terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Telhados brancos

O mundo das idéias está cheio de possibilidades magistrais, só aguardando que nossa inteligência se torne mais fina e sensível para que possamos aproveitá-las. Este é uma espécie de princípio que carrego comigo desde sempre (em verdade, a data ficou desbotada), e ao qual recorro quando as coisas ficam aparentemente sem saída. Como está cada dia mais evidente a questão do aquecimento global e suas conseqüências fatais.

Vivendo em um planeta que foi condenado à extinção da vida pelas iniciativas irresponsáveis dos seus moradores, cada dia se torna mais urgente identificar, criar e apoiar idéias que conduzam a soluções para o túnel sem saída em que nos metemos, junto com todos os animais – diga-se de passagem.

Nessa linha de preocupações, a iniciativa de pintar de branco os telhados aparece com a força de um movimento que precisa de todos e merece atenção geral. Trata-se de uma campanha elaborada pelo GBC (Green Building Council) e sustentada pelo laboratório Lawrence Berkeley National.

Segundo o laboratório, cada cem metros quadrados de telhado pintado de branco compensa dez toneladas de CO2 ao ano, o grande vilão do aumento da temperatura. De imediato, existe a redução da temperatura no interior de cada imóvel na ordem de dois a três graus – isso gera uma redução de gasto de energia para compensar o calor, tanto em cidades de clima tropical como em outras, nos períodos de verão.

Outro efeito dos telhados brancos, desde que o número deles sempre expressivo, é a redução da temperatura em um grau nas próprias cidades onde ocorrer a adoção da medida. O diretor-executivo do GBC do Brasil, Nelson Kawakami afirmou que:

- Ao proporcionar maior conforto térmico, os telhados brancos reduzem o consumo de energia com ar-condicionado e ventiladores. Mais que isso: eles são de fácil aplicação e pouca manutenção. Já existem tintas e materiais autolimpantes que evitam que as superfícies tenham que ser repintadas depois de alguns anos. (O Globo, 6/01/2011, p. MB1)

Na capital de Santa Catarina, Florianópolis, já existe, desde dezembro de 2009, uma lei favorável à pintura das coberturas de edifícios e residências – mas ainda está aguardando a respectiva regulamentação. Foi proposta pelo vereador Jaime Tonello, criando o “Programa de Redução do Aquecimento Global no município, através de ações que visem a estimular a pintura, na cor branca, dos telhados das construções do município.”

A Companhia de Desenvolvimento Habitacional do estado de São Paulo já encampou a idéia: os conjuntos habitacionais ganharão a nova cor, sejam antigos ou novos, em Cubatão, Itanhaém, Piraju, Valinhos e Ilhabela. Aliás, esta última já pintou os prédios do hospital, do ginásio de esportes e de algumas escolas e foi a primeira prefeitura nacional a aderir ao movimento batizado de “One Degree Less” ou “Um grau a menos”. Lá algumas residências particulares alteraram as cores de seus telhados e a prefeitura estuda uma forma de premiar tais iniciativas com descontos no IPTU.

E nós, de braços cruzados?

Enquanto isso, será que o resto do país vai ficar aguardando os resultados para se animar e começar a se mexer? Será que temos tempo contemplar os bons exemplos enquanto aguardamos com as mãos na cintura? Quem esteve recentemente em locais atingidos pelas últimas catástrofes – como na região serrana do estado do Rio de Janeiro – certamente sabe que a resposta é não; não temos esse tempo para contemplar, enquanto degradamos a natureza. Os quase mil mortos e cerca de duas centenas de ainda desaparecidos tornaram aquela tragédia a maior do país.

Precisamos fazer algo de imediato e de modo concreto. Por exemplo: está acabando alguma construção? Pinte o telhado de branco. Pode participar da reunião no seu condomínio? Converse logo com o síndico e tente incluir na pauta a iniciativa. Conhece algum vereador ou deputado, ou dispõe de um canal de comunicação com um deles? Toque no assunto com ele – incomode, faça-o ver que esse é um projeto de futuro e repercussão garantidíssimos.

Há um conhecido pensamento de Bertold Brecht que, livremente, diz o seguinte:
· Primeiro levaram um judeu – nem tomei conhecimento.
· Depois levaram outros – não me revoltei.
· Agora vieram me levar...como posso reagir?

Antes que o aquecimento global acabe com nossas vidas, nós temos que tomar conhecimento dele, nos revoltar contra a situação e reagir. Ficar esperando que as autoridades, sozinhas, tomem a iniciativa pode vir a ser tarde demais.

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