em se mostrar “paraíso da democracia”, executar um prisioneiro desarmado poderia, até, parecer justo para a emoção das quase três mil famílias enlutadas há nove anos. Poderia, sim, mas não é; aliás, não passa da simples volta à barbárie, pois contradiz um princípio básico, pétreo mesmo, da justiça. E para piorar, o esconderijo só foi descoberto mediante tortura, outro grave erro.
A lista de ilegalidades jurídicas começa com o que parece ser uma invasão do território de um outro país, o Paquistão, para chegar ao Osama, por mais que se saiba que “desde 2001, o país recebeu U$ 22 bilhões para colaborar contra o terrorismo.” (Folha de S.P., 8 de maio, p. A2)
Outra atitude claramente sinalizadora do comportamento ilegítimo da “terra de Marlboro” foi revelada pela narrativa dos integrantes da comitiva militar especial: apenas um cúmplice do velho terrorista teria atirado em direção às forças americanas e foi morto no calor do confronto, menos mal. Assim como uma mulher teria levado um tiro na perna por estar entre os soldados e o procurado. Plenamente justificado, pelas circunstâncias do embate.
Consumado o crime da execução, ao jogar o corpo no mar, sem deixar vestígios da materialidade do ato, a nação hegemônica do planeta teria engordado sua ficha de procedimentos criminosos, pois a Convenção de Genebra não abraça a legitimidade desse sumiço estratégico. Fica muito claro que a missão antiterrorista não queria simplesmente fazer justiça, prendendo Bin Laden. O negócio era agir como facínora, pois não tem outro nome quando se planeja e executa uma ação de fazer justiça com as próprias mãos.
A dimensão de um crime não justifica outro crime
Em verdade, o que se nota no episódio é a velhíssima “lei do mais forte” que tanto marcou a história da barbárie humana. As leis internacionais foram elaboradas e aceitas, pela comunidade das nações, precisamente com o intuito de superar o primitivismo animalesco da vingança, diga-se de passagem. Se dizem que isso é prática de irracionais e de mafiosos fica no ar a crendice desconstrutiva do “acredite se quiser”, pois só vale se não se mexer com os armados e poderosos.
Osama planejou e comandou um crime bárbaro contra as “Torres gêmeas”? Sem qualquer resquício de dúvida. Hitler e seus asseclas, também. Mas foram julgados, condenados e executados estes últimos, já que o mandante se matou. Justiça feita.
A questão da barbárie volta à tona quando se revê a história recalcitrante das nações gigantes. Lembra das bombas atômicas sobre Hiroxima e Nagasaki, em agosto de 1945? Foram “apenas” um troco justificado pelo velho argumento arrotado quando se quer vingar: “guerra é guerra”, sinônimo do primitivismo de um vale-tudo suicida. Pois eram rataliação ao bombardeio sobre Peal Harbor, no Havaí, sofrido pelos americanos, em dezembro de 1941.
A grande preocupação é quanto ao rastro infinitamente vicioso dessas recaídas dos mesmos países poderosos que atropelam os direitos todos para se vingarem. Ficar calado, nessas horas, é o mesmo que apoiar a fajutice da “lei do mais forte”. Aplaudir esses crimes cometidos com farda equivale a bater palmas para execuções e torturas praticadas por militares, por exemplo, em um regime “ordeiro” como todas as ditaduras se intitulam. Apoiar atos de execução, assim, com base numa decisão presidencial, compromete o que resta de racional e isento em nós, para soar como puro cinismo, se, enquanto isso, nos espantamos com o volume da criminalidade “civil”.
Ninguém pode ter a ilusão de que ao executar o “homem mais procurado do planeta” Obama esteja construindo uma linha divisória entre o horror do terrorismo e a isenção da justiça.
Quando alguma nação responde a um comportamento bandido com ação similarmente bandida, ela está fazendo como moleque mais forte que bate no subnutrido e pergunta se o outro “vai encarar”. Vai. Pode não ser no mesmo momento nem com o mesmo padrão de punho usado até ali. A certeza única é que “tem troco”.
Lamentavelmente a isso não se pode chamar de civilização. Pelo menos no sentido universal do termo. Vale para o Texas dos velhos filmes, vale para a postura do moleque de rua, como vale para os bandidos que infestam nossos centros urbanos.
Jogar com bandidos usando as armas e as regras deles é molecagem com os cidadãos. Pelo menos com aqueles preocupados com o progresso no seu sentido mais humano. Um progresso que se mede não pelo gabarito das armas e das munições, nem pelo dinheiro na conta bancária, mas pelo compartilhamento das leis, da cultura, da arte, do saber e, acima de tudo, dos bons modos.
No episódio do fim do Osama não dá para salvar a cara de Obama. Pelo menos até as próximas revelações.
Aguardemos.
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