sábado, 12 de fevereiro de 2011

Critérios de noticiabilidade

Submerso num turbilhão de objetos de suposto interesse do público-alvo, cada pauteiro recorre a uma espécie de lista de referenciais para poder escolher aqueles que serão agendados em cada edição.
A lista costuma apontar "valores" que guiam o exercício da curiosidade do público, sempre regida pelo pré-princípio da "novidade". Os critérios são conhecidos como elementos de:
. proximidade, isto é, quanto mais o objeto se situa perto do receptor mais ele tem curiosidade sobre o mesmo;
. interesse humano, que explica porque temos mais curiosidade sobre celebridades, crianças, grávidas, idosos etc.
. intensidade - quanto maior a quantificação para exprimir um acontecimento mais este desperta o interesse;
. raridade - o fato real que se aproxima do inverossímil, do famoso 'cúmulo do absurdo', é muito bem recebido pela curiosidade geral.

Evidentemente há todo um jogo de pesagem, onde os critérios disputam os melhores lugares relativamente aos demais; um acidente sem maiores conseqüências, por exemplo, com o prefeito de Pequim (se é que lá existe tal encargo cívico) não tem qualquer apelo de "proximidade" para os brasileiros, nem para o resto da China, apesar do peso do elemento "interesse humano".
O roubo ou furto de um veículo é uma "novidade", mas só ganha a pauta noticiosa se o objeto afanado for de uma celebridade local - há alguns anos Pedro Bial 'foi aliviado' do seu automóvel, um Golf, e isso foi notícia em praticamente todos os veículos da cidade do Rio de Janeiro.
Por que acidentes de trãnsito matam diariamente o equivalente a algumas dezenas de passageiros de aviões e mal são notados? No entanto, a queda de cada aeronave comercial, com menos de 10% das vítimas do trânsito urbano ou rodoviário, gera uma cobertura de volumosa nos meios de comunicação: é o peso do critério da "raridade".

Pode-se fechar estas considerações com os princípios da ponderação e da comiseração.
"Comiseração", em razão do peso do trabalho de escolha que têm os jornalistas encarregados da pauta de seus respectivos veículos. "Ponderação", porque, excluída a verdadeira 'tara' que os pauteiros têm pelas notícias e reportagens negativas, a turma que precisa escolher entre milhares (milhões ?) de possíveis objetos de interesse do público tem um trabalho insano. Não dá para simplesmente condenar as escolhas.
O que podemos fazer é cobrar dos nossos meios de comunicação mais opções positivas, mais aprofundamento na apuração dos dados, mais, muito mais diversidade de pontos de vista do que os antiquados e maniqueistas "dois lados" que os velhos jornalistas juram ter a capacidade de mostrar toda a verdade de um objeto de pauta.
A flexibilidade do olhar é um sintoma da inteligência de quem olha. Este o critério que se espera presidir as mais diversas coberturas e apurações no nosso jornalismo de cada dia.

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