terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Formadores de opinião?

Ele assina José R. Cantanhede e a afirmação não deixa dúvidas: “A obrigação dos jornais e das tvs é informar e só, nada mais do que isso. Esse negócio de dizer como deve ser, ou como nós, a população, devemos fazer não cabe a esses pseudoformadores de opinião. O dever da mídia – jornais, revistas e noticiários da tv - é informar os fatos, os acontecimentos, com total isenção. Para quem lê, ouve ou vê tire e tome suas próprias conclusões.” (Imprensa, jan/fev. p. 6)

Como se vê, a discussão sobre a adequação do espaço jornalístico para oferecer opinião e interpretação tem enfrentado resistências. Todavia há uma torcida mais amigável; na mesma publicação, edição e página, Domingas D. de Lemos lamenta a saída do Mainardi da Veja: “Que pena... sou sua leitora e admiradora de sua disposição e coragem, com as quais por tanto tempo enfrentou e venceu tantas perseguições. Sinto-me em prejuízo com a redução de suas tão ricas e esclarecedoras informações.” Possivelmente ela não tomou consciência de que o colunista trabalhava mais com opinião e interpretação que com informações propriamente ditas, mas o desabafo é significativo.

Na última edição do programa ‘Larry King Live’, o presidente B. Obama ofereceu uma terceira posição, sem esgotar outras possibilidades, ao agradecer o titular pelos serviços prestados: “Obrigado por estes 25 anos de conversas com os americanos. Dizem que ele só faz perguntas, mas as respostas que obtém nos surpreendem, nos informam e nos abrem os olhos.” Todo mundo sabe que perguntas podem provocar dados objetivos, sensações, interpretações e opiniões; é uma das riquezas das entrevistas, mesmo quando aplicadas como ‘espetáculos da fala’, conhecidos como talk shows.

Fica evidente que, independente de quem manifeste sua opinião, o cardápio dos meios jornalísticos tem produzido ‘odores’ variados. E eles não são apreciados de modo homogêneo, aliás, como os cheiros, de modo geral, não o são. Por isso o tema volta neste espaço.
Felizmente não há um dogma papal, acadêmico, espiritual ou ético para solucionar a questão. Caso houvesse, deveria ser discutido. O que se pode perceber é que os meios de comunicação, em si, têm sido pauta de discussão também entre os não-jornalistas. O que é um belo trunfo para a categoria, pois já dizia a sabedoria popular mineira: “ame ou odeie, pois a indiferença mata”.

A base de uma discussão sobre o jornalismo deve ser o conceito que se adote relativamente a ele. Aqui se trabalha com a perspectiva de que o fazer jornalístico é um:

“Processo de elaboração de sentidos sobre eventos, temas e personagens que possam interessar ao público.”

Tendo essa definição como referência, torna-se patente a possibilidade de atender aos objetos do desejo (dos interesses) mencionados acima pelos leitores citados. Assim, os eventos devem ser tratados com o máximo de isenção possível, sim; mas aqui o Cantanhede vai se decepcionar: a isenção total é um produto que está fora do alcance humano na produção de sentidos, de relatos. Por outro lado, os temas podem ser reconstituídos – também com a limitação da objetividade humana – mas podem merecer interpretações e opiniões; desde que as opiniões fiquem nos espaços reservados para tal (editoriais, artigos, crônicas, colunas, charges) e as interpretações sejam oferecidas em depoimentos de fontes e de personagens, o que é característico de reportagens, entrevistas e demais matérias de opinião.

Assim, sem querer ser didática e já sendo, a notícia tem como objeto os acontecimentos – onde cabe cobrar isenção. A reportagem se dedica a assuntos e personagens – nela cabem pontos de vista diferenciados, interpretações e opiniões, desde que não emitidos pelo jornalista. Já editoriais, artigos, crônicas, colunas e charges trabalham com as três ‘substâncias’ questionadas algumas pelos leitores: informação, interpretação, opinião.

Jornais, portanto, precisam trazer um serviço mais amplo que só a opinião, mais que a simples informação, mais que a pura interpretação. O jornalismo é como um cardápio, constituído de ofertas diversas, cabendo ao consumidor eleger o que deseja degustar. Simples assim.

Para encerrar, por ora, a conversa, fiquemos com uma expressão mais sábia do que os diplomas que não tem revela nas palavras do ex-presidente Lula, em entrevista a blogueiros, no dia 24 de novembro:

- Sou o resultado da liberdade de imprensa no Brasil. (Os que se acham formadores de opinião) se enganam; o povo não é mais massa de manobra; ele está mais inteligente...

Nenhum comentário:

Postar um comentário