Nos primeiros dias do novo ano os jornais divulgaram que a editora responsável pela publicação dos livros de Mark Twain, nos EUA, vai retirar a palavra nigger dos ramances dele. Como o termo é tido como pejorativo, será substituído por ‘escravo’ nas centenas de vezes em que aparece nas obras, editadas pela NewSouth Books.
É bom observar que muitas escolas – numa atitude politicamente correta - já não adotam, há décadas, as publicações do clássico escritor, em razão dessa linguagem politicamente incorreta. (O Globo, 06/01/2011, p. B12)
No Brasil, por muito menos, os jornais caíram de pau, em novembro último, sobre uma solicitação inicial de um organismo subordinado ao MEC que sugeriu fosse incluída uma ‘nota explicativa’ em texto de Monteiro Lobato – também um clássico – que emprega uma expressão muito mais racista que a do Twain. Ao narrar um possível ataque de animais selvagens, o velho Lobato dispara, sugerindo a clara inferioridade dos negros:
- Não vai escapar nem tia Nastácia, que tem carne preta...
Curiosamente os nossos intelectuais, jornalistas e agregados reagiram indignados. Todos. Acusavam o governo de estar querendo censurar o clássico Monteiro. Em verdade, quando se soube da sugestão dada já se sabia que o Ministro havia vetado a iniciativa; mesmo assim não se perdoou a já sepultada proposta.
"Nota explicativa" seria mesmo censura? Não valeria a pena alertar os jovens leitores de que ali o "clássico" M. Lobato estava reproduzindo um preconceito da época dele e isso é coisa feia?
Siga o raciocínio:
a) Nos dois casos (Lobato e Twain) os autores são mesmo clássicos infanto-juvenis.
b) Nos dois casos os autores se expressam com fervor racista – não se pode negar.
c) Em ambas as situações os textos vão ajudar a formar a cabeça da juventude.
d) Ora, como se sabe, "é de pequenino que se torce o pepino".
e) Também, como é sabido, jovens e adultos continuam tendo atitudes segregacionistas, como de racismo, de machismo e de homofobismo.
f) Vale a pena liberar para os pequenos essas sementes racistas, se na infância é que são plantados os valores básicos do futuro cidadão?
O mais lamentável de tudo é que os veículos de comunicação deram espaço nobre
apenas para os adversários da tal ‘censura’. Depois a sociedade e os próprios meios de comunicação ficam espantados com os comportamentos de racismo, machismo e homofobismo.
Por mais que a Constituição diga que é abominável a segregação de qualquer natureza, os negros continuam com acesso restrito à universidade e aos melhores postos nas empresas; as mulheres continuam a receber salários inferiores aos dos homens e permanecem tratadas a pancada; os homossexuais continuam a ser perseguidos e mortos (só no Brasil, cerca de 200 são executados por ano).
Qualquer dia a turba vai eleger candidatos cujas bandeiras não serão mais "bandido bom é bandido morto". Para usar um slogan de um deputado recém-eleito pelos paulistas com um tsunami votos, "Vote em Tiririca, pior que está não fica".
Tudo é possível, se não se faz o possível para alcançar resultados possíveis. Preconceitos vêm pelas beiradas, desde a infância, e ali precisam ser ceifados. Ou fica muito difícil reverter. Então as pautas dos jornais continuarão expondo o lixo preconceituoso das peçonhas que criamos – preocupadíssimos com os intocáveis "clássicos".
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Politicamente correto?
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