quinta-feira, 20 de outubro de 2011

GISELE BÜNDCHEN DE LINGERIE

“O perigo é maior quando homens pequenos projetam sombras imensas.”

Deu nos jornais, na sexta-feira ,14 de outubro: “Conar mantém anúncio de Gisele Bündchen de lingerie”. (O Globo, p.28)
Aí ficamos sabendo que o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária decidiu manter a campanha que a mais famosa representante brasileira no planeta fazia de conhecida marca de roupa íntima – vestida a caráter, leia-se, portando majestosamente roupas que lhe cobriam as também conhecidas ‘partes íntimas’. Quer dizer, ‘conhecidas’ genérica e abstratamente falando, claro.
Pois, com tantas questões maiores estourando todo santo dia, não é que 40 cidadãos (que se declaram ‘consumidores’...) se dispuseram a assediar a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres para co-patrocinar uma ‘ação cidadã’ ética contra a ousadia conceitual de se vestir a nossa Bündchen (!) como quem vai à praia, só para suposta e ingenuamente, distrair o também suposto maridinho na hora de relatar - assim como quem não quer nada com o trabalho pesado – que “bateu com o carro, estourou o cartão de crédito e que sua santa mãe iria se mudar para a pobre casa do genrozinho rico e querido”.
Também, pelos jornais, rádios, tevês e blogs, ficamos ‘a saber’, como nossos patrícios d’além mar tanto gostam de dizer, que a decisão tomada é apenas em nível de primeira instância. Ou seja, há fortes indícios, pelo andar da carruagem, de que o jogo será prorrogado, se um ou alguns dos indignados candidatos a “quarenta ladrões” da imagem giseliana resolverem recorrer.
Em contrapartida, novamente pelos mesmos canais de comunicação, honestamente verde-e-amarelos, fica-se ciente da satisfação do SPM “ao avaliar que o anúncio teria explorado apenas mais um dos estereótipos” circulantes na inculta e bela cena brasileira. Só o fato de quarenta cidadãos terem contestado o recurso ao “sex appeal” já seria uma lição da atitude/produto ‘politicamente correto’.
Correto?! Parece que se ouve um coral de 140 milhões de vozes a ecoar pelos quatro cantos da ‘pátria amada’. No ano passado (alguém ainda se recorda?) uma moça, ‘profissional’ em “socialitice”, Paris Hilton, também foi censurada ao tentar vender a conhecida Devassa Bem Loura, fabricada pela família Maluf, nos arredores da exorbitante e saliente cidade paulista que atende pelo indígena e singelo cognome de Itu.
Claro que, em um estado democrático, onde saudavelmente convivem as diferenças mais contraditórias, os ‘quarenta’ supracitados têm todo o direito de protestar contra o ‘estereótipo’ exploratório da performática Bündchen. Da mesmíssima forma como têm todo o direito de ouvir todos os protestos contra tal anatemização. Afinal, é típico da democracia essa largueza e folga no uso (e na respectiva escuta) dos mais variados discursos. Ou será que “ouvimos vozes”?

Enquanto isso, Berlusconi...

Pois é, enquanto nos deparamos com questões tão civilizatórias, como diria o saudoso Darcy Ribeiro, lá no ‘país da bota’, o cidadão que responde pela posto de primeiro-ministro “aposta todas as suas fichas para permanecer no cargo” (O Globo, 14/out.), na quinquagésima sexta vez em que submete ao Parlamento um pedido de voto de confiança nele...Dias atrás as contas dele, relativas a 2010, deixaram de ser aprovadas, mesmo contando com boa maioria no Congresso italiano.
De longe, a gente fica imaginando se ‘tudo isso’ ocorreu só porque o pobre do Sílvio andou falando mal da ministra alemã (não fica bem reproduzir, aqui, o conteúdo da fala do moço). Ou será que pesou na balança a ameaça que fez, recentemente, de cair fora “desse paisinho de m...”? Talvez o que pese ‘na balança’ do defensor intransigente da prisão perpétua para o ‘ativista’ Cesare Battisti, sejam as múltiplas e nada discretas envolvências dele com garotas de programa...A gente nunca vai saber.
O certo é que a velha pátria de Júlio César, de Cícero e da seleção Azurra está metida em uma crise que contamina toda a velha Europa. E o homem de ‘cabelos impecavelmente bem penteados’ (como gostam de qualificá-lo os colunistas da terra que cerca o Vaticano) se equilibra sobre um muro viscoso e sutil de esquivas e bancarrotas. A fala dele agora é: “Meu governo é o único democraticamente habilitado para defender o interesse nacional com a urgência imposta pela crise. Não há outra alternativa confiável para a Itália.”
Como se pode vislumbrar, o velho trunfo do “politicamente correto” é um recurso de ordem universal.

Nesse meio tempo, no Himalaia...

Nossos jornais estão mesmo esfuziantes. Sobram pautas importantes e entusiasmo politicamente corretos. No mesmo dia, o grande jornal dos Marinho informava que “o rei do misterioso Butão, Jigme Khesar Namgyel Wangchuk, se casa com a plebeia Jetsun Pema, de 21 anos, no reino cravado na região do Himalaia, entre a China e a Índia.” (p. 31)
No corpo da matéria – aliás, tecnicamente apenas uma ‘nota’ – ficamos sabendo que o Butão “lentamente adota a democracia”, sugerindo o relato que o enlace com uma ‘plebeia’ é mais um gesto democrático da família real que vê muitos outros tronos seculares balançarem, tanto no norte da África quanto no oriente e nos cantões mais civilizados do ocidente.
Alguém ainda se lembra do candidato ao “trono” francês, o ‘prolífico’ Dominique Strauss-Kahn? Bem, aí é outra história ‘cabeluda’, muito politicamente didática para o alcance dos nossos valores de colonizados, ou de ‘vira-latas’, como diria o falecido Nelson Rodrigues. Mas já bastante gasta. O dito cujo atende até por sigla: DSK e é natural da terra de Descartes, de Luiz XV, de Sartre, entre outros inesquecíveis ‘monarcas’ do método, da aristocracia e da cultura existencialista...Politicamente mais correto é impossível. Fiquemos só ‘de olho’, como diria o inefável Pedro Bial, se convidado fosse para esta ‘espiadinha’ indiscreta, mas esperta, onde se comete a ágape com as misérias humanas mais toscas e hilárias, não fossem trágicas.

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