quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O que explica a queda da violência

Já se comentou, aqui, sobre a suposta sede atávica da população por más notícias; uma espécie de “complexo de hiena” ou de “urubu”, todos igualmente consumidores de podridão.

Em dúvida se tal sede é, de fato, da população ou do jornalismo, ficamos com a evidência de que o incentivo do mau hábito, por parte dos jornalistas, é ato um claro de sugestionamento ou, mesmo, de semeadura. Para os profissionais da notícia, a coisa funciona como um sério argumento de venda. O mote é ‘dar ao povo o que o povo gosta’. Mas, gosta só disso? Ou gosta tanto disso por ser alimentado apenas de lixo humano?

Em verdade, boas noticias são tão raras e tão pouco destacadas, quando ganham algum espaço, que não se pode deixar de comemorar aquelas que conseguem furar o bloqueio do suposto “gosto do consumidor”. Agora, mesmo, fomos brindados com a notícia de que as taxas de homicídio e outros crimes caíram nos estados do Rio e de S. Paulo. Certamente não se pode explicar o fato auspicioso pela oferta menor desse tipo de cardápio nos meios de comunicação de massa. Basta dar como exemplo de como a criminalidade favorece a violência: no estado de S. Paulo a região de Presidente Prudente, onde foram instalados 17 presídios recentemente, foi onde mais cresceu a taxa de homicídios (53,3%, só no último ano).

Apesar da insistência nesse padrão de produto negativo, uma espécie de incentivo ao crime, felizmente a dinâmica da história dos homens revela mudanças. É possível, até, que as denúncias dos jornais tenham contribuído para a queda da criminalidade. Difícil crer, mas, quem sabe? Todavia é preciso considerar um cenário maior para se entender os números positivos.

Na antiga ‘terra da garoa’, pois, hoje, já não garoa mais, o reforço na capacidade penal, as ações de cunho social e os projetos comprometidos com a segurança explicam, em parte, a redução da criminalidade.

Na cidade do Rio não dá para desconsiderar a iniciativa de instalar UPPs em locais críticos; elas são verdadeiras retomadas cívicas de territórios soberanamente dominados pelo crime. A ocupação dos complexos do Alemão e da Vila Cruzeiro também tem méritos significativos, principalmente morais, pois levanta a bandeira de que “é possível fazer acontecer”. Projetos de ONGs, como o do AfroReggae, também resgatam a cidadania e semeiam a esperança. Sem essa dose de sonho bom os homens não atuam como cidadãos e se deixam levar por quem os subjuga, facilmente.

Não haveria mais algum outro condicionamento de âmbito nacional para as taxas reduzirem? Por trás das várias iniciativas mencionadas acima, muito provavelmente estão a melhoria dos índices econômicos, a queda da taxa de desemprego (no Rio 5,1%), a sustentação do poder aquisitivo do salário mínimo (só comparável à época de sua criação) e a alta do salário médio dos trabalhadores - no Rio R$ 1.929,05, por exemplo, contra R$ 1.615,73, em S. Paulo, segundo o IBGE). Além desses fatores estratégicos é preciso acrescentar o papel fundamental da redução das desigualdades, evidenciada pelo ingresso de cerca de 30 milhões na classe média.

Assim fica claro que os bons números, ainda que longe de serem suficientes, são resultados de um empenho de âmbito nacional. Se todos aceitam o conceito de que “não há almoço grátis”, também é preciso saber “ler” o contexto responsável pelas precondições favoráveis para a queda da violência, pois não há “queda da violência grátis”. Por trás há, sempre, um esforço pesado em prol das melhores condições de vida.

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