Os meios de comunicação deram, recentemente, um espaço ‘estúpido’ e ‘sinistro’ à polêmica sobre um livro direcionado a alunos adultos de comunidades mais singelas, onde a linguagem oral não costuma primar pelo rigor gramatical. Aliás, em nenhuma comunidade do país se pode dizer que a fala dos cidadãos anda muito atrelada à sintaxe. Basta lembrar como todo o Sul e grande parte do Norte e Nordeste consagraram a segunda pessoa verbal: de peão a governador do estado, praticamente todos dizem o destemperado ‘tu vai’. Na capital paulista e no interior estão consagrados ‘os mano e as mina’. O acadêmico e ex-presidente da república, FHC, em entrevista publicada no dia 29/05 último, defendendo a descriminalização das drogas, não tergiversou, foi atropelando a gramática: “Tá aumentando o consumo; tá tendo um resultado negativo (a guerra contra as drogas), tá danificando as pessoas e a sociedade.” (Folha de S.Paulo, caderno Ilustrada, p.E2)
Pois o ‘tempo fechou’ quando se soube que uma professora de Língua Portuguesa, Heloísa Ramos, havia expressado que convivemos com tal desleixo lingüístico, em um livro distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático. Mais grave: muita gente que se julga ‘boa’ chegou a assegurar que o texto ensinava o erro. Uma procuradora da República chegou a dizer que os responsáveis “estavam cometendo um crime”. (O Globo,17/05, p.3). Um colunista diário do mesmo jornal assegurou que se tratava de uma “pedagogia da ignorância” – mas no mesmo artigo ele cometeu um desses crassos erros de concordância, tão comum na linguagem oral: “Na verdade, está é agravando as condições precárias do cidadão-aluno que busca na escola melhores condições de vida, limitando, se não impossibilitando, que atinjam esse objetivo”. Outro falava que “ensinar compulsoriamente ‘nós pega o peixe’, como admite a nova cartilha, é mais pornográfico que os catecismos de Carlos Zéfiro”. (O Globo, 23/05, p.10- Segundo Caderno)
Aliás, um editorial, do mesmo jornal e no mesmo dia, acima apontado, garante: “um livro que permite erros de português(...) inviabiliza a inclusão social”. O texto continua:“trata-se de questão muito mais séria do que é capaz de alcançar a ideologia de almanaque que justifica tais agressões à língua, à inteligência do país”. (Idem, p. 6)
Durma-se com um barulho desses! Dizer que se fala errado no país transubstanciou-se em “ideologia”, “ofende” a “inculta e bela” e leva de roldão a nossa “inteligência”? Depois as pessoas estranham quando alguém toca na ferida dos meios de comunicação e diz que eles “estão agindo como se partidos políticos fossem.” Pois é. Olhando bem, aliás, lendo bem, não parece que jornalistas, acadêmicos, políticos e clássicos candidatos aos 15 minutos de fama, não têm se comportado com aquela gana desmoralizadora que a saudosa União Nacional dos Estudantes ostentava nos velhos tempos? Cuspido e escarrado.
Dizer que todo mundo está mentindo intencionalmente é exagero, mas qualquer alfabetizado, devidamente despido de preconceito, pode ler que a autora do livro “Por uma vida melhor” jamais ensina o “dois real” nem o “nós pega o peixe”. Este é fato de constatação facílima. Ela não admite o erro, nem o ensina, em qualquer passagem do livro. Apenas informa sobre a existência dos dois padrões de uso da língua – aliás, quem não sabe, deveria estudar um pouco de lingüística ou ler o livrinho da professorinha. A “tia” Heloísa – com todo respeito - e assegura que a norma culta é melhor, em todo corpo restante da obra. Claro, ela não poderia prever que não-leitores de sua obra tomassem as dores de maus leitores.
Pois o livro “Por uma vida melhor” gasta menos de 0,05% do seu texto, no capítulo 1, para informar que a língua falada comporta variações que a gramática condena, mas a fala não deixa de ser entendida por isso; ela garante que o erro pode levar o falante a ser discriminado; garante que existe o padrão correto e o ensina didaticamente – no restante do livro. Mais: nos exercícios 4, 5 e 8 solicita que o estudante corrija expressões erradas.
O jornal Folha de S.Paulo apresentou, na edição de 22 de maio, um estudo de mais de 1500 horas de falantes brasileiros, só com habitantes de capitais, que revela, “entre os brasileiros com nível superior não passa de 5% a freqüência na fala com que o pronome é colocado em casos em que a norma padrão escrita recomendaria. Entre os menos escolarizados, o percentual é de 1%”.(página 6, caderno Cotidiano)
Muita gente boa, consagrada culturalmente, já atropelou formalmente o rigor gramatical. Guimarães Rosa cometeu o seguinte: “O senhor sabe; pão ou pães é questão de opiniães”. Noel Rosa já escreveu “Mulata vou contá as minha mágoa, meu amô não tem erre, mas é amô debaixo d’água”. O célebre padre Antônio Vieira caprichou: “Assim castiga, ou premeia Deus”. Milton Nascimento gravou uma cantiga de marujada que diz: “Quem me ensinou a nadar foi os peixinhos do mar”.
João Ubaldo Ribeiro está certíssimo quando assegura que “muitas vezes, ao falarmos ‘certo’, estamos na realidade falando inadequadamente, como um orador que, num comício no Mercado de Itaparica, se esbaldasse em proparoxítonas, polissílabas e mesóclises.” (O Globo, 29/05, p.7)
Enfim e ao cabo, o livro “Por uma vida melhor” acaba dando uma expressiva lição de cidadania aos editores dos meios de comunicação, aos intelectuais apressados e a todos nós. Lidando com adultos de baixa escolaridade, antes de arrotar regras gramaticais, ele certifica ao estudante que aquele livro não ridiculariza nem despreza o modo rústico, digamos assim, de falar no ambiente dele. Reconhece que a população fala assim, à margem do padrão da Academia, e que é melhor falar com correção – e o livro se dedica a ensinar isso, o tempo todo.
Como diria o velho Victor Hugo: “A palavra, como se sabe, é um ser vivo.” Saber usá-la, sem preconceitos e despido de condenações, sem base nos fatos, é consagrar o compromisso com a cidadania e com a liberdade de existir; ela é muito mais flexível e menos preconceituosa do que nós nos achamos, em nossa vã sabedoria.
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