sábado, 23 de julho de 2011

Os “dois lados” na leitura dos fatos no jornalismo

Uma das limitações mais complexas da produção no jornalismo é relativa à observação dos objetos – sejam eles acontecimentos, propriamente ditos, a serem reconstituídos, ou entidades, a serem ‘analisadas’ em suas singularidades respectivas, ora concretas ora abstratas. Como já se sabe, desde o século III, d.C., um persa chamado Manes firmou uma espécie de ‘princípio’ que assegurava que todas as coisas têm apenas dois lados pelos quais podem ser observadas. Ele reduzia tudo ora para o lado de Deus, ora do Demônio.

Daqueles velhos tempos até os nossos dias muita gente, até gente boa, acredita que essa visão maniqueísta (o nome vem do Manes, acima) é perfeita para a percepção completa de qualquer objeto. O senso comum, então, a consagrou como aquela visão clássica do “preto ou branco”, 8 ou 80, ou “dois lados da moeda”; a paranóia do persa virou uma clássica prova de verdade. Quem pensa um pouco mais já sabe que nem há só o preto ou o branco, nem o 8 ou 80, similar. A moeda, coitada, teve que se contentar com a mentira de que tem só dois lados, quando nem precisa ser alfabetizado para reparar que ela dispõe, pelo menos, de três: a cara, a coroa e a lombada (essa esquecida), sem falar nas três faces internas correspondentes a cada uma das externas. Só aí são seis lados da pobre e mal-falada moeda.

Na verdade, os limites da observação humana estão em todas as áreas sobre as quais os homens se debruçam para produzir algum conhecimento, muitas vezes com as melhores intenções. Claro, não se pode generalizar, pois todos os agentes produtores de conhecimentos têm algumas motivações, umas mais nobres e inocentes, outras até inconscientes; infelizmente, nem sempre a aparente ‘melhor das intenções’ é o que se pode chamar, com justiça, de observação isenta. No jornalismo esses ‘deslizes’, digamos assim, são muito mais freqüentes do que se pensa.

Nestes dias (17 de julho) uma reportagem de fôlego do grande jornal O Globo enfrentou a velha encruzilhada da observação de um objeto, em verdade bem complexo: o BNDESPar – uma espécie de entidade responsável por participações acionárias do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social; um braço, portanto, do conceituado BNDES (que, dizem, Obama quer imitar). A chamada para a leitura da referida matéria jornalística já prometia um olhar, digamos, ‘assinado’: “Um poderoso anabolizante de empresas – BNDESPar se associa a grandes grupos. Efeito colateral é uma ‘perda’ de R$ 3 bi.

Quando o objeto é imaginário

Fora a associação originariamente ‘positiva’ com a função transformadora que as substâncias nutritivas sofrem no organismo (função ‘anabolizante’), hoje claramente negativa, pois associada à química ilegítima, a produção de sentidos do texto de uma página inteira (27), sem anúncios, é, rigorosamente, negativa. Sem dúvida, o que justificou a pauta da matéria foi a iminência – já afastada - de o BNDES participar da operação entre o Carrefour e o grupo Pão de Açúcar. A leitura do texto revela como a observação do objeto (BNDESPar) se dá com um olhar estritamente unilateral, por mais que algumas outras fontes, que não o jornalista, tenham se manifestado. Destaque-se: todas com olhar condenatório da atuação do Banco, que não se manifesta.

Logo no primeiro parágrafo o autor diz a que veio, aliás, como pedem os manuais de jornalismo: “seis das maiores operações realizadas pelo BNDESPar dão pistas de que podem não ter sido exatamente um bom negócio. (...) Levantamento do Globo mostra que as operações acumulam uma ‘perda’ de R$ 3,04 bilhões...a partir de 2007 em comparação ao atual valor das ações negociadas na Bovespa” – sentencia Bruno Villas Boas. No entanto, antes do final do mesmo parágrafo se dá o ‘esvaziamento dos pneus’ da reportagem: “A ‘perda’, claro é contábil, não se consolidou porque a BNDESPar não se desfez dos papéis.” (grifo meu)

Ora, ora. Então, a página inteira de O Globo se dedica a uma pauta agendada pelo imaginário do jornalista? Um autor clássico sobre o jornalismo – Nilson Lage - resume uma espécie de ‘pensamento único’ sobre pautas jornalísticas: “A essência do jornalismo é partir da observação da realidade (do que ela tem de singular), esteja ou não conforme alguma teoria.”(Lage, N. A reportagem. Rio de Janeiro: Record, 2001, p.42)

Na mesma publicação, Lage conceitua reportagem como “exposição que combina interesse do assunto com o maior número possível de dados.” (p.112)

Não é preciso esperteza nem sutileza intelectual para notar que a grande matéria não tem base na “observação da realidade”, pois o Banco não negociara as ações (como, aliás, confirma o texto); logo, não teve prejuízos com elas. Os “dados” apresentados para dar consistência ao discurso (“essência do jornalismo”) são até em grande número, mas pecam pela falta de base mínima, uma espécie de “feijão com arroz”, do cardápio jornalístico: os fatos não existem, simplesmente. Sabe-se, ao contrário, que o BNDES tem uma longa história de competência como arquiteto e pedreiro no cenário instalado dos mais diversos segmentos do parque industrial do país.

Por outro lado, o ‘braço’ que investe em ações, o BNDESPar, não apenas trabalha com uma agenda de longo prazo (be-a-bá de qualquer cartilha de aplicações institucionais), como tem divulgado lucros substanciais (R$ 3,4 bi, em 2008, R$ 3,9 bi, em 2009, e R$ 3,7 bi em 2010).

Como este espaço é vocacionado para as questões jornalísticas, quis-se ressaltar, aqui, a presença de “pedra no meio do caminho”, como diria Carlos Drummond, na leitura dos melhores jornais e nos textos dos melhores jornalistas. Mesmo que o leitor desavisado não tenha consciência de como notícias e reportagens são ‘embaladas’, nunca é tarde discutir esses ‘condicionantes’ da veracidade delas. Não é exagero relembrar que outra “produção unilateral de sentidos” aconteceu exatamente no clássico caso da Escola Base, em 1994, de triste memória.

Por mais que ouvir “dois lados” seja uma espécie de “princípio” ultrapassado no próprio jornalismo contemporâneo – é preciso ouvir todos os lados. Observar um objeto de apuração sob um só enfoque já é uma derrota do princípio da isenção. Quando este nem existe, simplesmente, é uma temeridade.

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