segunda-feira, 2 de julho de 2012

REMANSO E CACHOEIRA



O perigo é maior quando homens pequenos projetam sombras imensas.”

Remanso

Não se trata de preconceito contra baixinhos. Para eles também existe o ditado, aliás, mais popular do que o pensamento acima: “Dos pequenos frascos é que vêm os melhores perfumes”. Genérico demais, sem dúvida, pois quem faz exames de fezes...Bem, é melhor deixar isso pra lá; longe de ‘ventiladores’, como são nossos pensamentos e palavras.

Cachoeira

Enquanto isso, entrou na pauta do país, saindo do remanso, um pequeno-homem com uma mega-sombra, o multifacetário Carlos Augusto Cachoeira – vulgo ‘Carlinhos Cachoeira’, para os íntimos do raio de ação de certos ventiladores, acima mencionados.  O aspecto imponderável e ainda não explicado convincentemente, ‘pelas partes responsáveis’, foi o prolongado remanso em que o ‘queda d’água’ atuou, tecendo a sombra imensa, incrivelmente guardado, desde 2009, por um ministro do Supremo Tribunal Federal.
A sociedade ficou sabendo que a ‘cachoeira’ do Cachoeira ficou resguardada por quatro longos anos (enquanto ele, insuspeito, comandava o circo, com plenos poderes), apenas porque determinado ministro do Supremo Tribunal Federal “aguardava os resultados de outras investigações” que ele não sabia que existiam, pois eram secretas e de outro poder
Diz a sabedoria popular que “de bumbum de neném e certas cabeças nunca se sabe o que pode sair”. Percebeu que este ‘dito’ pode ser generalizado, aliás, muito fartamente? Fiquemos, apenas e tão somente, com o imediato que ‘saiu nos jornais’. As entrelinhas imensas, que costuram o entendimento das leis, possibilitam tantas vertentes que tudo, rigorosamente, é esperável dos defensores dos ‘fracos e oprimidos’, como passam a ser tratados os pequenos-homens deste país, quando surpreendidos em seus mal-feitos. Literal e freqüentemente, nosso território verde-e-amarelo vive inundado por ‘cachoeirices’ deste padrão de atitude da fina elite (os cachorros nos perdoem, pela semelhança vocabular...).
Até o momento, três governadores foram ‘acachoeirados’, no cenário ‘ventilado’ da CPI; claro que com amplo espaço para suas legítimas defesas. O filho do grande musicólogo, Sérgio Cabral, tudo indica que já se viu livre deste portentoso ventilador. Que siga longe do seu raio de ação; pois certas amizades, companhias e conluios não ficam bem a autoridades nem a integridades, como já sugeria o princípio ético romano: “À mulher de César não basta ser honesta; precisa parecer honesta.” Isso se aplica a cidadãos, vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores, ministros, presidentes. Ah, até a papas.
Sem remansos, que, nesse quesito, como diria o povo: o buraco é mais embaixo.

Remanso, cachoeira e ‘mensalão’

Nessa mesma corrente do caudaloso rio de cachoeiras e remansos estratégicos, ganhou espaço generoso o choro do ministro, reclamando que o ex-presidente Lula o teria pressionado a favor dos ‘mensaleiros’. Do ‘mensalão’ você ainda se lembro, ‘por pressupuesto’, não?
Todavia, parece que a sociedade não estranhou muito o fato de o constrangido ministro só vir a reclamar, mais de um mês após o suposto assédio. Como todo mundo pôde perceber – você não notou? –, o caso rendeu ‘panos pra manga’, especialmente nas agendas de conhecidos veículos que muito curtem ‘ventilar’ os mal-feitos – até tragédias - sobre certas personalidades ou entidades que eles carimbam de ‘inimigos’. Não importando se o dito é só aparente ou real, pois pouco se importam com o singelo ato de ouvir todos os lados envolvidos; eles querem é ‘ventilar’, pois isso vende. (“LULA É INTERNADO”, foi a manchete mais recente, sugerindo uma tragédia: era só para tirar um cateter...) Isso é feio. 
Vem cá, como em todos os países, para ser ministro não há a pré-condição de se saber viver em um ambiente onde circulam todas as versões e ‘torcidas’, especialmente da mídia que adora a condenação prévia? Nem é preciso lembrar os casos Brizola, Alcenir Guerra, Escola Base e Ibsen Pinheiro. Mais: se houve a pressão – que a única testemunha nega -, foi preciso ‘amadurecer’ a consciência por mais de um mês? Louve-se a sensibilidade do ministro, mas que o remanso de 40 dias pegou mal, pegou.
(*) João de Deus Corrêa é jornalista, professor universitário e colaborador deste veículo. 

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