domingo, 1 de abril de 2012

COMO UM DICIONÁRIO FAZ FALTA

Nossos melhores jornais e revistas - seguramente, também os não tão bons - andam disseminando perigosamente, até, uma franca e espantosa inaptidão para o uso de um livrinho chamado dicionário. Não é mais concebível que seja chamado de 'pai dos burros', pois quanto mais culto e inteligente for o cidadão, mais deveria usar tal memória fantástica. Segundo o nosso “Aurélio”, com justeza é definido como "conjunto de vocábulos de uma língua...com o respectivo significado". (Aurélio, 2004, p.674)
Uma questão que andou merecendo uma corridinha ao ‘pai dos espertos’ é a impertinente gororoba que querem nos empurrar, goela a dentro, 'privatização' como um perfeito sinônimo de 'concessão'.
Como se trata de uma pauta nitidamente política, a discussão ganhou mais espaço do que o famoso 'satisfeitissíssimo' de um antigo ministro. Naquela ocasião, se acusava o autor da 'criação' exótica de ser apenas um "semianalfabeto", um "operário", “sindicalista”, para outros, que, não se sabia como, fora ocupar a chefia de um Ministério. Lembra do sindicalista Magri? Pois é; os que se julgavam 'bacanas' não perdoam 'gente de baixo querendo aparecer' - como afirmaram indiretamente quase todos os meios de comunicação de massa na época, alguns ‘apresentadores televisivos e radiofônicos’ e outros colunistas, sempre donos da verdade; aliás, os mesmos que incitaram a população de São Paulo a fazer o linchamento dos donos da Escola Base, em fins de março e início de abril de 1994. Deu no que deu.
Agora, as 'celebridades' que assinam artigos e colunas de crônicas se apegaram ao ato público e notório da concessão administrativa, dada pelo governo federal em benefício de alguns aeroportos do país. Não por mera coincidência, o leilão concessionário ocorreu dias após as pesquisas revelarem o expressivo apoio da população ao governo atual. Aliás, superior ao nível de aprovações tanto dos governos Lula quanto FHC. Como um "poste" poderia ir tão longe, ninguém sabia explicar, naturalmente. Nem tentativas ocorreram. Os autores da tese 'postista' entraram mudos e saíram calados. Mas descobriram uma possível ‘pólvora’: a chaga da privatização.
Especialistas em factóides se reuniram em um conglomerado de conhecidos vultos políticos – desses que passeiam por Brasília de terça a quinta feira, pela manhã, que “ninguém de ferro”, dizem – para inaugurar, dia desses, uma placa comemorativa da “primeira privatização do governo atual”. Eram concessões de aeroportos. Entre os ilustres factoidistas se destacava a careca alarmista do “doutor” Demóstenses Torres, para usar uma expressão consagrada em inúmeros ‘telefonemas preocupantes’, digamos assim, pelo amigo íntimo Carlinhos Cachoeira.
O que nos tocou, no momento, foram a agilidade e a dissimulação dos 'intelectuais' que 'bateram na ferida', como gostam de dizer, contra uma "incoerência espantosa" - segundo sentenciou um desses ilustres amigos do amigaço do Cachoeira. Certamente ainda magoado com a falta de coragem de debater a questão da 'privataria', notada entre os mesmos que, antes, se "orgulharam" de realizar privatizações às dezenas - diga-se logo, com amplo apoio dos mesmos veículos de comunicação que sempre sustentaram ditaduras, bancos e grandes corporações - em especial, as estrangeiras -, neste "berço esplêndido".

O pingo no i

Aí, como quem não quer nada, você pega um dicionário e vê lá, com todas as letras: concessão é "ação de conceder; permissão, consentimento" (...); "do latim concedere, concessione". (Aurélio, pp. 514 e 515). Quem é dono de um imóvel, por exemplo, ao alugar ou arrendar o dito cujo, não faz nada além de conceder seu uso a outrem, sem transferir a propriedade, o que "até as pedras sabem", diria o Nelson Rodrigues. Já privatizar ganha outra dimensão: é "passar a propriedade do governo...a entidade (es) do setor privado", vem, também, do latim "privatus=próprio". Tudo exatamente igual a vender um imóvel. (Aurélio, p.1632)
Não soa estranho que certas cabeças que se acham iluminadas, doutas, insistam em propagar a falsa igualdade? Um conhecido ex-presidente gastou um artigo inteiro, em O Globo, para dourar a pílula da mesma tentativa de engodo semântico. Ele e outras vozes menos doutas parecem compor um coral, só que afinado no estupro da verdade dicionarizada. E nos perguntamos: Um arrendamento ou aluguel seria idêntico a uma venda? Não, por seus efeitos jurídicos, muito menos em nossa outrora “inculta e bela” flor do Lácio.
Poderíamos assegurar, com base nos dicionários e na legislação, que, segundo Nelson Rodrigues, tal unanimidade é burra? Não parece. A burrice é aquela que escuta calada tal ‘crime’ linguístico, pois “quem cala, consente”, diz o povo. Esse jogo de sinonímia fajuta tem tudo de esperteza e nada de burrice. Espertamente, apenas aposta no comodismo com que escutamos certas falcatruas e deixamos que elas ganhem corpo, até virar verdade. Outra fala popularizada diz que “repetida indefinidamente, uma mentira se converte em verdade.” É nesse jogo-de-bicho que apostam os espertos...
Repare-se que, além dos conhecidos colunistas (que vivem à sombra da hierarquia dos seus veículos, ajudando-os, alegremente, a jogar pedras nos desafetos da chefia), algumas mentes que não precisam de tal postura servil, também correram a cocorocar que a = b. Se é que me faço entender.
Claro que muitos desses não olham para um dicionário, há décadas. Alguns por não saberem usá-lo, pois isso não dá voto; outros por se acharem acima dele. Entende-se essa dificuldade muito 'natural' da inconveniência de um “aurélio”, seja assinado por quem for. Todavia, merecem ouvir a conhecida troça do hoje político Romário: Tem gente que, calada, é um sábio.

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